Você, professor, tem o conhecimento, mas está vendendo seu tempo, suas horas, seus dias, sua vida?
Peço
desculpas aos meus colegas professores, mas vou fazer um pouco o papel do advogado do
diabo neste artigo.
A
intensão não é ofender nem desmerecer nosso trabalho, é só incomodar mesmo,
porque o que é cômodo pode não ser muito produtivo nem transformador.
Espero
provocar perguntas, questionamentos e indignação.
Educação,
ao meu ver, de educador, é uma ciência, uma disciplina acadêmica, uma área de
pesquisa e uma prática, que deveria contribuir para a formação profissional, científica e cidadã, ajudando a construir uma sociedade melhor para o mundo.
Deveria
contribuir para a construção de uma sociedade humana em que se pudesse viver
dignamente, feliz e em comunhão, sentindo-se seguro e realizado.
É assim que é?
Ao que
me parece, a escola e a família deveriam ser os lugares privilegiados da
educação, aquela que ajuda as pessoas a serem melhores, para si e para o meio. Mas nem uma nem outra e nem mesmo a religião
estão dando conta de fazer esse papel. Salvo raras
exceções.
Chego
a esta opinião ao olhar para o lado, ao meu redor, para o mundo em que vivo,
para a vida das pessoas e para as relações sociais físicas e virtuais.
E
você?
Consegue
ver?
Consegue
enxergar além das aparências e dos discursos?
Consegue
ver por baixo das máscaras?
Chego
a me perguntar se a escola faz mais bem ou mais mal para as nossas crianças e
jovens hoje em dia.
Eu sei
que há um pudor enorme com relação à escola e falar contra ela ou questioná-la
é quase um sacrilégio, mas aquilo que não se repensa, que não se critica e
renova, tende a mofar e a escola está ficando com cheirinho de mofo.
É na
escola que os diferentes começam a ser massacrados pelo bullying e é para lá
que eles têm voltado armados de revolta, desalento e pistolas.
Não tem sido
assim?
A
educação escolar não prepara para o século XXI, não ensina as pessoas a lidarem com suas emoções nem com a tecnologia. E o resultado disso pode ser medido pelo movimento das farmácias, dos consultórios médicos e pela corrida aos psicólogos. Pode ser medido, infelizmente, pela saúde mental e emocional das crianças, cada vez mais precária.
A escola não
ensina, como diz Edgar Morin, as pessoas a lidarem com a complexidade, a terem
uma visão sistêmica do mundo e da vida, não desenvolve uma consciência de espécie, mas prepara para a competição e para a classificação.
A escola
não ensina as pessoas a viverem na atual configuração social.
E o
resultado que temos é uma sociedade doente.
Aliás,
a escola está conseguindo inclusive adoecer os professores, aí imagine como
fica todo o resto.
Reforma?
Não.
Não sei
se este sistema pode ser reformado, algumas vezes o melhor é demolir e construir
um novo.
Um
novo ente de educação erigido no lugar deste que aí está.
Sem
pudor. Com utopia, pode ser, mas sem pudor de desconstruir o que adoece, o que
não funciona mais.
Ah,
sim, serve para ensinar Matemática, Português, Geografia, História e algumas
técnicas profissionais.
Mas
que matemática e que português se tem ensinado na escola, que ninguém aguenta
mais?
Que profissional a academia está formando que a empresa não consegue aproveitar por falta de habilidades sociais?
Sou
professor de Português e lecionei por muitos anos, e por isso posso afirmar sem
medo de errar que o que se ensina nesta disciplina ainda hoje é ridículo.
Com
raríssimas exceções, as escolas nem para ensinar a ler e escrever estão
servindo mais.
Todas
as pesquisas e dados e resultados e experiências comprovam isso.
Então,
se não ensina a ler e escrever, não ensina ética, não ensina a lidar com as
emoções e conflitos sociais, não ensina a conviver e compartilhar, se não
ensina respeito, compaixão e solidariedade, se não ensina a pensar de forma
sistêmica e crítica nem a estudar, aprender, desaprender e aprender de novo, serve para quê?
Se não
serve ao propósito de colaborar para formar seres humanos melhores para uma sociedade melhor para o mundo, a qual propósito tem servido a “educação”, a escola?
Tem
servido ao mercado?
Tem servido à competitividade?
À seleção? À exclusão?
Tem servido para a
programação e encaixotamento das mentes?
Sim,
pois a gênese da escola é esta, para isso foram criadas, com este propósito, e
a ele ainda servem. Já disse Foucault.
É na
escola que a deseducação acontece.
E até
que alguém tenha coragem de encarar esta realidade, ela continuará deseducando.
Um
movimento de pais, de professores e de estudantes em prol da desconstrução
deste modelo de educação escolar, bichado, antiquado, inadequado e nocivo, e
que ao mesmo tempo construa uma nova proposta de ente educador, para o século
XXI, seria, talvez, uma alternativa.
Parafraseando
Humberto Maturana, antes de decidir que educação queremos para o Brasil,
precisamos decidir que Brasil queremos, que sociedade queremos, que cidadãos
queremos para o mundo.
Em que
momento fizemos isso no Brasil?
Quando
você, como pai, como educador ou como estudante, opinou sobre estas
questões?
Quando
você participou, mesmo sendo educador, de discussões e construções deste tipo, que realmente tenham resultado em práticas?
Quem é
pai de criança ou jovem em idade escolar sabe que, mesmo pagando uma escola
particular cara, seus filhos ainda não sabem o que a
escola passou anos tentando ensinar.
E a culpa não é do aluno, é da
escola.
Porque
por outros meios as crianças têm aprendido outras coisas de forma rápida e com
facilidade.
Há
professores dando 60 aulas por semana, para salas com 30 ou 40 alunos, ainda
usando um livro didático e uma lousa, enquanto o jovem tem o mundo na palma da
mão, ao alcance de alguns toques na tela, sem precisar sequer olhar.
Se a
escola fosse mesmo um lugar saudável não teríamos um número tão grande de
professores em tratamento com medicação de uso psiquiátrico e de crianças
tomando Ritalina e sabe-se lá mais o quê.
Se a
nossa loucura já está atingindo as crianças, isso deveria ser um alerta
vermelho para repensarmos a educação, a escola e a nossa saúde mental e
emocional.
Professor
estuda anos, adquire um conhecimento especializado e aprende como passar este
conhecimento.
Depois
chega na escola e vende seu tempo.
Ou
seja, o professor vende seu tempo para a escola, mas ela vende o conhecimento do
professor para a sua clientela.
É isso
que significa trabalhar por hora/aula, você, professor, está vendendo seu tempo
e seu dia só tem 24 horas, por isso não consegue ganhar o suficiente mesmo
trabalhando tanto.
Enquanto
isso é a escola que vende o seu conhecimento por um preço bem alto.
Se você vendesse seu conhecimento
diretamente, sem atravessadores, tudo seria diferente, para você, para a sua
família e para seus alunos.
Desconstruir
a escola e este tipo de mercado de conhecimento ou informação, significa acabar
com a exploração do professor, baratear a educação para os pais e melhorar a
qualidade do ensino para os alunos.
Espero que esse texto não tenha dado soluções nem respostas, porque não é essa a intenção, não sou dono da razão, não tenho solução para um problema deste tamanho, só sei que o problema existe e por isso espero ter provocado perguntas,
dúvidas e questionamentos.




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