domingo, 5 de janeiro de 2020

EU, FANÁTICO: COMEÇO, MEIO E FIM.



A entrada


Quando eu tinha 22 anos vi um cartaz no caminho para o trabalho convidando para uma palestra. O assunto me interessou, os temas despertaram a minha curiosidade, a palestra seria no auditório de um colégio, de graça. Fui.

Ao final daquela palestra foi feito o convite aos presentes para participarem de um curso, totalmente gratuito e livre, com duração de 6 meses, abordando mais detalhadamente aqueles e outros temas que também despertaram meu interesse. Segui assistindo ao curso.

Tudo fazia muito sentido, aliás, parecia que os palestrantes liam meus pensamentos, conheciam minha vida e falavam diretamente para mim. Era assim que eu ouvia.

Ao final do curso de 6 meses anunciaram que haveria uma segunda fase do curso, com exercícios e treinamentos para pôr em prática a teoria que estava sendo estudada. Pois explicaram que somente teoria não muda a vida de ninguém, para haver transformação era necessário viver o que aprendemos.
Ah! Já ia esquecendo. Logo no início do curso apareceram os livros, muitos livros sobre tudo o que nos estava sendo passado. E eu, que já era um leitor ávido desde a adolescência, é claro, comecei a comprar e a devorar os tais livros.

Foi assim que segui participando da segunda fase do curso, aprofundando-me nos assuntos, querendo saber cada vez mais e também querendo praticar para ver se eu alcançava as maravilhas que eram prometidas nas teorias e que, ao que parecia, os palestrantes já desfrutavam. Pelo menos era essa a minha visão da coisa.

A permanência


A segunda fase durou também 6 meses e depois dela vieram outras fases e outros compromissos e mais participação e outros livros e revelações e ...

Eu era (acho que era, ou ainda sou?) uma pessoa que pensava e sentia
assim: se é para fazer algo mais ou menos, meia boca, se é para não dar tudo de si naquilo em que se crê e quer, então melhor nem se meter, nem começar. Ou é tudo ou é nada, nunca fui muito chegado a meios termos, ao mais ou menos, ao morno. Alguns dizem que é uma característica do signo, sou de escorpião, mas não sei nada disso, só sei que este modo de pensar trouxe problemas para mim. Acho que trouxe coisas boas também.

Enfim, conheci a instituição completamente, fiz tudo o que tinha para ser feito, li tudo o que havia para ser lido, passei a ter contato com os mais altos cargos e comandos do Brasil e do exterior, tornei-me um palestrante daquela instituição, alcancei certo destaque e arrastei muita gente para aquele caminho.

Eu era um tipo de missionário, viajei pelo país fundando escolas, dando palestras, inaugurando cursos como aquele que me seduziu. Passei a viver somente para aquele conhecimento, de doações e ajuda dos outros. Eu sentia que havia somente aquilo de importante na minha vida, que aquilo era a própria vida e não conseguia mais me ver fora daquele modo de vida.

E desta forma sentia que aquele conhecimento era a única verdade existente, acreditava nele e por consequência assumia tudo o que ele trazia. Deste ponto de vista eu passei a lamentar que tanta gente estivesse fora dele e, portanto, indo pelo caminho errado.

Vivi pelo menos uns 6 anos envolvido desta forma, casei-me em virtude desta opção, mudei meu modo de vida, afastei-me de pessoas, morei em várias partes, deixei e neguei empregos em virtude da minha crença, condenei e critiquei pessoas, investi minha vida e meu tempo. Não havia limites para o que eu poderia fazer pela minha crença.

Agora eu era um fanático


Estou contando esta história para explicar como eu experimentei o que é ser um fanático, o que é o fanatismo para mim, como eu o vivi e como ele me prejudicou e a outras pessoas.

Há muitos artigos interessantes na internet sobre fanatismo, fundamentalismo e dogmatismo que é recomendável ler, pois foram escritos por especialistas no assunto, mestres e doutores de instituições renomadas, da área da Teologia, da Filosofia, da Psicologia... Não é neste nível que coloco o assunto aqui, sou um leigo, apenas conto o meu caso, o resto é com vocês.

Passei a não ouvia mais ninguém nem nada diferente daquilo que escolhi como verdade. Somente eu, inspirado pelo conhecimento que adquiri e pelo que estava escrito, tinha razão, ainda que eu não discutisse.  Aliás, não se discute quando se tem certeza de estar certo. Mas eu não estava.

