segunda-feira, 8 de julho de 2019

O QUE IMPORTA É SER FELIZ?



É mesmo?



Este é um falso imperativo da nossa época, que pode estar bem equivocado e pode ser causa de problemas na vida das pessoas que o adotam.

A linguagem tem uma relação íntima e direta com nossa cognição, com nossa psique, com nossa identidade e com nosso comportamento.

Na expressão “o que importa é ser feliz” está implícita a ideia de que a felicidade é O QUE IMPORTA, é O CARA, portanto os outros valores não importam mais.

Nesta expressão estão presentes o egocentrismo e o egoísmo. Ela está dizendo que o que importa é a felicidade de cada um, porque não diz que o que importa é fazer feliz, mas ser feliz.

Esta expressão serve como antolhos para nós.

Antolho é o nome daquelas barreiras que limitam a visão lateral dos cavalos, para que eles olhem somente em uma direção.

Mas nós somos humanos, não somos cavalos que precisam ser direcionados.

Humanos não podem viver sem olhar para os lados e ver quem caminha junto. 

Somos seres sociais e não podemos ser felizes se nossa sociedade sofre.

Assumir esta expressão como verdade e pautar a vida nesta pretensa “felicidade” pode ser bem complicado, pelo simples fato de que isto não é assim como é dito.

A expressão não corresponde a uma realidade.

O que é ser feliz para você?

O significado de ser feliz para você hoje é o mesmo que há 10 ou 20 anos?

O que é ser feliz para você é o mesmo que é para todas as pessoas que importam a você, que convivem com você, que estão ligadas a você e que te rodeiam?

Se a felicidade for entendida como ausência de sofrimento, de problemas, de dores, de conflitos, de tristezas, então ela não é, nunca foi e nunca será plena e perene.

Este tipo de felicidade não existe, é uma ilusão, porque na existência humana, não importa quem seja, sempre haverá conflitos, dores, tristezas, sofrimentos.
Portanto, pautar a vida neste pensamento, “o que importa é ser feliz”, é um lamentável auto engano.


O que importa então?


Cada um que sabe da sua vida que o diga.

Mas deixo algumas dicas.

O que importa é saber passar pelas dores, pelos sofrimentos, pelas tristezas. 

Aquelas que fazem parte da vida, que são inevitáveis, que não dependem de nós.

O que importa é não buscar com as próprias mãos mais dores do que a vida já nos proporciona.

O que importa é o que somos capazes de fazer com nossos conflitos e problemas.

Talvez importe mais fazer feliz do que ser feliz.

Há muitas coisas acima da felicidade, porque se tiver que deixar de ser feliz para fazer o bem, para fazer o que é certo, para favorecer o próximo, então vale a pena.

Houve uma época em que, para uma parte da nossa sociedade, o que importava era a honra, por ela derramava-se sangue.

O que importava era a palavra, o caráter, não importava o quanto isso fizesse um homem infeliz, palavra e caráter não faziam curva.

Mas é claro que não precisamos ser tão dramáticos assim, tão drásticos, basta que procuremos o equilíbrio, em todas as circunstâncias.

Todos têm o direito de buscar a sua felicidade, mas não deveria ser a qualquer custo, à revelia dos valores humanos, da vida do outro nem às custas do sofrimento alheio.

Talvez seja mais proveitoso ter consciência de que os momentos ruins fazem parte da vida e virão inevitavelmente, e serão ruins à medida da nossa habilidade de lidar com eles.

Tenho visto a busca desenfreada pela felicidade causar mais dores e sofrimentos do que se a pessoa nunca a tivesse buscado.

O que importa não é ser feliz, importa mais é saber passar pelos momentos de infelicidade com serenidade e equilíbrio.

É importante saber passar pela dor sem negar nem esconder, no intuito de fazer parecer que é feliz.

Para alguns, as dores podem trazer mais crescimento do a felicidade.  

E para finalizar.


Criar uma criança sob este lema da “felicidade é o que importa” pode ser uma tragédia.

