quinta-feira, 6 de junho de 2019

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO E INTERNET


 Ler é muito mais do que reconhecer letrinhas

Quadro do pintor Almeida Júnior - Leitura

Saber descodificar o código escrito não é saber ler.

Ou seja, saber desvendar os símbolos gráficos (as letras, por exemplo) transformando-os em sons, em palavras, não significa saber ler.

Alguém pode olhar para um papel com a letra do Hino Nacional brasileiro, saber cantar ou declamar lindamente a primeira estofe e não fazer a mínima ideia do que ela está dizendo.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo heroico o brado retumbante.”

Esta pessoa sabe transformar o código escrito em palavras, sabe descodificar a grafia, mas não sabe ler.

Isto é o que se chama de analfabetismo funcional.

Dei o exemplo da letra do Hino Nacional, mas o analfabetismo funcional ocorre com relação a todo texto escrito, como um contrato, uma lei, a pergunta de uma questão de concurso.

Já vi muitos alunos se darem mal em uma prova por não saberem ler a pergunta, por não entender o enunciado da questão.

A pessoa lê, mas não entende o que lê, não compreende, então não lê, não interpreta, não sabe fazer uma leitura do que está escrito.


Saber ler é perceber as intenções, as motivações, os objetivos, as estratégias, a linguagem figurada, os intervalos e pontuações, tanto o que está no texto como o que está fora dele, em seu entorno.

Saber ler vai além do texto escrito, significa saber interpretar o mundo, as falas, as expressões e feições, os gestos, as indiretas, os duplos sentidos, as entrelinhas, as omissões, as pegadinhas e até os silêncios.

E o hipertexto?


Hipertexto é como certos especialistas chamam a web.

A internet é um grande, um enorme, um gigantesco texto escrito por milhões de pessoas, em centenas de idiomas, com milhões de páginas, sendo produzido incessantemente nos mais variados formatos.

Se antigamente alguém tinha uma enciclopédia na estante, com 23 volumes, com origem e autoria bem definidas, com assuntos, conteúdos e formatos limitados pelo livro, agora tem o hipertexto, o texto virtual.

Nele não se tem o controle da autoria nem da origem e nem de conteúdo. E o hipertexto é constituído de texto escrito, áudio, vídeo, gráficos, imagens, etc. Muda constantemente, é dinâmico.

Se uma pessoa tem dificuldade de fazer a leitura de uma estofe do hino do seu país, de uma questão de prova ou de uma cláusula de contrato, como poderá lidar com a leitura do hipertexto?

Não tendo condições de ler, mas tendo que lidar com ele diariamente, quais poderão ser as consequências?

A primeira consequência é aquela mesma que ocorre se alguém come algo que o seu organismo não é capaz de digerir.

Indigestão, intoxicação, congestão, algo deste tipo.

O organismo geralmente põe para fora aquilo que não digere, vomita.

A grande quantidade de informação recebida, mas não lida, não compreendida, é vomitada, é repetida, como fazem os papagaios, ou os robôs, sem saberem direito o que estão fazendo.

Até que toda aquela informação cause uma intoxicação, provoque uma grande confusão e não possa ser aproveitada positivamente, tornando-se disfuncional, uma doença.

Onde se aprende a ler, afinal?


Não basta ir para a escola para aprender a ler, lá nos ensinam a descodificar os símbolos gráficos e, quando muito, nos dão uma pequena noção de leitura, mas não há tempo nem espaço na escola moderna para praticar a leitura.

A escola está  ocupada com a sua função principal, formar “chão de fábrica”, formar a base da pirâmide, o alicerce da sociedade, o que sustentará o alto e servirá ao topo.

A escola está ocupada em “em-formar”, colocar na forma, normatizar as pessoas para que sejam úteis na sociedade, ou seja, para que produzam e consumam, já que sem esta engrenagem a máquina quebra.

Um ou outro que se destaca consegue escapar deste grande moedor de carne. Estes são os que aprenderam a ler, porque foram mais além da escola.
Tem gente que não gosta da escola, com razão, mas é preciso ir muito além dela e não aquém.

O que faz alguém se tornar um bom jogador de futebol, um bom skatista, um bom guitarrista, um bom bailarino?

Treino, treino e treino.

Então o que é necessário para aprender a ler e ser um bom leitor?