Somente aquele conhecimento era correto e tudo o que estivesse fora dele estava errado, ainda que eu não dissesse isto, era assim que eu entendia em meu íntimo.  

Passei a ser capaz de me afastar de qualquer um por causa daquela minha opção, de passar por qualquer situação, de suportar tudo e de fazer qualquer mudança para cumprir minha missão. Nada mais me despertava interesse como aquilo e qualquer palavra contra minha razão era imediatamente rechaçada. Mesmo que apenas mentalmente.

Sei que, a maneira de outras patologias, o fanático jamais aceitará que é um fanático. Não adiantava ninguém me dizer, imediatamente eu recusava e tinha certeza de que eu não era um fanático. Existiam fanáticos, mas em outras seitas, religiões e organizações, não na minha que era a verdadeira, que tinha a verdade universal.

De acordo com a minha experiência, é assim que pensa um fanático. Era assim que eu pensava. Relevando às vezes porque as pobres pessoas não conheciam a verdade que eu conhecia.

No meu fanatismo não havia lugar para opiniões diferentes, não havia espaço para outras verdades, elas não existiam, somente aquela das escrituras que eu seguia. Mesmo que eu olhasse para as pessoas com condescendência, compreensivo, aceitando a ignorância delas, mantinha todas fora do meu mundo correto.

A não ser, é claro, que elas aceitassem incondicionalmente a verdade que eu pregava, aí eu as recebia, ajudava e conduzia.

Vivi assim por anos. Vivi momentos agradáveis e desagradáveis. Posso dizer que perdi tempo da minha vida, encarcerado no fanatismo, que me limitou, manteve-me preso, obtuso, intolerante, preconceituoso, equivocado e chato, muito chato.

Tomei decisões erradas, fiz coisas que me prejudicaram, arrumei encrencas que poderiam ter sido evitadas.

Mas o pior mesmo é que prejudiquei pessoas, muitas pessoas.

Neste fanatismo convenci muita gente das verdades que eu pregava, fanatizei pessoas, alterei rotas e vidas, provoquei mudanças nem sempre para melhor, mexi com famílias, com configurações sociais, com a vida das pessoas.

A libertação


Não sei dizer exatamente o que eu fiz ou o que aconteceu que fez com que eu saísse daquela prisão, daquele cárcere do fanatismo. Sei que passei muito trabalho, muitas privações, sofri bastante. Sei que não sou uma pessoa que se conforma por muito tempo com uma situação que não está agradável, se eu não estiver visualizando um objetivo maior.

Lembro-me que um dos estopins da minha libertação, talvez a semente, foi ver o fanatismo naqueles que me seguiam. Certo dia um homem, um profissional, pai de família, chegou para mim e perguntou se ele podia fazer uma festinha de aniversário para comemorar o primeiro aninho do seu filho mais novo.

Neste momento eu me dei conta de que antes de eu chegar naquela cidade e começar as palestras e cursos, aquele homem sabia com segurança o que queria, o que podia, o que devia fazer, de acordo com a sua própria consciência.

Se eu tivesse dito que ele não podia fazer a festinha ele teria enfrentado toda a sua família e teria me obedecido e aquilo me chocou demais, foi como um soco na minha cara.

Mais tarde, eu estava em outra cidade bem longe da minha terra e trabalhei por um tempo com crianças portadoras de necessidades especiais. Nesta época meu filho havia nascido, estava com apenas 2 meses.

Então um certo dia eu estava andando por uma rua daquela cidade e simplesmente uma decisão se instalou em minha mente, como um facho de luz. “Vou voltar para a minha terra e vou me tornar um professor”. E foi o que eu fiz.

Claro que não foi tão fácil assim, as lutas foram muitas, mas muitas, mesmo. Nem meu casamento resistiu às mudanças que comecei a realizar. Mas já mudei minha vida muitas vezes para muitos lados diferentes, de variadas formas, esta foi só mais uma. Nunca tive medo de mudanças, aliás, gosto delas.


Com as minhas mudanças aquela instituição fez uma assembleia e decidiram por me expulsar formalmente. O que significava que seus membros não poderia mais ter contato comigo, inclusive minha esposa e meu patrão na época. Os dois me demitiram.