É o mesmo que ensinar a correr atrás do vento para agarrá-lo com as mãos. Só causará sofrimento ao invés de felicidade.

 Melhor seria ensinar as crianças a lidar com o sofrimento, com as frustrações, com as dificuldades da vida, com o desprazer, com o desgosto e com as derrotas.  Assim uma criança pode ter mais chance de ser feliz.

A quem pode interessar que nós vivamos sob o lema do que importa é ser feliz?

Ora, interessa a quem vende prazer. Pois muitos relacionam a felicidade ao prazer.

Está triste? Então vai ao shopping fazer compras, troca de carro, vai à balada, ao salão de beleza, vai beber, vai usar drogas, vai jogar, vai pagar por sexo e companhia diferente, compre fantasia, vai consumir algo que lhe dê prazer e que lhe alivie, que lhe faça “feliz”, vai fazer terapia, vai na farmácia buscar um remedinho milagroso.

Fuja do sofrimento.

Mas na nossa sociedade fugir do sofrimento pode custar dinheiro, pode sair caro.

Quem ganha com isso?

Quem pode ter sugerido esta ideia?

Esta ideia é mais um elo na corrente que já temos arrastado, mais uma grade na cela que nos aprisiona.

Libertemo-nos.

domingo, 7 de julho de 2019

NOVOS E VELHOS VAZAMENTOS NO PAÍS DAS MARAVILHAS



O nebuloso reinado da mentira e da hipocrisia



Sejamos sinceros.

Não há furo de reportagem nenhum, nenhuma novidade, nenhuma surpresa, todos já sabiam, o Supremo, o Congresso, a OAB, a acusação, a defesa, a imprensa, a esquerda e a direita, eu e você.

Deixemos a hipocrisia e o sensacionalismo de lado, abandonemos este climinha de espionagem barata e vamos aos fatos.

No Brasil é assim desde que os europeus chegaram aqui.

Chegaram e ficaram comprando, enganando, corrompendo, cooptando, doutrinando, escravizando, matando, exterminando, utilizando da mentira e da hipocrisia para aculturar e dominar.

Mas tudo feito sempre em nome nobres ideais.

Em nome de Jesus, da Santa Igreja, da bíblia sagrada, da família, do progresso, do mundo civilizado, do bem do próximo e em nome do cidadão de bem.

No nosso país preso condenado continua cometendo crime, usando celular, usando droga, aplicando golpe e chefiando facção criminosa, tudo de dentro da cadeia.

Então qual é a novidade?

Condenado no Brasil sai da cadeia para cumprir expediente no gabinete, para seções da câmara e continua recebendo salário. Condenado no Brasil é eleito e sai da prisão para a cerimônia de posse. 

Qual é a novidade?

Aqui o Congresso Nacional não representa quem o elegeu e é por si mesmo uma instituição criminosa protegida por lei e financiada por bandidos engravatados das diferentes bancadas.

O Supremo Tribunal Federal não julga livremente e não age com isenção, nunca agiu.

Os Tribunais regionais seguem na mesma linha do Supremo, juízes são corruptíveis, sentenças são negociáveis e a justiça brasileira nunca foi cega, enxerga notas, número de contas, saldos bancários, sobrenomes, cargos, famílias, interesses, partidos e grifes.

Ninguém tem dúvida de que a justiça brasileira não é igual para ricos e pobres, pretos e brancos.

A população sabe disso e os magistrados também.

Onde está a novidade?

Aqui no Brasil a corrupção, a mentira e a hipocrisia começa dentro de casa, no seio da família, e vai até o governo federal, passando pela empresa, pela escola e pela religião.

Há exceções? Sim, certamente há.

E pode ser que você que está lendo este texto faça parte da exceção.
Mas é justamente este o problema.

É exceção e não regra.

Então, onde está a novidade?

