domingo, 10 de novembro de 2019

UM URSO NA JAULA DE ISOPOR





Uma história para pensar


Há poucos dias eu vi uma reportagem na TV que mostrava um urso pardo vivendo em uma área espaçosa em um zoológico. Embora a área fosse cercada, era arborizada, grande, com troncos e obstáculos, pequenos morros e inclusive um lago.  

Mas o pobre urso não aproveitava toda aquela área, ele só usava sempre o mesmo espaço, de 5 a 10 metros, e ficava caminhando de um lado para o outro sem parar, com aparência de demente, triste, deprimido. A imagem era de cortar o coração.

A explicação para isso é que ele viveu muito tempo em uma jaula e se condicionou a andar de um lado para o outro, de uma parede a outra, em frente a grade.

E isso me fez pensar naquela história da águia que vivia como galinha.

No elefante que fica amarrado a uma estaca que ele pode arrancar com facilidade.

Na boiada que aceita os limites de uma cerca que ela pode estourar facilmente.

No cavalo que aceita o comando de uma rédea que na verdade não tem nenhum poder sobre ele.

E pensei nas pessoas que vivem presas por limites imaginários, porque desconhecem a força que têm e porque adotaram crenças que limitam a vida e aprisionam a alma.

Pensei nos 99% da população mundial, controlada e explorada por aquele 1% que cria as cercas, amarra os laços, puxa as rédeas e estala o chicote do medo.

Ursos e homens, para se libertarem, só precisam acreditar na força que têm, se desfazer das crenças limitantes, pensar fora da jaula.

Entender como os condicionamentos funcionam é um bom começo, que pode até não levar à mudança do mundo, mas leva à mudança do seu mundo.

E a comparação do homem com animais não é ofensiva, pois pertencemos ao reino animal e como temos muitas diferenças também temos muitas semelhanças.

Além disso, usar a natureza para aprender e melhorar não é ofensivo.

Um indivíduo não molda a cultura, mas a cultura molda os indivíduos.


Parece natural de você a forma como você vive, né?

Mas não é.

É só resultado da cultura em que você está inserido.

Não me refiro à cultura como manifestação cultural: teatro, literatura, música, cinema, pintura...

Refiro-me à cultura como o conjunto de hábitos, procedimentos, procederes, costumes, que moldam o modo como uma pessoa vive, como pensa, como vê e entende o mundo e a si mesma.

Há um número enorme de estudos acadêmicos, teorias, pesquisas científicas, ensaios de pensadores sobre a cultura. Desde que o homem é homem ele pensa sobre seu agir, sobre suas reações, como vive, como pensa, como se relaciona, como é sua sociedade e como se tornou quem é.

Praticamente tudo em uma pessoa, desde o jeito de andar, o modo como se alimenta, a maneira como usa o banheiro até a leitura que faz do mundo e como se vê é determinado pela cultura.

E cultura não é algo físico, que se possa pegar, é virtual, transmitida do meio para o indivíduo, passada de geração em geração, do social para o individual.
Para melhor entender, eu costumo comparar a cultura com um software, um programa que se instala em nós e nos faz ser quem somos. Sei que esta maneira de entender e explicar a cultura não agrada a todos, mas é a minha maneira.

Desta forma, quase nada do que eu sou é autêntico, no sentido de ser original, não criei quase nada em meu modo de ser, em minha identidade como sujeito no mundo, tudo foi e é determinado pela cultura, cada hábito, como olho para o mundo e para as pessoas, como vejo, como entendo. Obedeço a um programa.

Portanto, eu, sozinho, ou qualquer pessoa, por mais que faça, não pode mudar a cultura. Ela se forma e se modifica pelo agir das massas, dos povos, por um processo que se dá ao longo de anos, desencadeado por forças gigantescas.

Por exemplo: uma vez, há muitos anos, era cultural em algumas regiões do Brasil as crianças pedirem a benção para o pai e para a mãe antes de irem dormir. Hoje não é mais.

Por mais que uma única pessoa deixasse de fazer isso antigamente ela não mudaria a cultura de uma nação inteira sozinha, outros fatores influenciaram nesta mudança, que foi acontecendo devagar, como um processo, ao longo de muitos anos.

Os filhos faziam isto e os pais exigiam que fizessem enquanto o software estava rodando, à medida que o programa foi sendo modificado as pessoas lentamente foram mudando seus hábitos.

