sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O CÃO QUE TENTAVA MORDER O VENTO



Se não fosse para ser quem és e quem fostes, a vida não te teria criado, teria criado outra coisa, outro alguém no teu lugar.



Talvez, só talvez, uma das maiores causas do sofrimento esteja no desassossego de ter que ser, ou ter sido, outro alguém.

Pensando sobre minha vida, parece que vivi sempre na iminência de ser algo, sempre num porvir, num vir a ser.

Criança, “um ser em formação”, vive na iminência de tornar-se adolescente.

O adolescente, na expectativa de tornar-se jovem e o jovem, adulto.

O adulto, por sua vez, vive na expectativa de tornar-se casado, solteira, patrão, santo, profissional, livre, pai, respeitado, salva, reconhecida, valorizado, mãe, poderoso, rica, de sucesso, famoso, avó, aposentado, morto...

É um desassossego que só pode mesmo desaguar em patologias, principalmente porque tem um agravante.

Além da emergente expectativa própria, há o bombardeio das expectativas alheias, aí não tem quem suporte, mesmo.

Ao que me parece, não sei o que você pensa sobre isso, os pais criam expectativas em relação aos filhos, desde que nascem, para todo o sempre.

Os filhos criam expectativas em relação aos pais, mas, estes, pelo menos chega um momento em que desistem de alimentá-las e mantê-las, assim que descobrem que pai e mãe são nada mais que humanos falhos.

E desistem. 
Apontarão agora suas metralhadoras de expectativas para a cabeça das esposas, dos maridos e dos seus próprios filhos. Para sempre.

Ele cria expectativas em relação e ela e ela cria expectativas em relação a ele. Quando isso acontece, com o passar do tempo, as expectativas não se cumprem, é claro, pois é uma criação pessoal, e então o relacionamento vira um inferno.

Ou não.

Ou o outro corresponde às expectativas, o que é ainda pior, pois um criou e impôs sobre o outro o que ele deveria ser. E o outro, por sua vez, cumpriu o protocolo, seguiu o programa, representou seu papel, sua personagem.

Faça um exercício sincero comigo.

Pense nas expectativas próprias, aquelas que você criou em relação a você mesmo e à vida.

Agora pegue as expectativas que o mundo colocou e coloca sobre você.
Somou tudo?

Qual é o resultado?

O resultado é o inferno.

É desassossego, exasperação, ansiedade, um eterno vir a ser, vir a se tornar algo, sempre, como se nunca fosse.

Este interminável vir a ser é ilusão, é cão correndo atrás do próprio rabo.

Mas espera um pouco. Tem alguma coisa errada aí.

Os outros criam expectativas sobre mim e eu tenho que correr atrás para satisfazê-las?

Tem algo precisando de in-versão aqui.

Que se danem as expectativas.

Sim, mesmo as dos pais e cônjuges e filhos e seja lá de quem for.


Por quê?

Ora, porque quem cria as expectativas em relação a mim são os outros, isso ocorre dentro do outro, eu não tenho responsabilidade sobre isso, não diz respeito a mim, mas a eles mesmos. Este é um problema deles, não meu.

E aquelas expectativas que eu crio sobre mim mesmo é problema só meu, eu que dê um jeito nelas, sem envolver mais ninguém.

E penso.

Por que a vida nos faria humanos se fosse para sermos santos, deuses, demônios ou qualquer outra coisa que não seja unicamente humanos?

Por que a natureza faria uma laranjeira que vivesse querendo ser um abacateiro?

Por que uma onça quereria ser um macaco?

Por que um leopardo quereria ser um homem?

Na natureza há metamorfoses, mas não há sofrimento de algo por querer ser outra coisa. As transformações podem acontecer, mas podem não acontecer, e tudo bem.

Não me parece saudável viver nesta constante consumição, neste constante vazio de ser, sempre esperando se tornar.

O que equivale a viver sem identidade, sem ser sujeito.

E, pior, depois, mais tarde, olhar para trás e se maltratar por não ter sido.
Por não ter sido o pai, a mãe, o filho, a esposa, o profissional, o amigo, o irmão ou seja lá que diabo esperassem que eu fosse.