Ler, ler e ler.

Desenvolver repertório, familiaridade, conhecimento e profundidade de leitura.

Um leitor bem formado e experiente tem condições de selecionar o que lê e encontrar o que procura e precisa no texto e no hipertexto, formando opinião e pensamento próprios.

Alguém que nunca viu um peixe na vida não sabe escolher, selecionar, definir o mais adequado para as suas necessidades, pode levar o que o vendedor lhe disser que é bom, mesmo estando estragado.

Mergulhado no hipertexto, alguém que não sabe ler ou que mal sabe ler fica a mercê de indicações, do que chega até ele, daquilo que mais se tem repetido, do assunto da moda, da interpretação da moda, dos hiperlinks, dos achismos mascarados de certezas e conhecimento, dos algoritmos, dos robôs.

E um mar de ignorância esperta avança sobre incautos iludidos, que cacarejam razões e empunham bravatas morais vazias.

Em nome do medo de dizer eu não sei, eu não tenho certeza, eu estou em dúvida, eu não conheço este assunto, eu preciso de ajuda, eu preciso pensar melhor, estudar melhor, quero conhecer uma opinião diferente e não vou me posicionar agora.  

Para proteger o orgulho e esconder a ignorância, a garganta vomita o clichê do momento em repetição insuportavelmente oca, surda, estéril, seca.

Tudo por falta de leitura, de interpretação de texto, escrito, falado, desenhado.

Porque não fomos mais além da escola, adiante dela.

Quem fica na escola, reclamando que ela já é muito, já é demais, sai dela sem saber ler e está fadado a repetir o que mandarem, o que estiver na moda, o jargão do momento.

Eu não sei quantos livros eu já li, sei que leio constantemente desde a adolescência, devo ter lido centenas de livros, mas eu sei que não começou na escola, não começou por causa da escola e nunca li nenhum livro na escola.

Meu primeiro livro, o primeiro que lembro, veio de uma prima minha, que me emprestou dizendo ser uma boa história.

O título é Papillon, do escritor francês Henri Charrière, dependendo do formato tem entre 500 e mais de 700 páginas. Devorei em uma semana e daí em diante nunca mais parei de ler.

E foi assim que aprendi a ler, que desenvolvi o gosto e o hábito, foi fora da escola, em casa, trocando livros com amigos e amigas e conversando sobre eles. Depois, bem mais tarde, na faculdade de Letras, apenas aprimorei minha leitura.

E por que este conhecimento é importante?


Pelo mesmo motivo que um soldado não é largado no campo de batalha sem arma nem proteção.

Nossas crianças, adolescentes e jovens mergulham com facilidade no hipertexto e lá permanecem por bastante tempo.

Com que arma? Com qual proteção?

A melhor arma e a melhor proteção é saberem ler e interpretar com profundidade o que tem diante de si. Mas a escola não está ensinando, não está preparando as crianças para isto. Pelo menos não de forma ostensiva e disseminada aqui no Brasil.

Em outros países, como na Finlândia, já é uma matéria, uma disciplina escolar, o ensino da leitura na web, inclusive preparando as crianças para lidar com fake news, ao mesmo tempo em que exercitam a leitura de jornais impressos.

De acordo com várias pesquisas nacionais e internacionais o brasileiro é dos piores leitores do mundo.

E que é professor e professora sabe das dificuldades que nossos estudantes, de uma forma geral, têm com a interpretação e compreensão de textos.

Neste contexto, não saber ler é como ser cego e perambular pela web sem bengala e sem cão guia. A qualquer momento se pode esbarrar com o indesejável e acabar se machucando.

E a cegueira da falta de leitura e interpretação não fica restrita ao hipertexto, estende-se cá para fora, tornando-se um enorme entrave ao desenvolvimento pessoal, em uma sociedade letrada e complexa como esta em que vivemos.





quarta-feira, 5 de junho de 2019

PREVINA-SE CONTRA O EMBURRECIMENTO


Todos querem se prevenir contra o envelhecimento, mas poucos se previnem contra o emburrecimento.

Pois dizem que é possível emburrecer, ou seja, é possível perder QI, sofrer redução da capacidade cognitiva.

Recentemente surgiram algumas publicações argumentando que os seres humanos estão emburrecendo.

Algumas destas reportagens explicam como este processo está ocorrendo, inclusive do ponto de vista da genética.