Em alguns povos, as pessoas comem pegando o alimento do prato com as mãos e levando-os diretamente à boca, sem que isso pareça estranho, pelo contrário, é visto como algo natural. Já para nós, aqui no Brasil, e para outros povos do mundo, o natural é usar talheres, comer com as mãos parece estranho.

Nem um nem outro é natural, os dois modos de comer são determinados pela cultura, não faz parte de uma decisão pessoal e independente dos indivíduos destes povos.

O homem tem facilidade de naturalizar as coisas, mesmo aquelas que no início pareçam muito estranhas e até inadmissíveis. O homem das cavernas não usava talheres, mas eu e você hoje achamos natural usá-los.

Em uma certa nação, pedir sal em um restaurante ou lanchonete é uma ofensa grave, uma grosseria. Mas parece natural para eles se sentirem ofendidos se alguém faz isso. O fato gera um sentimento, mas não há nada de natural nisso, é determinado pela cultura.

Natural é respirar, em qualquer povo e em qualquer lugar da terra.

Natural é sentir fome, cede, tesão.

Natural deveria ser o instinto de autopreservação e de preservação da espécie, do ouro.

Natural deveria ser a desobediência às rédeas, às cercas, às correntes.

Mas como o simples ato natural de pegar o alimento com a mão e comer tornou-se um absurdo, porque um dia alguém resolveu fabricar e vender talheres, pensar e viver fora da caixa também se tornou inaceitável, um absurdo e um ato de violência. Isso é repressão.

Neste sentido, a liberdade se dá em níveis diferentes, desde uma postura mais radical e extrema frente à cultura dominante e aos diferentes tipos de limitações e aprisionamentos, até uma vida apenas mais consciente de tais condicionamentos, com um pouco mais de independência.

Fora isso há a total ignorância, a ingenuidade, ou aquele positivismo crente de que as jaulas são para a proteção, as rédeas são para dar a direção necessária e as amarras são naturais, inevitáveis e benéficas.

A partir do momento em que se passa a saber, tudo é uma questão de escolha.


domingo, 3 de novembro de 2019

VENDAVAL NO JARDIM


Checklist de validação


Um jovem estava fazendo uma espécie de matrícula, de cadastro em uma instituição e a funcionária pedia informações sobre ele e digitava.

Nome? Identidade? CPF? Religião?

Não tenho?

Não tem? Mas como assim, não tem religião?

Não tenho religião.

Então boto aqui: cristão?

Não, não bota nada.

Mas foi batizado em qual religião?

Não fui.

Não foi batizado?

Não.

Imagine que esta conversa continuasse neste ritmo e viessem outras respostas negativas para as perguntas “lógicas” da funcionária.

Vacinas?

Não tenho.

Nunca foi vacinado?

Não.

Histórico escolar?

Não tenho, nunca estudei em escola, fui educado em casa e à distância.
Por mais inteligente que este jovem fosse, por mais educado, capacitado e gentil, ele não cumpriu os protocolos sociais, seria um estranho diante dos olhares tradicionais.

A ilusão de autonomia



Parece lógico que desde que nascemos haja um caminho a seguir.

Quando chegamos aqui já existia um esquema a ser seguido e obedecido, que foi traçado por aqueles que chagaram antes de nós.

E parece mesmo que tudo é cumprindo naturalmente.

Somos criado e educados por adultos, que depois nos enfiam em uma escola para sermos preparados para seguir o roteiro. 

E toda a organização social e a mentalidade da maioria das pessoas estão moldadas para cumprir o papel na peça da sociedade humana.

Quando alguém pensa que decidiu fazer faculdade, ter uma profissão, buscar um emprego, casar-se e constituir família, não decidiu, apenas cumpriu o programa.

Este tipo de tomada de decisão não é livre e independente, é modelada. E não há nenhum mal nisso, é claro.

Se a pessoa se sente sinceramente realizada assim, se vive satisfeita, pois que assim seja.

Mas aquele que decidir não cumprir o papel pré-determinado e se aventurar a escrever a própria história, fora dos padrões, será criticado. Não por todos, só pela maioria, principalmente pelos mais próximos.

Há pessoas que sentem que algo está errado, se sentem deslocadas, não pertencendo a este mundo, não aceitas, desencaixadas, um estranho ou uma estranha no ninho. Obviamente o modelo não satisfaz estas pessoas, não preenche os anseios da alma, como se não fossem feitas para encenar a mesma peça social.