No Brasil todo mundo sabe que sempre foi assim, todo mundo sabe onde está o traficante, a boca de fumo, o político que comprou voto, o cidadão que o vendeu, o empresário que financiou, o pastor falcatrua, o padre pedófilo, o médico que vende atestado, o advogado bandido, o marido que bate na mulher.  

Mas o que importa é sair na foto como cidadãos de  bem, senhores e senhoras respeitáveis da sociedade, família de comercial de margarina.

E fazer cara de espanto e escândalo quando os podres aparecem.

Mas este teatro dura só até alguém aceitar o preço, tocar no interesse certo, fazer a oferta irrecusável.

Aqui só é errado quando não é meu ou dos meus, mas quando é dos outros, aí o peito se enche de razão e de podre hipocrisia condenatória.

Amamos apontar o dedo, sem perceber que neste gesto outros três apontam para si mesmo e um para cima.

O clima de sensacionalismo, de surpresa, de furo de reportagem, de “BOMBA!” ajuda a manter o status quo.

Cria-se a roda de fofoca e de comentários, a verborreia vaidosa e desenfreada, as análises pretensiosas, emergem as sabedorias incomuns, as opiniões surpreendentes, as disputas de ideias e tudo morre ali mesmo, no restrito espaço entre a poltrona e o aparelho de tv, entre os olhos e o computador, entre os dedos e a tela de um celular.

E segue o baile, como sempre foi e tem sido há 5 séculos.

Cadê a novidade?

Aqui no Brasil já tiramos ditadores e corruptos?

E substituímos pelo quê?

Pela democracia? Que democracia?

Quem continua tomando as decisões?

Mudam-se os atores, mas os papéis são os mesmos, a peça é a mesma, o palco é o mesmo, o script, o enredo, os financiadores, o cenário, o sistema é o mesmo.

É muito antiga esta estratégia de divertir, de criar o clima de filme de espionagem, de novidade, de suspense e de que o povo importa, interfere e participa.

É velha a estratégia de oferecer o lado bom e do lado mau.

É conhecida a encenação do deteve bom e do detetive mau, para fazer crer os incautos de que há opções, de que há escolha, quando na verdade são apenas dois lados da mesma moeda.

Mas nela não há escolha, somente fora dela.

Você chega no guichê, escolhe seu acento entre dezenas de lugares disponíveis, escolhe o filme, o horário, mas ainda continua dentro do cinema assistindo a um filme.

Se você quer algo diferente deve sair daquela sala, daquele esquema, e olhar lá fora.

Quantos escândalos já presenciamos?

Quantas vezes já achamos que a justiça estava sendo feita? 

Quantas vezes acreditamos nas mudanças feitas por estas mesmas vias?

Quanto salvadores já tivemos?

E em que resultou tudo isso, afinal?

Lembram do quanto falamos de Mariana, de Brumadinho, do Collor, do PC Farias, das privatizações, da greve dos caminhoneiros, da constituinte de 1988, das eleições diretas...???

Quem mandava lá atrás continua mandando; o que queriam fazer, fizeram; os mesmos bancos e grandes empresários continuam mandando e enriquecendo; quem tinha poder continua tendo; as bancadas que moldaram a constituição de 1988 permanecem controlando o congresso e toda a política brasileira; quem perdeu jamais recuperou; o bandido se reelegeu e retornou ao poder; os preços que tinham que subir subiram e os que tinham que baixar baixaram; os acordos foram contornados; arquivos foram queimados; juízes foram comprados; pessoas desapareceram e continuam sumindo e sofrendo acidentes.

Um escândalo substitui o outro e a diversão continua, o hipnotismo não cessa, a memória falha, a vontade diminui, aquela indignação passa e surge uma nova.

Ora mordida, ora assopro e em meio as contingências do cotidiano vão nos levando no bico.  

As cercas, os caminhos, as cocheiras, os estábulos são colocados e nós aceitamos e seguimos como manada, obediente e crente.

De pão em pão, de circo em circo, as diferenças de classes vão se aprofundando, as distâncias se agigantam e a capital se distancia das províncias e dos subúrbios.