Algum tempo depois a instituição se desfez (não por minha causa, é claro). Eu saí praticamente ileso e até me arrisco a dizer que aprendi algumas coisas úteis. Mas nem todos tiveram esta sorte, alguns não conseguiram se libertar, teve quem perdeu o juízo, quem abandonou tudo, mas tudo mesmo, mulher, filhos, riqueza, empresas, e virou andarilho.

Depois de muito esforço, de muitas lutas e cicatrizes, entrei para uma Universidade pública, aos 29 anos, e tornei-me professor.

Nunca mais me senti bem em influenciar pessoas deliberadamente com fiz naquela época. Entendi que sou apenas mais um cego e que não posso querer guiar ninguém. Quando tenho certezas, prefiro questioná-las e, se for o caso, tomá-las somente para mim. Cada um que encontre as suas.

Aprendi a duras penas que um cego que acha que vê e quer guiar pessoas é um grande perigo, leva todos para o abismo. Não guio homens nem me deixo guiar por eles, são apenas homens como eu e como eu têm visão e entendimento limitados. Podem estar cegos e enganados, mesmo que tenham certeza absoluta. Sempre há esta possibilidade.

Se depender de mim, cada um que faça o seu caminho, com toda a liberdade. Que vivam como quiser.

O fanatismo, seja religioso, político ou relativo a qualquer outra área é uma doença que pode ser curada. É desastrosa, nefasta e muito perigosa.

Eu, da minha parte, quero apenas distância, não pretendo cair nesta armadilha de novo.

sábado, 28 de dezembro de 2019

CONSELHOS DE UM DEFUNTO



A você, que ainda respira.


Pois não se engane, isso vai parar um dia. Não se sabe em qual dos dias acontecerá o último alento, só se sabe que acontecerá.

Foi assim comigo e é assim com todo mundo, disso ninguém escapa.

Você pode não ter certeza de nada, nem de Deus nem do Diabo, nem do céu nem do inferno, mas que vai parar de respirar, a isso vai. Disso não duvide nunca e não se esqueça nem por um instante.

Este foi meu infortúnio, esqueci-me de que morreria e vivi como se a vida fosse para sempre. Não é. A morte veio. Traiçoeira, a danada, pegou-me de surpresa e eu nem tinha vivido direito ainda. Deixava pra depois.

Se você nunca recebeu conselhos de um defunto, então preste muita atenção e aproveite bem estes que lhe dou, se quiser ter uma boa vida, ou uma boa morte.

Caro vivente, asseguro-te que terminei a vida como um rotundo fracasso. O mais completo e absoluto fracasso em todos os sentidos. O que significa dizer que meu tempo aqui foi um gigantesco desperdício.

E vou explicar porque encerrei minha passagem pela Terra com a sensação de mediocridade, de ter fracassado como pai, marido, filho, amigo, irmão, profissional, enfim, como ser humano.

No final, percebi que passei por este mundo e estava indo embora sem deixar nada, mas nada mesmo! Nenhuma marquinha que se aproveitasse, nada de realmente importante, que valesse a pena.

Caro vivente, pode acreditar no que lhe digo, no momento de fechar a conta da existência, aquilo que pensei que fosse fazer parte da operação, que fosse contribuir para um resultado positivo, não teve a menor importância. Zero à esquerda.

Os filhos que vieram através de mim não contaram para evitar minha sensação de fracasso. Desculpe-me a franqueza de defunto, mas, ao que me consta, se reproduzir até os ratos e as baratas se reproduzem. E há muitos seres peçonhentos que cuidam melhor das suas crias do que nós, “humanos”.
Todo tipo de homem e mulher se reproduz, dos mais vis aos mais nobres e em nenhum grande legado você verá filhos. O vil permanece vil e o nobre permanece nobre, pelo que é.

Não se vê no legado dos grandes homens e das grandes mulheres da história da humanidade filhos e filhas. Você sabe da teoria da relatividade, mas não dos filhos de Albert Einstein. Você conhece a psicanálise, mas não os filhos de Freud. Você sabe das façanhas de Darwin, mas não dos seus filhos. Amélia Earhart é conhecida porque voou, não porque se reproduziu. Marie Curie é conhecida pela proeza de ganhar dois prêmios Nobel e não dois filhos. Nenhum grande nome é lembrado pelos filhos que teve ou que deixou de ter. Portanto, filhos não entram nesta conta e você saberá disso na hora derradeira. Aproveita que estou te contando antes.