Também não há nenhum mal nisso. A não ser que estas pessoas insistam em participar do teatro social comum, tradicional. Neste caso poderá haver problema. Algumas não suportam, têm dificuldade para definir sua identidade e adoecem.

Uma linda rosa na caixa de cristal

Conheço os dois tipos de pessoas. Os que adoram cumprir o protocolo e viver o papel que lhe foi colocado e os que não sabem lidar com isso, não é da sua natureza viver estes papeis e cumprir com os modelos.

Nenhum nem outro deve ser condenado ou deve se sentir culpado.

Você deve saber o que eu estou querendo dizer, deve conhecer ou até já se sentiu assim, como se não pertencesse a este mundo. Tentar de encaixar é doloroso, causa desajustes, machuca, fere quem você realmente é.

Algumas pessoas preferem se proteger do vento para manter o penteado intacto.

Outras preferem a bagunça que o vento faz nos cabelos.

Algumas preferem um jardim organizado, separado, classificado e limpo.

Outros preferem um jardim misturado, ao sabor da natureza, feito vento no cabelo.

Conheci pessoas que sofreram por tentarem se em-caixa-r (encaixar) onde não cabiam.  

Tente coloca uma linda rosa dentro de um dedal e verás o estrago que farás com ela.

Eu vi isso em alunos, em crianças com potencial enorme em algumas áreas, inteligentíssimas em alguns aspectos, mas sofrendo muito, porque os adultos, as instituições, pais, professores, psicólogos e psiquiatras trabalhavam juntos para que se encaixassem em moldes, modelos e protocolos.

Não há escrúpulos em se usar remédios (drogas), ameaças, corrupção e coerção para fazer uma inocente e rica criança, ou até um jovem, se 
em-caixa-r (encaixar),

Preferem matar sonhos, habilidades, sensibilidades e inteligências para chamá-la de “normal” e vê-la cumprindo os ritos e programas de uma sociedade doente.

Neste caso, é preferível o vendaval bagunçando todo o jardim do que as flores morrendo sufocadas nos cristais da sala.  

Felizmente, tenho visto muitas pessoas vivendo fora das caixas, negando papéis pré-determinados de tradições castradoras e sufocantes que cheiram a mofo.

Seja índigo, arco-íris, milenium, Y ou o tiozinho que aprendeu e mudou, não importa o rótulo, existe um grupo de pessoas vivendo sonhos fora da caixa, escrevendo a sua própria história, determinando seu modo de vida, fazendo as próprias escolhas livres das convenções.

E fazem tudo muito bem planejado e com muita responsabilidade, respeitando todo modo de vida.

Se você se sente assim, desajustado, não pertencendo a este mundo, não se culpe, não se machuque, alegre-se, não force a barra para seguir a manada.

Não tenha medo de desagradar, porque mesmo fazendo tudo o que te mandarem você ainda irá desagradar e será criticado.

Então deixa o vento bater. Liberte-se.



domingo, 27 de outubro de 2019

Muito prazer: Bicho-Papão.


Viajando com o Bicho-Papão



Certa vez, viajei de moto pelo sul da Argentina, Patagônia, Terra do Fogo, até Ushuaia. Fui com um “amigo”, mas acabei tendo que retornar sozinho por motivo que não merece atenção agora.

Em duas ocasiões dormi no pátio de postos de combustível, uma noite foi na Patagônia e outra foi próximo de Buenos Aires. Encostei a moto, deitei ao lado dela, na calçada, e dormi ali mesmo.

Outra vez, em outra viagem pelo norte da Argentina, quando fui para o Chile, tive que dormir no centro de uma cidade, na calçada, debaixo de uma marquise, ao lado da moto.

E sabe o que me aconteceu?

Nada. Dormi tranquilo.

Já viajei sozinho, com pouco dinheiro, pilotando durante dias por regiões desertas e nunca, jamais, me senti ameaçado ou em perigo. Nunca passei por situação de violência, mesmo dormindo na rua em barraca ou totalmente exposto.

Aliás, minto, duas vezes cheguei perto de me sentir ameaçado. As duas vezes foram com a polícia e não com bandidos.