Outras trazem resultados de pesquisas com dados e números que comprovam a redução de QI nos últimos anos em determinados grupos estudados.

Assim como também sugiram opiniões contrárias, rebatendo as pesquisas.

Como professor que lida com a linguagem, que lida com cognição, fiquei pensando sobre o assunto e sobre a forma como nossa mente trabalha em determinadas situações.

Nós, seres humanos, temos um sistema operacional fantástico, com bilhões de neurônios, conexões e sinapses, que ao longo da nossa evolução nos deu a capacidade de pensar de forma inigualável, sem paralelo na natureza ou na tecnologia (pelo menos por enquanto).

Além disso, temos outros tipos de inteligências, como a inteligência emocional, que nos dá a capacidade de sentir empatia, por exemplo.

O homem é capaz, portanto, de pensar sobre a realidade de diferentes ângulos, é capaz de fazer abstrações, capaz de pensar sobre si mesmo, sobre sua consciência e sobre o próprio processo de pensar. E estas habilidades são exclusivas dos seres humanos.

Por exemplo: o ser humano é capaz de compreender um fenômeno, um acontecimento, pelo seu ponto de vista, por outras dezenas de pontos de vista, é capaz de fazer relações com outros conhecimentos e experiências que tenha, é capaz de duvidar, criticar, fazer projeções e muito mais.

Portanto, o pensamento de forma linear, do tipo causa e consequência, pura e simples, sem considerar variáveis, diferentes contextos, possibilidades, outras experiências pessoais, dados históricos e estatísticos, não dá conta da maioria das situações da vida.

E a visão dualista do mundo não é a única possível e nem de longe é a mais adequada de se manter.

Alto e baixo, certo e errado, melhor e pior, bem e mal, grande e pequeno, céu e inferno, felicidade e alegria, dentro e fora, amor e ódio, benção e maldição, fazem parte apenas de um modelo mental, bem próprio dos ocidentais.

Nem todos os povos da terra veem o mundo deste jeito, a  partir deste modelo mental, dividindo o mundo sempre em dois opostos.

Alguns povos asiáticos, por exemplo, veem os fenômenos e ocorrências da vida  a partir da multiplicidade, da visão sistêmica e multidisciplinar, nunca dividindo em dois opostos.

Entre o grande e o pequeno existe o médio, e o pequeno pode ser grade e o grade pode ser pequeno conforme o ponto de vista e o tamanho de quem olha.

O que parece um bem hoje poderá se mostrar uma tragédia mais adiante e o que é considerado um mal pode se mostrar uma benção mais tarde.

A visão dualista é bastante reducionista e de alcance bem limitado.

Deixe-me dar um exemplo.


Faz um tempinho assisti a um vídeo na internet em que um rapaz dizia estar apresentando a prova cabal de que a terra é plana, colocando uma régua de 30 cm paralela ao horizonte de um mar calmo, estando ele em cima de um prédio.

Esta conclusão é tirada da seguinte matriz.

o horizonte sobre o mar calmo ficou paralelo à régua de 30 centímetros que está na minha mão, logo a terra toda é plana e não redonda, logo a ideia de que a terra é redonda é ........

O todo é julgado a partir de uma pequena parte, sem mais considerações e ponto final.

E o raciocínio vai se dando de forma linear.

Assim:

“se estou certo disso > logo > a consequência é ...... > logo > a conclusão óbvia é ..... > logo > .......

Mas existe outra forma de pensar fora desta matriz.

Antes de concluir e se posicionar, a pessoa pensa, considera o tamanho da régua em relação ao tamanho do planeta Terra; a sua posição em relação a linha do horizonte; o relevo do local em que está fazendo a experiência; as abundantes imagens feitas a partir dos milhares de satélites que circulam a terra, inclusive da estação espacial; a comparação da Terra com a lua, com o sol e com quase todos os planetas que vemos daqui; a visão que se tem em uma viagem de avião a 10, 11 mil pés de altitude, as incontáveis viagens por terra e mar circulando o nosso planeta e muito mais.

Nesta forma de raciocínio apareceram dados de muitas direções, de diferentes disciplinas, que levaram o pensamento para deferentes possibilidades.

A primeira mente, que chegou à conclusão e convicção de forma imediata e rígida, funcionou de um jeito.