Já olhei para trás e a dor me consumia, porque fiz alguém sofrer, decepcionei, não dei conta, não fui o que esperavam que eu fosse.

E além de carregar esta dor dentro, há que se conviver com ela nos olhos, nas palavras e na vida dos envolvidos.

E acabei por sentir culpa por ter sido.

Isto é de uma crueldade incalculável, que ninguém deveria impor a si mesmo nem aos outros.

Para quem acredita, conhece, já estudou alguma filosofia ou espiritualidade sabe que um dos princípios dos infernos é esta insaciedade, esta consumição de ter que, de querer que, de esperar que, da iminência que nunca se satisfaz e que nunca acaba e nunca se cumpre.

Ao que me parece, alguém que viva deste jeito só pode mesmo mergulhar na ansiedade, pelo incessante porvir, ou na depressão, no niilismo, no vazio, pelo porvir que não se cumpriu.

Por que não basta ser quem é, do jeito que é?

E se não basta ser quem é, do jeitinho que é, em que espécie de coisa nos tornamos?

Porque se não fosse para ser quem é, teria sido diferente.

Se fosse para ser de qualquer outro jeito, não seria quem é, a vida teria tratado de fazer diferente.

E, ao olhar para o passado, tento me livrar do pesar e da culpa por não ter sido o que esperavam que eu fosse nem o que eu mesmo esperava que eu fosse.

Fui exatamente quem deveria e quem podia ser. Mesmo que eu mesmo não goste disso, não importa o meu gostar. Foi o que foi. É o que é.

E, agora, a única coisa que devo ser, que me interessa ser, é o que fui criado pra ser: humano. Com tudo o que implica ser humano. Com as falhas, as limitações, os erros, os acertos, as incertezas e inseguranças, as forças e belezas.

Sim, as belezas, porque é neste caos humano, nas incongruências, nos paradoxos, nas contradições que reside a grande beleza da criação. Já que não creio que ela seja um erro ou tenha se dado por engano.

Mas a metamorfose, sempre.

E as expectativas?

Fodam-se as expectativas.



sábado, 10 de agosto de 2019

POR QUE NÃO? SE VAMOS TODOS MORRER MESMO.


A perspectiva da morte que valoriza a vida



É provável que tenhamos criado um tabu sobre a morte e tenha sido justamente isto que desvalorizou a vida.

Lá nas cavernas, com tantos perigos e predadores, com a morte nos rondando, nos espreitando e ameaçando o tempo todo, lutávamos pela vida incansavelmente. Aliás, era só o que fazíamos.

As coisas mudaram. Com o passar do tempo e com a evolução, os perigos e ameaças diminuíram e nossa expectativa de vida aumentou consideravelmente.

A sensação de segurança aumentou. Vieram os confortos e os prazeres e resolvemos que melhor seria esquecer que somos mortais e que nosso fim é nossa única certeza.

Mas é aqui que pode estar o erro


Já aconteceu com você ou com alguém que você conhece de achar que a vida não tem mais sentido e que não há prazer algum nela?

Já ouviu falar de pessoas que perdem a vontade de viver?

Conhece alguém que tem uma vida completamente sem graça, mecânica, cinza, previsível, sem aventura nem paixão, uma vida sem tesão?

Já ouviu falar de pessoas que diante de uma doença terminal passaram a valorizar cada minuto e cada acontecimento da sua vida?

Já ouviu dizer que existe alguém que tem muita dificuldade de se manter vivo ou de se movimentar, mas luta pela vida com bravura e a saboreia com alegria?

Já ouviu falar de alguém que vivia reclamando da vida, que dizia que não queria mais viver e que sob ameaça de morte implorou para viver mais?

Pois é, parece que a perspectiva da morte é que valoriza a vida.


Mas cismamos em viver como se nunca fôssemos morrer, como se nossa estadia aqui fosse eterna, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Mas a verdade é que não temos todo tempo do mundo.

Aliás, temos bem pouco tempo do tempo do mundo.