Na Argentina, policiais exigiram que entregasse a eles os 150 pesos que eu tinha na carteira para me liberar, porque eu estava sem o seguro carta verde. E outra vez foi com a polícia da imigração, ao passar de Argentina para o Chile, em passo Jama, na Cordilheira dos Andes. Apreenderam a máquina fotográfica de um amigo meu porque ele bateu foto no pátio da imigração, outra estratégia para pedir propina. Mas foi só isso.

Mas na rua, na estrada, nas cidades, com as pessoas de todos os lugares por onde andei eu tive apenas cordialidade, respeito e colaboração.

Não tenho medo de viajar sozinho por onde quer que seja, comprovei que o mundo é um lugar seguro.

É claro que alguns cuidados são necessários e existem pessoas más em qualquer lugar do mundo, mas não são maioria nem é a tragédia, o flagelo que a televisão mostra.

A não ser que a pessoa procure, provoque, atraia situações de violência.

A cultura do medo


A pessoa que assiste muita TV, principalmente os telejornais, coloca-se em contato com uma avalanche de notícias ruins, de violência, de roubo, assaltos, assassinatos, corrupção, morte, crueldade.

Por que é assim?

Porque é isso que grande parte das pessoas quer ver. É isso que as pessoas gostam de consumir e a TV vende o que as pessoas querem comprar, é disso que ela vive.

É claro que, se destacarmos somente as notícias ruins do mundo e passarmos na televisão, quem estiver assistindo ficará com a impressão de que só acontecem coisas ruins, que o mundo é só violência, que ninguém está seguro em lugar nenhum, que o mundo é um inferno.

Mas quem está nas ruas do mundo, quem viaja pelo mundo sabe que a realidade não é somente essa.

Existe a criminalidade e a violência?

Sim, existe.

Mas a escala de violência e criminalidade ainda é bem menor do que a escala da bondade. A maioria das pessoas ainda é cordial, receptiva, altruísta, solidária.

Conheço pessoas que estão viajando há anos pelo mundo todo, das mais diversas formas, dormindo em barracas, em seus carros, na casa de pessoas que acabaram de conhecer e estão seguras, se sentem seguras, sem medo e nunca sofreram violência. Nem mesmo em países em conflito ou em regiões tidas como violentas.

O mundo que encontramos lá fora não é o que a televisão mostra. É muito maior, mais lindo e melhor.

Mas a cultura do medo é o mais antigo e eficiente instrumento de controle e dominação que existe.

E começa em casa, com os pais usando esta estratégia para controlar a criança.

“Se você fizer isso o Bicho-Papão te pega”.

“Cuidado, não vá! Não faça, é perigoso! Você vai se machucar! A Cuca te pega! A polícia te prende! O homem do saco te carrega! Se você fizer isso a mãe e o pai ficarão tristes.”

Depois vai evoluindo.

 “É pecado, Deus vai te castigar! Você vai perder a salvação! Vai queimar no inferno! Olha a ira de Deus! Se der chance, o diabo te destrói! Não pode perder o emprego! Se continuar assim nunca será ninguém na vida! Vai acabar sozinho! Vai rodar! Vou te dar nota baixa...”

Tenho certeza de que você conhece muitas outras expressões deste tipo.

Em um outro estágio, na esfera social, os meios de comunicação e as instituições de controle utilizam da mesma estratégia para controlar e para fazer a população comprar, consumir sensação de segurança. Por isso a insegurança e o medo são tão importantes.

A segurança passa a ser perseguida quase que doentiamente, mesmo sob situações humilhantes. Em um mundo em que o medo prevaleça, as pessoas não se importam mais em perder tudo o que têm, até a dignidade, para se sentirem seguras. Pagam qualquer preço, fazem qualquer coisa.

Espalhando o medo de doenças se vende remédio.

Espalhando o medo da violência e a impotência do Estado em contê-la se vende armas, carros blindados, segurança privada, cursos de defesa pessoal, alarmes, seguros, grades, câmeras de vigilância e se mantem as pessoas em casa assistindo TV, comendo ansiosamente e depois comprando remédios.

Espalhando o medo do inferno, da ira de Deus ou da miséria humana e financeira se arrecada dízimo e submissão.

Espalhando o medo de crise se matem o empregado obediente no seu emprego por mais infeliz que esteja e por mais humilhado que seja.

Espalhando o medo da escassez e da fome se promove corrida aos supermercados e aumento de consumo.

Espalhando o medo do inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos se vende mais aquecedores, roupas de inverno, pacotes de viagens para regiões mais quentes...