Está orgulhoso ou orgulhosa porque conseguiu fazer uma faculdade. OK, muito bem, parabéns. Mas isso também não entra na conta, você sabe a grade quantidade de idiotas com diploma que existe. O valor do que se faz não depende de diplomas universitários nem dos títulos acadêmicos que se possa ter conquistado. Naquele último momento, no grande balanço final, isso não terá valor algum.


Você está deixando uma grande fortuna? Parabéns, seus descendentes agradecem. Mas você conhece Steve Jobs pela fortuna que ele deixou ou por suas criações que ajudaram a mudar o mundo?
Aqui deste lado, ele mesmo manda um recado a você que ainda vive e que, quem sabe, ainda tem todo o viço da juventude: “a fortuna não contou em nada no último ato da tragicomédia da vida. Não fosse a importância das invenções para a humanidade, seria apenas um defunto desgraçadamente rico, um miserável que deixou um monte de dinheiro para os outros.” Ou seja, seria um fracasso, tanto quanto eu, que morri miserável ou outros milionários que morreram e ninguém conhece ou lembra mais.

Na hora da morte nada disso dará sentido à vida que você teve. E você saberia disso somente no seu último instante, se eu não estivesse te contando agora.

Se este tipo de coisa for tudo o que você tem para dar sentido à sua vida e à sua morte, lamento decepcioná-lo, mas não será suficiente. E você morrerá com um grande vazio, sentindo-se um completo inútil, como se não tivesse vivido direito, como se tivesse desperdiçado a vida.

E este, caro vivente, é o verdadeiro inferno. O pior dos infernos. Quando chegar no final da vida, você olhar para traz e ver que fez tudo errado, ver que não fez nada que realmente importasse, não entendeu sequer o que era a vida. E não tem como voltar atrás e fazer de novo, não tem como rebobinar esta fita, não tem segunda chance.

Como dizem por aí, a vida não aceita rascunho, não dá para passar a limpo depois.

Sim, parece injusto, porque a mim também não me disseram nada, ninguém me avisou. Fui saber o que era a vida somente no momento da morte. Mas é claro, como não pensei nisso antes, só sabemos o sentido das coisas conhecendo seu extremo oposto ou o que ela não é.

Sabemos o que é luz somente porque conhecemos a escuridão. Sabemos o que é o “B” porque ele não é o “A” nem o “P” e nenhuma das outras letras do alfabeto. Sabemos o que é o bem quando se opõe ao que para nós é o mal. O verde é o verde porque não é o amarelo nem o vermelho nem o azul...

 Como haveríamos de saber então o que é a vida sem conhecer a morte? Por isso, só nos damos conta do que é a vida quando ela já era, no momento exato em que a perdemos e provamos o que é isso que chamamos morte.
E por este mesmo motivo também não temos como saber o que é a morte até que ela nos abrace e fique cara a cara com a vida, seu oposto, seu contrário.


Eu sei que isso não tem graça, que é uma merda, um assunto chato, mas é assim que é. E como eu poderia não te contar estas coisas tendo a chance de fazê-lo?

Então, caro vivente, já deves ter percebido que toda aquela vida cheia de certezas, controles e domínios era fake, né? Era um engodo, e a verdade é que vivemos sem saber sequer o que a vida é.

Deves ter percebido também que nada do que você pensou em deixar como herança ou legado da sua passagem por aqui vai entrar na conta. E se pouco se lixou para legados, não tem problema, mas vais terminar com sabor de vazio, de fracasso total e de desperdício do mesmo jeito.

Agora, se queres chegar no fim e sentir orgulho da vida que tivestes, se quereres sentir que teu tempo e tua vida não foram um desperdício, se não queres ter arrependimentos e sensação de vazio, se não queres morrer como eu, então por favor esqueça tudo o que te mandaram fazer e tudo o que te disseram que era importante.

Daqui deste lado, vejo apenas minhas decisões erradas, os caminhos que não deveria ter pego, os impulsos que não deveria ter atendido e as importância que eu deveria ter mandando às favas.

Do alto da minha morte, vejo que se eu tivesse perseguido aquele primeiro sonho, que começou lá na infância, que acompanhou toda a minha vida como uma paralela, eu teria morrido com sensação de satisfação e de missão cumprida, não com este gosto de fracasso irreversível.