O sistema só entende um idioma: a ação que o ameaça de fato.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A MENTIRA COMO FATOR DE DERROTA



Otário não é quem acredita, é quem mente.


 Existem tantas formas de praticar a mentira que eu acho que nem cabem todas aqui.

Mas vamos lá.

Meu foco, por causa da minha profissão, costuma ser a linguagem. E ao usar a palavra “mentira” a gente pensa em algo que alguém disse que não é verdade.

Mas a mentira é mais complexa do que isto e mentir vai além de dizer inverdades.

Quando eu ainda lecionava português em escolas, eu era implacável com a cola nas provas e plágio nos trabalhos.

Aluno que eu pegava colando, eu tirava a prova e dava zero na hora, não queira nem saber o que tinha escrito na prova.

Mas eu costumava ensiná-los que colar na prova era uma forma de corrupção e de mentira. Não era mentir para mim, para os professores, mas uma forma de mentir para si mesmo, de se enganar.

Há um desvio na compreensão de algumas coisas e por isto gosto de in-versões.

Não existe isto de: Ah, que otário, acreditou!

Só existe: Ah, que otário, menti!

Eu explicava para meus alunos que a nota de uma prova em que o aluno colou é uma mentira dada a ele mesmo, criada por ele mesmo.

Colou e tirou 8 na prova, esta nota não é sua, ela nem é verdadeira, é uma fraude, uma mentira que você cria, recebe e aceita com alegria.

Não há nada mais ridículo.

E esta é uma derrota contundente, mesmo que tenha aparência de vitória.

Porque uma das piores formas de mentir é mentir para si mesmo, é viver um engano. Isto é jogar uma vida inteira fora, no lixo.

Arrisco-me a dizer que a mentira que se diz para os outros é a que menos prejudica o mentiroso.

Mas a mentira criada para si mesmo, o autoengano, é desperdício de vida.

Quando uma pessoa mente para si mesma?


Quando vive uma fantasia.

Quando não encara a realidade.

Quando não aceita quem realmente é.

Quando não é verdadeira, autêntica e vive de aparências.

Quando nega as suas dores, fraquezas e limitações.

Quando nega as suas virtudes e potencialidades.

Quando se convence e acredita em desculpas e justificativas  falsas que cria para si mesma. Geralmente para fazer ou deixar de fazer algo se sentindo menos culpada.

Quando alcança algo de forma ilícita ou antiética.

Só isso?

Não.

Certamente existem muitas outras formas de mentir para si mesmo.

As pessoas são diferentes e cada uma é um universo, já dizia um sábio, não sei qual.

Portanto, cada um pode criar mentiras inéditas, só sua, pelos mais diversos motivos.

Por que uma pessoa mente para si mesma?


Por medo. De se perder, de perder algo, de perder alguém, de sentir dor.

Por orgulho. Não querer que o conheçam como realmente é.

Por vaidade. Preferindo sempre as aparências, as embalagens do que o real conteúdo.

Por baixa autoestima. Não acreditando que é capaz, bonita, forte.

Por vergonha e insegurança. Preocupada com a opinião dos outros.

Por maldade. Para prejudicar e enganar mesmo, sem mais justificativas.

Por fraqueza. Para alcançar algo que não consegue sem trapacear.

Por ambição. Para ter a qualquer custo.

Por uma questão patológica, uma doença, um desvio psicológico ou de caráter. Neste caso requer ajuda profissional.

Só isso?

Não.

Cada ser humano tem sua história e tem seus motivos.

Não tenho nem pretendo ter conhecimento de todos os tipos de casos, apenas citei alguns para ilustrar.

E o que acho importante é cada um se analisar e fazer suas escolhas.

Mas quem perde, quem é derrotado pela mentira é sempre aquele que mente.

Mentir pode se tornar uma compulsão, já conheci pessoas assim, que mentem compulsivamente, não conseguem fazer diferente.