Espalhando o medo do verão mais rigoroso dos últimos 60 anos se vende mais ar condicionados, roupas de verão, pacotes de viagens...

Espalhando o medo do terrorismo se mantém a população obedecendo cegamente a qualquer ordem que contenha a expressão “ameaça de ataque terrorista”.

E uma lista quase infinita de estratégias de manipulação das pessoas por meio do medo poderia ser escrita aqui, mas não há espaço.

Veja como age o marketing, as expressões que usa.


“últimas vagas”; últimas unidades”; “você não pode perder”; “você não pode ficar de fora”; “se quer ter uma carreira de sucesso, garanta a sua matrícula, compre já”; “se cometer estes erros sua empresa vai falir”; “se você não fizer seu concorrente fará”; “você quer mesmo perder espaço no mercado, perder clientes?”; “se continuar fazendo assim vai perder recursos”; “nós temos a solução...”.

O medo do fracasso, de perder, de ficar de fora de algo maravilhoso, de não acompanhar a tendência, de perder o marido se não estiver de acordo com o padrão de beleza, de perder a esposa, de perder a casa, de perder oportunidades, de perder dinheiro se não aprender a fórmula mágica, se não comprar o produto ideal. 

É sempre sobre o medo, a ganância e a vaidade. Os principais anzóis com os quais os humanos são fisgados. Mas o medo é o principal.

Tanto é assim que a tortura é o meio mais eficaz de tirar informação de alguém, pelo medo da dor, da perda, do sofrimento de quem ama, confessa-se até o que não se fez.

Pelo medo as pessoas fazem qualquer coisa.

É por isso que, em um país do tamanho do Brasil, em um planeta do tamanho da terra, com a diversidade que têm, você encontra as mesmas notícias em todos os canais de tevê, em todos os jornais impressos, em todas as publicações, programas de rádio e sites de notícias.  Porque todos seguem a mesma agenda.

É claro que existem infinitas coisas maravilhosas para se mostrar. É claro que acontecem milhões de cosias maravilhosas e horríveis a todo instante no mundo todo. Mas todos os meios de comunicação noticiarão aquele mesmo assassinato, aquele mesmo desastre, aquela mesma crise. Porque obedecem a mesma agenda, estrategicamente pensada e elaborada.

Porque se sabe exatamente que tipo de reação se quer provocar na população, como fazer para obtê-la e qual resultado ela trará.

Isso não é teoria da conspiração, é uma análise pessoal, baseada em formação acadêmica e experiência profissional, mas que você não precisa e não deve aceitar. Só precisa pensar um pouco sobre o que acabou de ler antes de engolir ou de cuspir fora.

Não se trata de demonizar o jornalismo, o marketing ou os meios de comunicação, trata-se de lidar com a informação de forma crítica, analítica, sem aceitá-la ou rejeitá-la de imediato, mas sempre estudando e pensando sobre ela.

Nenhuma notícia ou informação nos chega, seja através da TV, da internet ou da igreja, sem antes receber um tratamento especial para cumprir um propósito determinado. Nenhuma.

Penso nisso tudo como o Mito da Caverna, de Platão.

Se ficarmos somente olhando passivamente para as informações que nos chegam, como as sombras na parede da caverna, perderemos o contato com a realidade, a coragem de encarar o mundo real e até a crença na sua existência, como resultado da desinformação.


sábado, 19 de outubro de 2019

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE MILAGRES



 O que geralmente as pessoas chamam de milagre?



Milagre é aquilo que não poderia acontecer, mas acontece. Algo improvável, meio mágico, ou mágico mesmo, sobrenatural e místico.

Certo? Concorda?

Por exemplo, dizem que uma pessoa se curar de câncer pode ser um milagre. Sair viva de um acidente aéreo certamente é considerado um milagre, pois até dizem que a pessoa nasceu de novo.

Um carro que cai de um viaduto ao lado de uma pessoa e não em cima dela é um milagre? Sim, acho que as pessoas considerariam isso um milagre.

Ah! E tem aqueles milagres do tipo transformar água em vinho, multiplicar pães e peixes, curar e ressuscitar mortos.

Peço desculpas, mas, na minha opinião pessoal, nada disso é milagre.
A cura do câncer é resultado de ensino, pesquisa e extensão.

Sobreviver a acidentes é probabilidade.