Preste atenção nos sonhos da criança e do adolescente que fostes, pois há um motivo especial para eles terem nascido naturalmente no começo da vida, na força do crescimento e não na aridez da velhice.


Agora, do lado de cá, eu vejo com clareza a outra ponta do novelo, a outra ponta da vida, onde tudo começa, onde tudo se faz, a infância, a adolescência, o extremo oposto da decrepitude e da morte.

Lá estão eles, os sonhos não perseguidos, negligenciados, deixados para depois, preteridos por compromissos desnecessários, que podiam ter sido evitados.

Agora vejo claramente o fio dos meus sonhos esquecidos percorrendo toda a minha vida, voltando a gritar e a se manifestar no final. Cobrando de mim, dedo em riste, minha negligência e abandono.

Dizem que é maturidade esquecer os anseios juvenis em prol das coisas importantes de adulto. Nada mais cínico, covarde e mentiroso. Não creia nesta falácia, caro vivente, pois ela é o prelúdio da sua desgraça.

Nossa existência é mesmo uma cobra engolindo o próprio rabo.

Agora que acabei de morrer, sinto-me como a criança que foi para a escola sonhando em ser professor. Chegando lá, os amiguinhos mais velhos e experientes a convenceram de que os jogos e as brincadeiras do recreio é que eram o verdadeiro sentido da escola. E a isto o menino se dedicou, tonando-se o melhor.

Porém, ao final do ano, descobriu que apesar de ter vencido todos os jogos, de ter se tornado o melhor em todas as brincadeiras, estava reprovado. Tudo o que fez não servia para nada, ele não se tornaria um professor e não tinha como retornar e fazer diferente. Tudo estava consumado.

É assim que me sinto e é assim que se sente alguém no fim da vida, se não perseguiu seus sonhos e quereres mais íntimos e sinceros, deixando-se levar pelos enganos da vida.

Nem família nem carreira nem fortuna nem diplomas nem religião nem empresas, nada, nenhum dos sérios compromissos de adulto lhe dará sensação de missão cumprida e satisfação no momento da morte. Tudo isso desvanecerá como neblina sob o calor do sol, como fumaça ao vento.
Só aqueles sonhos mais sinceros que foram realizados testemunharão a seu favor na hora final.

Dependendo das suas realizações, lembrarão de você um pouco mais, um pouco menos. O que não fará a menos diferença.

E por fim, a grande ilusão acaba. E só.


domingo, 22 de dezembro de 2019

FAROFA DE REBELDIA COM PIMENTA



Palavras de um homem velho



 Ouvi estas palavras de um homem velho, muito velho, que me fez pensar muito, e sentir muito também.

Vocês não sentem algo fervendo dentro de vocês, pelo menos de vez em quando?

Nunca sentiram, como na Terra, uma espécie de vulcão entrando em erupção em suas entranhas, queimando coração e mente?

Nunca lhes pareceu que as pessoas estão mortas, frias de tão mortas, geladas, insensíveis?

Será que tem algo de errado comigo, que ainda na minha velhice sinto estas coisas? E, triste, vejo meus filhos, jovens, sem tesão, sem vida, sem revolta, sem revolução, sem tempestades, sem desobediência, sem ousadia, seguindo a manada que quer ter ao invés de viver, de realizar, de experimentar, de revirar mundo.

E ele nos perguntava.


Vocês não percebem isso, professores, educadores?

Estão dormentes também, a pós-modernidade entorpeceu vocês também, foi? Viraram pregadores de estabilidade e obediência, como aquela que se tem no túmulo?

Será que só eu vivo estas tempestades internas devastadoras que arrastam tudo que encontram pela frente, criando caos e um redemoinho de ideias e sentimentos incontrolável dentro de mim?


 E como gosto!

Isto é uma doença? Ou será que é a cura?

Será que só eu vejo as pessoas se tornando mornas e insossas?

Até me dá vontade de chorar quando vejo jovens tão velhos, mas tão velhos e sem vida que parece que já estão mortos, só que ainda andam e falam e fazem mecanicamente algumas coisas.

A vida das pessoas parece de cera. Parece que estamos vivendo um pesadelo em um museu de cera, com medo que qualquer calorzinho derreta nossas vidas. Tudo tão arrumadinho e fixo, de uma assepsia e esterilidade nauseante. Mas isso não é próprio do espírito humano, pelo amor de Deus!