Usar a nossa maravilhosa e poderosa linguagem para mentir é o mesmo que usar a água para se afogar. Usar algo bom, que dá vida, para seu próprio mal.

Eu preferia auxiliar um aluno que fosse sincero comigo e me dissesse que não sabia o conteúdo ou que estivesse com outro tipo de problema. Não o prejudicaria nem o deixaria em situação difícil, de jeito nenhum. 

Seria uma atitude bem mais bonita e digna do que tentar trapacear e colar na prova.

Pode haver engano na minha percepção, mas parece que vivemos em uma época em que prevalece a mentira, mente-se muito, tornou-se uma regra social.

Hoje em dia parece impensável dizer a verdade, reconhecer que errou, que precisa de ajuda, que não consegue fazer sozinho, mostrar que tem fraquezas e limitações, que tem defeitos também, que é culpado.

Mente-se sobre tudo, o tempo todo, para todos. 

Um fator de derrota, porque quem mente para não perder, já está derrotado.

E existe a mentira boa?

Na minha opinião sim, se ela vai diminuir a dor de alguém, se vai salvar uma vida, se vai acalmar um coração aflito. Se vai evitar uma tragédia. 

Desde que não prejudique ninguém, então entendo que sim, que existe mentirinha do bem. 








quarta-feira, 19 de junho de 2019

QUE EDUCAÇÃO É ESSA?

Você, professor, tem o conhecimento, mas está vendendo seu tempo, suas horas, seus dias, sua vida? 




Peço desculpas aos meus colegas professores, mas vou fazer um pouco o advogado do diabo neste artigo.

A intensão não é ofender nem desmerecer nosso trabalho, é só incomodar mesmo, porque o que é cômodo pode não ser muito produtivo nem transformador.


Espero provocar perguntas, questionamentos e indignação. 

Educação, ao meu ver, de educador, é uma ciência, uma disciplina acadêmica, uma área de pesquisa e uma prática, que deveria contribuir para a construção de um mundo melhor para as pessoas. 

Repito: para as pessoas.

Deveria contribuir para a construção de uma sociedade humana em que se pudesse viver dignamente, feliz e em comunhão, sentindo-se seguro e realizado.

É assim que é?

Ao que me parece, a escola e a família deveriam ser os lugares privilegiados da educação, aquela que constrói um mundo melhor para uma sociedade melhor.  Mas nem uma nem outra e nem mesmo a religião estão dando conta de construí-la, de desenvolvê-la e de praticá-la. Salvo raras exceções.

Chego a esta opinião ao olhar para o lado, ao meu redor, para o mundo em que vivo, para a vida das pessoas e para as relações sociais físicas e virtuais.

E você? 
Consegue ver?  
Consegue enxergar além das aparências e dos discursos? 
Consegue ver por baixo das máscaras?

Chego a me perguntar se a escola faz mais bem ou mais mal para as nossas crianças e jovens hoje em dia.

Eu sei que há um pudor enorme com relação à escola e falar contra ela ou questioná-la é quase um sacrilégio, mas aquilo que não se repensa, que não se critica e renova, tende a mofar e a escola está ficando com cheirinho de mofo.

É na escola que os diferentes começam a ser massacrados pelo bullying e é para lá que eles têm voltados armados de revolta, desalento e pistolas. 
Não tem sido assim?

A educação escolar não prepara para o século XXI, não ensina, como diz Augusto Cury, as pessoas a lidarem com suas emoções.

Não ensina, como diz Edgar Morin, as pessoas a lidarem com a complexidade e a terem uma visão sistêmica do mundo e da vida.

A escola não ensina as pessoas a viverem na atual configuração social.

E o resultado que temos é uma sociedade doente.

Aliás, a escola está conseguindo inclusive adoecer os professores, aí imaginem como fica tudo.


Reforma? 

Não. 

Não sei se este sistema pode ser reformado, algumas vezes o melhor é demolir e construir um novo.

Um novo ente de educação erigido no lugar deste que aí está.

Sem pudor. Com utopia, pode ser, mas sem pudor de desconstruir o que adoece, o que não funciona mais.