A segunda, que antes de concluir ponderou, fez considerações, lembrou de dados, fatos e experiências, funcionou de outro.

Certo? Você consegue entender esta diferença?

Então vamos adiante.

Há uma condição ainda pior do que aquela da primeira pessoa do exemplo que acabei de descrever.

É a condição mental da pessoa que assiste alguém fazer a experiência e chegar à conclusão de que, portanto, a terra é plana e assume para si imediatamente tal convicção sem sequer pensar, refletir, ponderar. Toma a experiência como prova irrefutável e ponto final.

Esta condição mental é ainda mais delicada.

A mesma matriz de raciocínio, da experiência com a régua e a conclusão de que a Terra é plana, é aplicada a muitos outros contextos, infelizmente, por ser uma matriz.

É a mesma matriz e o mesmo funcionamento cognitivo quando se julga o todo a partir de uma das partes em uma sequência linear.

Uma mulher cometeu um erro, logo nenhuma presta, logo.....

Um professor cometeu um erro, logo nenhum presta, logo...

A teoria tal é falha em determinado ponto, logo ela deve ser descartada por completo e....

A ideologia X é falha em um aspecto, logo ela não presta em seu todo, logo quem a segue também deve ser completamente descartado...

Há casos de ataques em escolas americanas por atiradores, logo o sistema educacional americano não presta, os professores americanos não prestam e a escola americana não serve para nenhuma criança.

Eu acredito nele, logo o que ele disse é verdade, se esta é a verdade, logo todo o resto é inverdade.

Este tipo de raciocínio funciona dentro de uma matriz, com padrões rígidos, que não aceita contradições e é baseada em convicção, em certezas absolutas e verdades irrefutáveis.  

Porque, desde que se esteja funcionando dentro de uma matriz, torna-se difícil pensar fora dela, abrir espaço para o novo e o contraditório. Por isso a presença de intransigência.

Um posicionamento bem típico da esquizofrenia, inclusive.

Este funcionamento é muito semelhante, senão igual, ao funcionamento do adestramento de animais.

Se eu obedecer ao comando, logo eu ganho petisco.

Se eu for no pote azul tem comida, se eu for no vermelho tem eletrochoque, logo só vou no pote azul.

Se eu pressionar o botão cai ração, se eu não apertar o botão fico com fome, logo vou pressionar o botão sempre que sentir necessidade de comer.

Se eu errar vou para o inferno e se acertar vou para o céu, logo quero acertar sempre, logo quem erra está condenado e....

Na primeira infância o cérebro funciona mais ou menos assim em um determinado momento.

Se eu chorar, ganho leite, se eu não chorar não ganho leite, logo sempre que eu quiser leite vou berrar e sempre que eu berrar ganho atenção, logo se eu berrar e ninguém vier.....

O cérebro do homem das cavernas funcionava mais ou menos assim.

Um deles saiu da caverna à noite e foi devorado por um tigre. Logo, sair da caverna à noite significa ser devorado por um tigre, ponto.

Esta é uma matriz de pensamento primitiva, que está no mundo animal, nos homens das cavernas, nos bebês e não há nenhum mal nela.

É natural, porém faz parte de um estágio, um estágio apenas, uma possibilidade apenas, somente um recurso, dos mais simples e limitados.

O homem das cavernas precisava evoluir para não morrer de fome e para não se tornar o jantar de alguém. E evoluiu.

Mas nós não precisamos mais disso, hoje nós só precisamos apertar botões, o que pode ser perigoso para nossa evolução e pode ser um dos motivos de emburrecimento.

Por outro lado, indivíduos das gerações mais recentes têm promovido uma revolução nas relações de trabalho e em todas as áreas da nossa vida não somente através dos avanços tecnológicos, mas através de um olhar diferente sobre o mundo, sobre a vida e sobre as relações humanas.

A prevenção contra o emburrecimento é a leitura, o pensamento, a reflexão e o contato direto com culturas diferentes, de mente aberta, considerando que nossa mente sempre poderá estar enganada e que nem tudo é tão simples como apertar um botão nem tão imediato como dividir por dois.

O homem tem medo do que não entende, por isso assume um entendimento tão rapidamente quanto possível para se sentir seguro. E se agarra a ele mesmo sendo o maior dos absurdos, quando não lhe sobra alternativa, por não dispõe de outras ferramentas cognitivas.