Quando foi que o sangue virou esta água suja e morna, dentro desta aparência de cera?

Quando foi que a vida real se tornou esse faz e conta? Uns fazem de conta que vivem, outros fazem de conta que acreditam e todos fazem de conta que são felizes e cumpridores de divino destino.

Pro inferno!

Até parece que algum tipo de entorpecente está sendo administrado ao gênero humano, tornando-nos bonecos, autômatos, sem sangue, sem vida.  

Coloquem pimenta nas mamadeiras destes adultos infantis para ver se acordam deste sono profundo que os faz manter um sorriso amarelo e congelado no rosto, sempre o mesmo para todas as ocasiões, como o pretinho básico que combina com tudo.


Não se vive mais, só se roda um software.

Eu poderia continuar escrevendo as coisas que ouvi daquele homem, mas acho que isso já lhes passa uma ideia da ideia que ele quis passar.

E eu fiquei como?


Lembrei do esforço que eu fazia preparando as aulas, elaborando estratégias didáticas e pedagógicas, maneiras diversas de abordar os assuntos, projetos interdisciplinares para ensinar os conteúdos. O esforço que eu fazia, e que amava fazer, ministrando as aulas com paixão. Mas nada empolgava aquelas crianças, aqueles adolescentes e jovens. Nada criava paixão, nada era capaz emocioná-los, nada os seduzia ou arrepiava, nem mesmo as viagens. Tudo era chato e cansativo.

Temo que aquele homem velho tem alguma razão no que disse, pois parece que as pessoas estão perdendo até a capacidade de chorar, e isto não é um bom sinal. Talvez um dia, por processo de evolução, venhamos a nascer sem glândulas lacrimais, pois dizem que órgão que não se usa, se atrofia.

E aí passaremos a nascer sem o dispositivo da empatia, se é que ele ainda existe. Não há sofrimento ou injustiça que faça um ser humano da pós modernidade sair do seu lugar, mudar de rota, mexer em sua vida, a maioria segue o programado. Sempre.


Há uma geração sobre a Terra que desconhece Fernando Pessoa ou Manuel de Barros, que não vê o menor sentido na arte e na poesia, que não se emociona ouvindo uma música, diante de uma paisagem natural ou de um abraço sincero. Tudo é enfadonho.

Já dizia um outro velho sábio: “sem tesão não há solução.”

E não se trata apenas de uma questão de escolha, quando um sonha em acumular 1 milhão antes dos 30 anos e outro sonha em conhecer 30 países, por exemplo. Há algo que é anterior às escolhas feitas. E é algo sobre educação, sobre os valores que os constituem, que os fazem ser quem são, é sobre como cada um vê a vida e entende o mundo.

A escolha de acumular 1 milhão ou conhecer 30 países antes dos 30 anos é só um exemplo para ilustrar que não é só uma questão de escolha, mas diz quem cada um é, diz sobre a índole de cada um.

Uma escolha não é um ponto isolado na linha da vida, ela tem raízes no passado e consequências no futuro.

Ainda que alguém tivesse alguma vontade de optar por conhecer os 30 países, abrindo mão de acumular 1 milhão, não teria coragem de fazê-lo. Nossa configuração social não permite esta escolha. Só a faz quem tem rebeldia e ousadia, quem desobedece.

Mas boa parte desta geração não vive mais, roda um software, como disse o velho. Por isso não chora mais, não se arrepia mais, não se emociona, não tem tesão pela vida, não tem coragem, não desobedece o sistema de crenças, não encara a realidade, não questiona as regras, os costumes e dogmas. 
Sente medo, medo de si próprio, das próprias fraquezas e limitações.


Isso até me lembra aquela história da menina que perguntou para a mãe porque tinha que cortar o rabo e a cabeça do peixe para assá-lo. E a mãe respondeu que não sabia, que tinha aprendido assim com a sua mãe. Então a menina foi perguntar para a avó, que deu a mesma resposta, que tinha aprendido assim com sua mãe e assim ensinou para a filha. E a jovem não se deu por satisfeita e foi perguntar para a bisavó, que respondeu: “não, minha bisneta, não precisa cortar a cabeça e o rabo, a gente contava naquela época porque o peixe não cabia na forma que tínhamos, só isso.”