Ah, sim, serve para ensinar Matemática, Português, Geografia, História e algumas técnicas profissionais. 

Mas que matemática e que português se tem ensinado na escola, que ninguém aguenta mais?

Sou professor de Português e lecionei por muitos anos, e por isso posso afirmar sem medo de errar que o que se ensina nesta disciplina ainda hoje é ridículo.

Com raríssimas exceções, as escolas nem para ensinar a ler e escrever estão servindo mais.

Todas as pesquisas e dados e resultados e experiências comprovam isso.

Então, se não ensina a ler e escrever, não ensina ética, não ensina a lidar com as emoções e conflitos sociais, não ensina a conviver e compartilhar, se não ensina respeito, compaixão e solidariedade, se não ensina a pensar de forma sistêmica e crítica nem a estudar e aprender, serve para quê?

Se não serve ao propósito de construção de um mundo melhor e de uma sociedade mais justa, a qual propósito tem servido a “educação”, a escola?

Tem servido para a competitividade?
Para a exclusão?
Para a seleção?
Para a programação e encaixotamento das mentes?
Sim, pois a gênese da escola é esta, para isso foram criadas, com este propósito, e a ele ainda servem. Já disse Foucault. 

É na escola que a deseducação acontece. 
E até que alguém tenha coragem de encarar esta realidade, ela continuará deseducando.


Um movimento de pais, de professores e de estudantes em prol da desconstrução deste modelo de educação escolar, bichado, antiquado, inadequado e nocivo, e que ao mesmo tempo construa uma nova proposta de ente educador, para o século XXI, seria, talvez, uma alternativa.

Parafraseando Humberto Maturana, antes de decidir que educação queremos para o Brasil, precisamos decidir que Brasil queremos, que sociedade queremos, que cidadãos queremos. 

Em que momento fizemos isso no Brasil? 

Quando você como pai, como educador ou como estudante opinou sobre estas questões? 

Quando você participou, mesmo sendo educador, de discussões e construções deste tipo que realmente tenham resultado em práticas?

Quem é pai de criança ou jovem em idade escolar sabe que mesmo pagando uma escola particular cara, seus filhos ainda não sabem o que a escola passou anos tentando ensinar. 

E a culpa não é do aluno, é da escola. 

Porque por outros meios as crianças têm aprendido outras coisas de forma rápida e com facilidade.

Há professores dando 60 aulas por semana, para salas com 30 ou 40 alunos, ainda usando um livro didático e uma lousa, enquanto o jovem tem o mundo na palma da mão, ao alcance de alguns toques na tela, sem precisar sequer olhar. 

Se a escola fosse mesmo um lugar saudável não teríamos um número tão grande de professores em tratamento com medicação de uso psiquiátrico e de crianças tomando Ritalina e sabe-se lá mais o quê. 


Se a nossa loucura já está atingindo as crianças, isso deveria ser um alerta vermelho para repensarmos a educação, a escola e a nossa saúde mental e emocional.

Professor estuda anos, adquire um conhecimento especializado e aprende como passar este conhecimento.

Depois chega na escola e vende seu tempo.

Ou seja, o professor vende seu tempo para a escola, mas ela vende o conhecimento do professor para a sua clientela.

É isso que significa trabalhar por hora/aula, você, professor, está vendendo seu tempo e seu dia só tem 24 horas, por isso não consegue ganhar o suficiente mesmo trabalhando tanto. 

Enquanto isso é a escola que vende o seu conhecimento por um preço bem alto.

Se você vendesse seu conhecimento diretamente, sem atravessadores, tudo seria diferente, para você, para a sua família e para seus alunos.

Desconstruir a escola e este tipo de mercado de conhecimento ou informação, significa acabar com a exploração do professor, baratear a educação para os pais e melhorar a qualidade do ensino para os alunos.

Espero não ter proposto soluções nem ter dado respostas, mas ter provocado perguntas, dúvidas e questionamento.