Mas é possível viver muito bem ser concluir, sem ter certezas, sem entender, sem classificar, sem organizar e cadastrar, sem rotular e nomear, sem explicar, sem ter respostas, sem estar convicto.

Em um constante buscar e aprender e reformular.

terça-feira, 28 de maio de 2019

A IGNORÂNCIA NÃO É UM PROBLEMA


O problema é achar que já sabe


 Veja porquê.



A ignorância é nosso estado natural, não nascemos sabendo, nascemos ignorando.

Você já teve a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de uma criança?

Eu já, de muitas crianças, dos filhos, da neta, de alunos e no momento tenho acompanhado o desenvolvimento de um sobrinho, que está com um ano e nove meses.

Você já prestou atenção em como as crianças absorvem com tanta avidez tudo o que está ao redor delas?

As crianças parecem umas esponjinhas, elas sugam tudo, aprendem e absorvem com grande facilidade, basta ouvir ou ver uma só vez.

E por que isto acontece, desta forma?

Porque a criança ignora tudo, ela acabou de sair do útero materno e está em um mundo diferente, que ela nunca viu, tudo é novidade, ela está seca como a esponja e quer, precisa absorver, conhecer, se informar sobre o mundo e ainda não tem pré-conceitos.

Acontece com a cognição, com o aprendizado, como acontece com a linguagem. Uma criança, assim que nasce, tem dentro de si uma possibilidade aberta de adquirir até cinco idiomas como sua língua materna.

Por exemplo, se nasce uma criança no Canadá, que tenha mãe brasileira, pai alemão, babá espanhola e na escola a língua usada é o francês, se ela estivar exposta a todos os idiomas desde seu nascimento, diariamente, adquire todos naturalmente.

Porém, se uma criança estiver exposta a um só idioma, ela adquire aquele único idioma e as possibilidades de aquisição se fecham apenas para a gramática daquela língua.

Mais tarde, se quiser um segundo idioma, o processo é de aprendizagem e não de aquisição como na primeira infância. O esforço terá que ser maior, para aprender, e não aquele de aquisição natural.

É mais ou menos como se a mente dissesse para si mesma que já sabe um idioma, que já tem um e por isso pode se acomodar naquele.

Quando nos convencemos que já sabemos, quando nossa mente registra esta condição, então não há mais motivo para aprender aquilo, ela parte para outra.

Nossa mente é seletiva, ela escolhe o que aprender, em que prestar atenção, em que se interessar.

Se você estiver em um aeroporto, ouve o tempo todo aquela voz nos alto-falantes, mas você não presta muita atenção, porque em sua mente está registrado que você já sabe o que está sendo dito, voos, embarques e desembarques, orientações, nada a ver com você especificamente.

Porém, se o seu nome é pronunciado, o número do seu voo, seu destino ou a companhia aérea em que você vai viajar, a sua atenção se concentra imediatamente na voz que sai do sistema de som e em tudo o que está sendo dito.

A curiosidade da criança vai diminuindo a partir do momento em que ela vai registrando que já sabe.

Aquele potencial de aprendizagem, de absorção, vai diminuindo, vai se tornando mais seletivo, e a mente entende que não precisa mais prestar atenção e buscar conhecer aquilo que ela acredita que já sabe.

Portanto, precisamos fazer uma inversão.


Não paramos de aprender por causa da ignorância, aprendemos por causa dela.

Paramos de aprender quando achamos que já sabemos, quando registramos que já conhecemos.

Não há nada demais em aprender algo, deixar aquele conhecimento acomodado e partir para um aprendizado diferente.

Mas é bom saber que este processo também acontecerá com assuntos importantes para você e para aqueles que você ama, seja relacionado com saúde, com economia, religião, política, educação ou com qualquer outro.

Se uma pessoa lê ou ouve uma informação, uma notícia, e se convence, registra, que com aquela informação já sabe aquele assunto, a tendência é parar por ali mesmo.

A curiosidade sobre aquele assunto vai diminuir, a mente estará menos aberta para ele, podendo chegar ao ponto de ignorar tudo o mais que seja dito sobre ele, como no exemplo do aeroporto.