E todo o resto pode ser fantasia, ciência, mágica, magia, ilusionismo, ficção, trabalho, acaso, medicina e coisas prováveis.

E milagre é o improvável que acontece. Sobre isso já concordamos lá no primeiro parágrafo deste texto.

A vida é absurdamente improvável.


Absurdamente improvável é eu e você estarmos respirando, andando, falando, aprendendo, enxergando, ouvindo e se emocionando.

É absurdamente improvável acordarmos todas as manhãs.

É absurdamente improvável termos sido gerado dentro da barriga de outro ser humano e saído de lá com vida.

É absurdamente improvável convivermos com tantas espécies, tantas paisagens e cores magníficas em cima de uma pequena bolinha solta no espaço infinito, onde não tem a menor condição de vida.

É absurdamente improvável que meus olhos captem o reflexo da luz, que viaja a 299. 792, 458 metros por segundo, receba uma imagem de cabeça para baixo e meu cérebro a corrija, criando compreensão.

Isso é que é um milagre e não escapar de ser mordido por um cachorro ou conseguir um emprego. Aceitar bobagens deste tipo como milagres é comprar gato por lebre.

Milagre mesmo é acordar a cada manhã, é lembrar e esquecer, é retirar automaticamente o oxigênio do ar para viver, é ter no peito uma bomba trabalhando dia e noite por décadas sem estar ligada em tomada alguma, sem motor, sem fios.

Você já viu a imagem da terra no espaço, daquelas que vai se afastando e mostrando nossa posição na galáxia e a posição da nossa galáxia no Universo?

Pois é. Estamos vivos ali, todo nosso drama de vida se desenvolve ali, naquele grão de poeira, solto em um espaço que não oferece condições de vida.

No espaço onde vivemos não há condição de vida, não há oxigênio, não há gravidade, não há temperatura nem pressão que possamos suportar.

A Terra, apesar de solta neste espaço, tem uma camada misteriosa de oxigênio, gravidade e pressão ideais para que possamos viver.

Está a uma distância exata do sol para termos luz e temperatura ideais para a vida. Um pouco mais perto, tudo seria queimado. Um pouco mais longe, tudo seria congelado.

Como se não bastasse tudo isso, a maior probabilidade é que a Terra se choque com outro corpo e tudo se despedace. Mas não se choca, pelo menos não se chocou ainda.

A maior probabilidade é que ela se afastasse ou se aproximasse do sol e tudo morresse. Mas, por enquanto, isso ainda não aconteceu.

O mais provável é que a atmosfera da terra simplesmente desapareça e a vida com também. Mas isso não acontece.

E aqui estamos. Contrariando toda a lógica. Isso tudo é que é milagre de verdade.

Todas as noites eu apago, durmo por horas, e meu coração continua fazendo o sangue circular por todo o meu corpo. E eu acordo no dia seguinte com a capacidade de dar continuidade à minha vida, com memória organizada, com energia renovada. Pela lógica isso não era para acontecer.

Ser curado de câncer não chega nem perto de ser milagre diante do fato de estamos vivos.

Sair vivo de um acidente é só uma probabilidade, as chances são bem maiores de não acontecer do que de acontecer.

O carro que caiu do viaduto ao meu lado tinha uma infinidade de espaços para ocupar na terra e o mais provável é que não fosse em cima de mim. Milagre seria ele ter me acertado diante de tantas outras opções e não ao contrário.

No entanto, diante das condições planetárias e espaciais em que nos encontramos, diante da inexplicável insistência da vida em nós e do absurdo funcionamento do nosso corpo, o mais provável para nós, a cada segundo, é a morte, não a vida.

Nada é mais mágico, místico, misterioso, milagroso, inusitado, espantoso, impossível do que nosso simples respirar, ver, caminhar, falar, ouvir, dormir, acordar, pensar e se emocionar.

Nada mais milagroso do que nosso viver segundo a segundo.


E aquilo que temos como natural e material, corriqueiro e comum, trivial e banal, é justamente o contrário, é espantoso, é maravilhoso, é o maior de todos os milagres, é o improvável, fantástico, mágico, imponderável, indizível e inacreditável.

O que consideramos milagre não passas de possibilidade e probabilidade, causalidade ou casualidade.

Não há nada de milagroso no resultado de ações, de trabalho, nas consequências dos atos, nos resultados das escolhas. Não é um milagre alcançar a meta de vendas do mês, é trabalho. Não é milagre terminar a faculdade, é resultado de estudo e dedicação.

