Influencer: o alter ego da mediocridade
Ultimamente
tenho pensado um pouquinho sobre esse fenômeno do mundo moderno, tentando
entendê-lo.
Tenho
visto pessoas “simplórias” (vou usar esse adjetivo na falta de outro que seja
menos ofensivo do que o que eu gostaria de usar) idolatrando sem medidas essas
figuras que chamam de influencers e percebi que não importa muito o que elas
fazem, se cometem crimes ou não, se se dedicam a algo bom ou mau, porque não há
muita condição de se fazer esse tipo de julgamento no fanatismo ou na patologia. Também não
importa se seus seguidores têm alguma vantagem em segui-los ou somente
prejuízos. Só importa segui-los. Até um perigoso nível de lealdade.
Procurei
o conteúdo ou o feito que faz as pessoas idolatrarem e seguirem alguém e
lembrei que até assassinos condenados ficam famosos e têm fã clube, capazes de
fazer quase qualquer coisa por eles. Precisei considerar que existe uma enorme
diversidade de influencers que têm tratado dos mais diferentes temas, de
finanças à culinária. Então pensei que talvez não seja o que eles fazem que
atrai, que seduz, mas como eles fazem. E aí eu também tive que considerar que
muitos influencers apenas representam que fazem e isso é suficiente para que
muitas pessoas os sigam. Talvez fosse o bem que fazem aos seus seguidores, mas
a maioria dos seguidores não tem vantagem real alguma em seguir seu influencer
preferido, então também não é isso.
Embora
alguns influencers de fato realizem coisas, alguns vivem aventuras reais e ensinam coisas boas, não é
o que fazem nem como fazem que mais importa para que se tornem objeto de
desejo, para que arrastem um séquito obediente e fiel ao ponto de perigo.
Então
o que é que faz um influencer? De onde parte a motivação para a idolatria?
Influencer
é um tipo de alter ego dos seus seguidores. Um eu ideal, alguém que a pessoa
gostaria de ser, cujos atributos ou realizações ela considera fora do comum,
extraordinários. É aquele que fez, que ao menos aparentemente realizou algo que
a pessoa desejaria realizar, mas não consegue e que talvez nem tente.
O que
cria um influncer é o influenciado.
As
pessoas transferem para o influencer aquele desejo profundo, talvez até
inconsciente, e então o idolatram porque “ele realizou”, ou representa que
realizou, e isso satisfaz o sujeito que não realiza. Por isso vira uma espécie
de super-herói.
Perceba que quem realiza e está seguro com suas realizações, quem está bem resolvido psiquicamente com sua identidade, não segue influencers da mesma forma, não idolatra, não cega diante dessa figura, porque não precisa transferir suas frustrações para um alter ego que “realiza”, porque ele mesmo vive.
Geralmente,
as pessoas que, no fundo, sabem que levam uma vida medíocre, miserável, no
sentido de realizações, que tudo o que fazem é ir ao trabalho e voltarem para
casa, suportando rotinas e repetindo hábitos. Que vivem ganhando para pagar e
pagando para ganhar. Que dedicam sua vida ao que não gostariam de estar
fazendo, mas não têm coragem de reconhecer ou de sair desse círculo vicioso,
quando encontram alguém que realizou algo que elas admiram ou que corresponda a
algo recalcado, elas idolatram.
E eu suspeito
que os políticos começaram a ser substituídos por influencers e, num futuro
próximo, para ser eleito, será necessário esse tipo de perfil e não o perfil
político. As propostas, as negociações, as ideologias, as opiniões pouco
importarão. Só o que vai importar será o número de seguidores e a força da
influência.
Ainda
existem poucos estudos sérios sobre esse tema, mas já começam a surgir alguns na
área da psicologia e da neurociência. Certamente que o marketing está muito à
frente e sabe como explorar a psique humana para atingir objetivos. Abreu et
al (2022) pesquisou as influencers e a autoimagem como produto de
comportamento e de consumo. Da perspectiva da psicologia, as autoras concluíram
que há uma busca de si, no outro, e também de aceitação e inclusão, o que leva
à elaboração dos sofrimentos e dos comportamentos diante dessa busca.
O influencer
torna-se o produto a ser consumido, o objeto de desejo (Bauman, 2008), suscitando
nos seguidores o desejo de fazer o mesmo, de serem como ele, de terem o mesmo
sucesso, a mesma exposição, a mesma fama, a mesma vida “perfeita” e até os
mesmos haters.
Enfim,
trata-se de um comportamento narcisista da parte do seguidor, focado em si, na
autoimagem, muitas vezes distorcida, que encontra eco no narcisismo do
influencer, o centro, o produto ideal.
E alguém que quer ser o outro ou como o outro é alguém que não sabe quem é ou não aceita quem é, nega ou ignora a sua própria identidade e a importância do lugar que ocupa no mundo. Reelaborar sua vida e suas ações, buscar um estilo de vida que nos faça bem é perfeitamente compreensível e até desejável. Mas considerar a vida de um produto digital como a ideal, acatar comandos, sugestões e pautar a sua vida nisso, buscando ser igual ou ter o mesmo que ele têm, não parece um comportamento muito saudável, embora cada um deva mesmo ter a liberdade de fazer o que quiser com a sua vida.
REFERÊNCIAS
ABREU, Liliane Alcântara de. Et al. As influencers digitais e a autoimagem como produto de comportamento de consumo. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 07, ed. 01, vol. 05, 2022, p. 05-33. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/comportamento-de-consumo
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
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