Por outro lado, se o registro de “já sei isso” não acontecer, se a pessoa mantiver a curiosidade sobre o assunto, se ela entender que ainda há muito a aprender, que ainda não conhece tudo e talvez nunca conheça tudo sobre certo assunto, então permanecerá aprendendo cada vez mais e mais.

Nunca aprendemos tudo, nunca sabemos tudo sobre nada nesta vida. Sempre ignoramos algo, sempre poderemos estar enganados e pode ser que tenhamos entendido errado.

É desta forma que a ignorância é uma benção e não um problema.

Ela só será um problema se não a identificamos.

E não identificamos a nossa própria ignorância quando achamos que já sabemos e que nossa interpretação é a melhor ou até a única possível e válida.

Aí, neste caso, deixa de ser ignorância e passa a ser algo bem pior.

Não saber é natural, não querer saber é uma prerrogativa que nos assiste, mas achar que já se sabe é uma ilusão.

Só há vantagens em se manter ciente de que ainda ignoramos algo, mesmo sobre aquele assunto em que nos tornamos especialistas.

Esta é uma estratégia que nos mantém curiosos e abertos ao aprendizado.
Há 20 anos ensino Língua Portuguesa, Redação e Literatura. Há 20 anos estudo sobre educação, ensino e a escrita, mas sei que ainda ignoro muitas coisas sobre estes assuntos, sei bem pouquinho, tenho muito que aprender sempre.

Há conhecimentos nestas áreas que ainda nem cheguei a tocar e sei que muitas das minhas certezas podem estar equivocadas.

Com relação a outras áreas de conhecimento, então, nem se fala, aí mesmo é que sou muito ignorante.

Esta postura pode trazer pelo menos duas vantagens.

A primeira é estar aberto ao novo, a aprender, seja com as crianças, com os colegas de profissão, com quem não é da área, com alunos, com especialistas, com acadêmicos.

A segunda vantagem é que não se corre o risco de ser arrogante ao ponto de querer impor a própria razão, a própria verdade sobre a dos outros, pois se sabe que sempre existe a chance de estar errado, de estar ignorando algo.

Posso emitir uma opinião, a minha interpretação, como estou fazendo neste texto, mas não como algo imutável e acima das demais opiniões.

Este texto não é uma verdade absoluta, é uma interpretação que fiz, a partir de reflexão, de acordo com minha experiência profissional, só isso.

Minha opinião não é emitida para convencer ninguém, pois posso estar errado, posso estar ignorando algo que você conheça melhor do que eu.

Mas tenho o direito, e gosto, de me expressar através da escrita.

E se o que eu escrevo provocar alguma reflexão sobre o assunto, se ajudar alguém positivamente, então estou satisfeito.

Porque meu objetivo não é convencer ou conscientizar, não gosto destas palavras.

Meu objetivo é apenas provocar reflexão e in-comodar, tirar do comodismo, a minha mente e a de quem mais quiser pensar.


domingo, 26 de maio de 2019

O PIOR É O MELHOR


O mundo sempre foi salvo pelos “piores” e destruído pelos “melhores”


Aqui nós propomos inversões e outras versões.

Se o mundo está de cabeça para baixo, como dizem, então talvez precise de uma inversão.

Não é que se vai inverter o mundo, mas o modo de olhar para ele, o modo de entender algumas coisas.

Também não significa uma opção, mas uma reflexão, cada um que decida por si mesmo, de acordo com sua própria vida.

Não se trata de conselhos, trata-se de provocar e incomodar a zona de conforto.

O comportamento de manada é o “normal”


É natural em nós, seres humanos, querermos pertencer a um grupo, fazer parte de algo maior do que nós, e alguns chamam esta tendência de comportamento de manada.

Temos a tendência de acompanhar a massa, de fazer o que grande número de pessoas faz, de obedecer a um fluxo, de repetir comportamentos.

Até recorremos a ideias como: “mas todo mundo faz!” ou “é assim porque todo mundo faz assim” ou “sempre foi assim” ou então simplesmente vamos seguindo, sem pensar direito no porquê, afinal todos estão indo e alguém já deve ter pensado no porquê.

Este comportamento é natural do ser humano e é natural em muitas outras espécies, como também é mecânico, nem sempre consciente.

O “normal” é a pior opção


Mas a nossa história mostra que nem sempre o consenso é a melhor opção, nem sempre a direção que um grande grupo toma é a mais adequada.