Milagre é a vida, sem preconceitos, em qualquer forma.

O ser humano tem uma tendência estupenda de naturalizar e banalizar as coisas, até as mais absurdas, assustadoras ou extraordinárias.

Por outro lado, aceita tornar um milagre dos deuses o simples resultado de uma ação deliberada, o produto do acaso ou qualquer outra bobagem.

É compreensível que esta característica seja usada como mecanismo de controle.

O homem que banaliza o extraordinário se apequena, rompe com sua grandeza e magia, nega suas possibilidades e se esvazia.

O vazio do extraordinário em seu viver faz falta, cria necessidade, o que o torna manipulável.

Então, ávido, sedento, torna-se manipulável e aceita ser moldado e controlado, porque anseia pelo extraordinário que lhe falta. O que não faltará é um discipulador disposto a preencher este vazio com sua própria mediocridade e com engano.

Cada respiração sua e cada segundo da sua vida, seja ela como for, seja você quem for, é absolutamente extraordinário, um milagre, uma história de mistério e de magia, é o inusitado.

Somos parte disso. Veja.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

DIA DOS PROFESSORES TAMBÉM É DIA DE REFLEXÃO



Primeiramente preciso dar os parabéns aos bons professores, pela coragem, pelo bom trabalho, pelo amor e pela compreensão da vida e das pessoas, enfim, pela opção de viver aprendendo, porque o bom professor é um eterno aluno.  

E, sendo realista, é preciso admitir que, como em todas as profissões, pode haver professor ruim também. E um mal professor faz um estrago danado, porque professor não lida com coisas, lida com vidas, mesmo que não entenda assim e não perceba desta forma.

Professor influencia até mesmo sem perceber. Quando vê, serviu de exemplo para alguém, inspirou, mudou o rumo de alguma vida só por ser quem é e fazer o que faz.

Uma baita responsabilidade, não é mesmo?

Por isso acho injusto e um despropósito professor ser remunerado por hora, por hora aula, que na verdade é seu tempo de vida.

O dia tem só 24 horas e ele não pode trabalhar as 24 horas do dia, então, para ganhar um pouco melhor, enche os dias e a semana de horas trabalhadas. Ainda assim seu ganho está limitado pelo tempo e não por sua capacidade de realizar, de fazer, de transformar.

É estabelecido um preço para o seu tempo e não um valor sobre seu trabalho, sobre a sua capacidade, sobre a importância do que faz, sobre o quanto e como transforma uma vida, sobre o conhecimento que tem e sua capacidade de usá-lo em benefício do outro.

Já a escola não cobra dos pais dos alunos por hora, cobra pelo que oferece. Quanto mais oferece, mais cobra, dentro do mesmo tempo, do mesmo horário e do mesmo espaço. 

Menos alunos por sala, mais cara a mensalidade. Garantia de mais aprendizado, mais cara é a escola. Maior chance de aprovação em vestibular e concurso ou de arrumar um bom emprego, mais cara é a escola. Melhores professores, com mais conhecimento e formação, maior o valor cobrado.

Mas para o professor, coloca-se um preço pela sua hora de vida, pelo seu tempo e não pelo seu conhecimento.

Por isso o professor não aumenta sua remuneração senão em virtude do seu tempo, e o seu tempo é a sua vida e muitas vezes a sua saúde.

O tempo vendido nunca mais volta, não poderá ser recuperado.


O preço da hora é a mesma, mudando um pouquinho em virtude da titulação e não da prática efetiva, capacidade e conhecimento.

Qual é o valor do seu trabalho, não o preço da sua hora?

Qual é o valor do seu conhecimento, não o preço da sua hora?

Qual é o valor da sua didática, não o preço da sua hora?

Qual é o valor da sua pedagogia, não o preço da sua hora?

Você estudou anos para adquirir um conhecimento e vende o seu tempo de vida e não o seu conhecimento. Quem está vendendo o seu conhecimento é a escola, e por um preço bem alto.

Sim, eu sei que mensurar este valor não é fácil, mas não é impossível.

Também sei que os professores e as professoras são capazes de encontrar uma forma de mensurar o valor que têm seu trabalho e conhecimento e não o seu tempo de vida. Por que este sim é imensurável.

Minha admiração e minha reverência a todos os professores e professoras.