Quem não questiona e não se questiona fica assim, só repete, sem saber direito o porquê. E repete uma vida inteira e muitas vezes tem problemas, deseja mudar, mas está condicionado, fica enredado, preso, porque não ousa perguntar, porque não ousa mudar, chutar o balde, questionar as regras.

Tá todo mundo muito preocupado com o que os outros irão dizer, com o que irão pensar, com a imagem que farão, com a foto, com as aparências.

A pós modernidade tem produzido criaturas sem sal, sem fogo, sem sangue. Falta pimenta, falta indignação, ação, numa farofa louca que tire a gente deste chão, desta lona.

O velho está certo: estamos perdendo alguma coisa, estamos deixando passar alguma coisa importante que nos poderia mudar a vida e o mundo. 
Como se tivéssemos algum poder que estamos desperdiçando. Como se estivéssemos amarrados por uma folhinha de capim achando que é uma corrente de aço.

E é quando se sente isso que aquele vulcão acorda e tudo começa a ferver. Então, gosto de dar atenção. E não jogo água, jogo gasolina.



domingo, 15 de dezembro de 2019

O PODER DA NARRATIVA




  
Você lembra que lá na escola os professores de Português e Redação ensinavam a produzir textos dissertativos?

E não foi em um ano só, não. Durante toda a sua vida escolar este tipo de texto apareceu em quase todos os anos e séries. 

 Lembra que explicaram que este tipo de texto é o que trata de argumentos, de ideias e opiniões, de pontos de vista, de análise e de crítica?

Lembra o quanto ensinavam e exercitavam a produção e a interpretação deste tipo de texto? Chegava a enjoar, não é mesmo?

Talvez isso ocorra porque geralmente este é o tipo de texto que é mais solicitado nas provas do ENEM, vestibulares e concursos. Ou talvez seja por tradição escolar e outros motivos.

Mas o fato é que é bem menos frequente solicitarem e orientarem a criação de textos narrativos, ensinando a criá-los com todos os seus elementos. Também não era, e não é, muito comum fazerem exercício de interpretação de narrativas, como um conto ou uma fábula, por exemplo.

Embora nenhum tipo de texto seja puro, mas são classificados segundo a predominância, tenho a impressão de que a dissertação tem lugar privilegiado no meio acadêmico em relação à narração.

Entretanto, olhando para o contexto social, pragmático, do passado e contemporâneo, é possível identificar uma guerra, uma disputa quase constante e por vezes bem acirrada entre narrativas.


São narrativas tentando prevalecer sobre as outras, dominar o enredo social, atrair mais simpatizantes, elegendo-se como prediletas e dominantes.

A disputa entre religiões pode ser vista como uma disputa entre narrativas, pois é a história contada que convence ou não convence. Os livros sagrados são basicamente compostos de narrativas, que contam a saga de um deus, ou de deuses, e seus humanos escolhidos.

O embate entre criacionismo e teoria da evolução, por exemplo, é uma disputa entre duas narrativas que contam como o Universo e a vida teriam surgido. Cada qual quer ter a razão, quer ser reconhecida como predominante, como verdade absoluta.  

No campo político, a disputa não tem sido outra, senão uma guerra entre narrativas no terreno das ideologias. As ideologias tratam de ideias, porém são criadas narrativas, com enredos simplistas, divididos em um lado do bem e um lado do mal, com bandidos e mocinhos, que dominam a cena.

Cada narrador coloca-se e coloca os seus personagens no papel de mocinho que luta contra o mal, que logicamente é o seu adversário. Cada narrativa domina, seduz uma quantidade de simpatizantes, apoiadores, crentes ou seguidores, o que serve de medida de força, dominação, controle, prevalência.

Isto é bem nítido no campo da religião e da política. Pode prestar atenção que você vai comprovar.

Quem não está habituado com narrativas, quem não sabe como lidar com elas, quem não aprendeu como elas são compostas, quais são seus elementos, suas estratégias, como se faz a análise de narrativas, acaba ficando exposto e vulnerável. Presa fácil é quem toma partido de uma narrativa, quem é convencido por ela, tomando-a como verdade absoluta.

Nenhuma narrativa é uma verdade absoluta. Nenhuma.



Este tipo de acontecimento já provocou desastres na humanidade. Aliás, arrisco-me a dizer que os maiores desastres que a humanidade já viveu foram provocados por narrativas que convenceram incautos sem nenhum senso crítico ou capacidade de leitura. Narrativas que arrastaram pessoas para o caos.