Geralmente o consenso de um grupo e o que se entende por “normal” é a pior opção.

O que era normal, lógico, consenso que todo um povo acompanhou quase destruiu a humanidade e causou a maior tragédia da nossa história: o nazismo, a ideia de uma raça pura, ariana.

O mundo sempre foi salvo pelos “piores” e destruído pelos “melhores”


Entenda-se por “piores” aqueles rejeitados, fora do normal, que a normalidade recusou e disse que não prestava.

E por “melhores” entenda-se os “normais”, aqueles obedientes que seguem a manada e fazem o que todo mundo faz.

A ovelha negra é a única capaz de se rebelar, enfrentar o lobo e salvar o rebanho, porque ela tem coragem, rebeldia, é questionadora, não obedece ao fluxo considerado “normal”.

As branquinhas morrerão gritando, comendo e defecando, seguindo o grupo, obedecendo a norma, porque acreditam que este é o destino delas, que é assim que elas têm que ser, sem questionar, afinal, todas as ovelhas sempre fizeram assim.

O menino expulso da escola por não ter condições de aprender nada, por não se enquadrar no modelo, por ser esquisito, estranho, fora da norma, é o maior gênio do século XX: Albert Einstein.

Não foi à toa que Bill Gates disse um dia que o nerd que você esculacha hoje na escola, um dia será seu patrão. Ele foi um menino nerd fora da norma.

Existem vários exemplos em que um homem sozinho, rejeitado, esquisito, ridicularizado, fazendo o que não era normal, o que parecia um desvario, algo ridículo, salvou povos inteiros e mudou a história.

Hoje eu e você chagamos em casa, à noite, e apertando um botão iluminamos a casa por causa de um destes loucos, que não era normal, que insistia em uma ideia absurda.

Ninguém normal poderia acreditar que um homem seria capaz de libertar o seu país do jugo do poderoso império britânico sem dar um único tiro, sem um único gesto de violência, apenas aquele homem fora do normal, esquisito, todo errado. E Gandhi conseguiu.

Ninguém normal aceitaria que um príncipe seria maior se deixasse seu império, seu castelo, suas riquezas, a proteção e o convívio da família. Isso não era uma atitude normal, era um disparate, uma insanidade, mas foi o que o esquisito e errado Buda fez, e tantos outros.

A benção de ser rejeitado


Ao escrever este texto lembrei do livro que li duas vezes na minha adolescência, um best-seller da época, quase todo adolescente daquela época o leu: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach.

O livro conta a história de uma gaivota que cismou que conseguiria e queria porque queria alcançar a velocidade de um falcão, 200 km/h.

Devida a sua natureza, diferente da do falcão, a gaivota só poderia alcançar esta velocidade no mergulho, então ela subia o mais alto que podia e se lançava de cabeça em direção ao solo.

Fernão acidentou-se muitas vezes, foi ridicularizado pelo seu bando, foi banido e exilado do grupo, era a vergonha dos seus pais, porque não aceitava fazer o que toda gaivota deveria fazer sempre: pescar para comer.

Sozinho e isolado, o que facilitou bastante, ele continuou treinado até que conseguiu, foi a única gaivota a alcançar a velocidade de um falcão, 200 km/h. Experimentou o que nenhuma outra jamais conheceu, porque não fez o que todo mundo fez.

Acho que é por isso que tenho medo da normalidade, do consenso de grandes grupos, do consenso de massa, da estabilidade, do caminho da manada. Mais cedo ou mais tarde este caminho vai dar no frigorífico.

Por isso que, em alguns casos, quanto mais gente (de um certo tipo) me disser que estou errado, mais feliz eu fico, porque mais certeza tenho de que estou no caminho certo.

Em alguns casos, quanto mais crítica e contrariedade, maior é o indicativo de que o caminho é mesmo aquele que você escolheu.

Porque o que é elogiado é o “normal”, o que se enquadra, o que se em-caixa, o que se deixa moldar.

E, neste caso, tudo o que é diferente é condenado e afastado, ainda bem.
Porque ser condenado e afastado, discriminado, classificado como pior, errado, absurdo é a melhor coisa que pode acontecer, a única forma de não cair no moedor de carne e fazer parte da mesma pasta.

No final das contas, os “piores” sempre acabam sendo a salvação da lavoura, da pátria, da manada, do bando, do bem.