Ou não foi uma narrativa bem contada por Jim Jones, da Igreja Cristã do Evangelho Pleno, que provocou o suicídio em massa e a morte de 918 seguidores, em 1978, nos Estados Unidos?

Mas as narrativas, por mais persuasivas que sejam, podem ser completamente ficcionais. Ainda que sejam verossímeis, podem conter partes da realidade ou elementos verídicos, podem privilegiar um ponto de vista em detrimento de outro, podem utilizar-se de recortes históricos, de intertextualidade, para aumentar seu poder de convencimento. E ainda assim serem apenas narrativa ficcional.

Enquanto um texto dissertativo tem o argumento e o convencimento como elementos constitutivos, ou seja, elementos que o caracterizam, e por isso são claramente identificáveis, a narrativa tem estes elementos de forma subliminar. 

Nas narrativas, a ideologia, os mecanismos de convencimentos, as argumentações residem nas entrelinhas, nas inferências, nas relações semânticas, no diálogo com a realidade e com o interior do leitor.

A ascensão de Hitler e do Nazismo se deu sobre uma narrativa construída. A narrativa dizia que o alemão era um homem especial, uma raça superior, que precisava se livrar e se proteger da miscigenação para criar uma raça pura.
A narrativa nazista contava que o povo alemão estava contaminado com o mal, que eram os judeus, que tinham grande poder econômico e estavam sugando a pátria alemã, explorando o povo alemão, empobrecendo o país. Eles precisavam ser eliminados antes que dominassem tudo e todos e descaracterizassem a Alemanha. A narrativa nazista dizia ainda que haviam outros personagens do mal que precisavam ser extintos para o bem da Alemanha e do povo alemão, como homossexuais, ciganos, testemunhos de jeová, etc.


A história foi muito bem contada por um homem que nem era alemão, era austríaco: Adolf Hitler. Provavelmente não foi criada apenas por ele, mas foi identificado nele o narrador, o contador ideal.

E todos os elementos necessários estavam ali, o inimigo trazendo o caos, verossimilhança (podia ser que houvesse mesmo uma crise econômica, e quando não há, basta criar uma), o elemento “medo” e o mocinho, o herói, que aparece com a solução e salva a princesa.

Além disso, tem todo o trabalho de marketing para promoção da novela, para criação de medo e forte companha contra os vilões.

Esta narrativa foi comprada pela maioria dos alemães, foi tragicamente aceita sem questionamentos, e o resultado disso todos sabemos qual foi.

Sem a construção de uma boa narrativa e sem fazê-la predominar sobre todas as outras, a tragédia não teria sido possível.

No final, a princesa nem era princesa, os bandidos não eram tão bandidos nem os mocinhos tão mocinhos.

As pessoas não entenderam que se tratava de uma narrativa e entenderam menos ainda que a narrativa era ficcional. Não sabiam que não existe narrativa pura, que em todas elas há veiculação de ideias, há argumentos, convencimento, elementos da dissertação, assim como da descrição. Não sabiam que nenhuma narrativa é verdade absoluta, infelizmente.

Um inquérito, por exemplo, busca montar uma narrativa, inclusive com reconstituição de ações para nela se espelhar. A criança que está com medo do pai, da mãe ou da professora cria uma narrativa que a proteja das possíveis consequências da verdade.

Um conto, um romance, uma novela, uma crônica, uma fábula, uma notícia, uma biografia são alguns exemplos de narrativas. 

Ler, estudar, entender, habituar-se com a sua estrutura, criar familiaridade com suas dinâmicas, saber quais são os elementos que fazem parte de uma narrativa é de suma importância para ter a capacidade de lidar com o bombardeio de narrativas que nos tentam cooptar diariamente, cooptar nossa mente, nossas emoções, nossa vida.

Já percebeu que são as narrativas de sucesso que estão sendo usadas pelos bancos, pelas financeiras, pelos fabricantes de carros, pelas construtoras e corretoras, pelas grande companhias e por todo o mercado para convencer e atrair clientes? Veja como as propagandas são narrativas com elementos de sucesso, de aventura, de felicidade, de medo, de coragem, de conquista, de ousadia e de tantas coisas que todos querem.

Narrativas têm grande poder e para não ser vítima delas é preciso ter capacidade de leitura.  Saber ler profundamente.