Se fosse para esquecermos a morte e viver como se nunca fôssemos morrer, então porque nasceríamos com esta única certeza na vida, a de que vamos morrer?

A morte é uma certeza, a vida não.

Então porque desperdiçar a preciosa vida com tanta besteira?

Parece que fomos feitos para funcionar como a lei de oferta e da procura, quanto mais produto disponível, menor o valor, a raridade é o que valoriza.

Então resolvemos esquecer que a vida é coisa rara, a morte é que é certa e sorrateira, pode chegar a qualquer momento, sem avisar.

E assim, convencidos falsamente de que ela nunca acabará, desvalorizamos a vida.

Não moramos mais em cavernas, não temos mais os mesmos predadores nem a mesma vulnerabilidade, mas temos outras tantas.

Não são poucos os relatos de pessoas que tiveram uma vida dedicada ao trabalho, ao dinheiro, foram rabugentas, plantaram discórdia, lutaram com mil fantasmas, cultivaram sofrimentos e preocupações e diante de um diagnóstico fatal, que lhe deu pouco tempo de vida, passaram a valorizar cada minuto, cada oportunidade e cada pessoa diante de si.

Libertaram-se de rótulos, abriram a mente, despreocuparam, deixaram de se importar com a opinião dos outros, com ninharias e mesquinharias.

Deixaram de brigar para defender sua razão, para vencer discussões ou por outras pequenezas deste tipo.

Pararam de sentir pena de si mesmas, de se sentirem ofendidas com tudo, de valorizar demasiadamente o que não tem valor.

Focaram no que interessa, amar e viver, porque a morte bate à porta.

Então por que não? Se a gente vai morrer mesmo.

Por que não rir de si mesmo, não rir das próprias gafes e tolices?

Por que não fazer aquela viagem, não realizar aquele sonho antes que seja tarde?

Por que não dizer eu te amo, me perdoa, eu estava errado ou errada?

Por que não aceitar alguém e se aceitar também?

Por que não perdoar e se perdoar?

Por que não dizer fica comigo, eu te quero e te desejo, o amanhã pode não vir, amor?

Por que não fazer o que “dá na telha”, se vamos morrer mesmo, a qualquer momento?

Por que não mudar tudo, mandar às favas o que machuca e murcha nossa vida?

Não temos a vida toda pela frente coisa nenhuma.

Quem disse isso quer apenas que andes nos trilhos, justamente onde o trem te esmagará.

Quem garante que vida toda é essa que se tem pela frente?

Só há probabilidade, porque pela frente, de certo mesmo, temos a morte.

Então viva rápido, intensa e levemente, como se fosse morrer amanhã. 

Porque você vai mesmo, só não sabe qual amanhã será, mas será.

E é assim que somos, assim nos constituímos, seres com certeza da morte, que desperdiçam a vida.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

CUIDADO COM A IDEIA DE MERECIMENTO



Por que esta é uma ideia estapafúrdia? 




Você já ouviu falar na lei da física ou em uma lei da natureza chamada lei do merecimento?

Não, né? 

Eu não sei muita coisa de física e de leis, mas nunca ouvi falar e aposto que ela não existe.

Digo isto porque na natureza as coisas parecem não funcionar por meio de merecimento.

Se fosse assim o sol não brilharia para bons e maus.

A chuva não cairia sobre a terra de justos e injustos.

O ar não encheria os pulmões dos tiranos.

O dia não chegaria para os assassinos, que viveriam somente na escuridão.

Somente os merecedores receberiam as dádivas da mãe natureza e o dom da vida contemplaria apenas aqueles com créditos acumulados no banco dos merecimentos.

Se as coisas funcionassem com base em merecimento, não precisaríamos fazer nada, apenas ser bonzinhos, obedientes e merecer.

Mas não é assim que as coisas funcionam, não é uma questão de justiça nem de merecimento.

Merecimento não é uma lei, é apenas um instrumento de dominação próprio da família, da escola e da religião, mas que o mercado e o trabalho também utilizam para fazer obedecer e produzir mais.

Uma pessoa pode dificultar a sua vida por estar convencida de que não merecer coisas boas por ter cometido erros.

Outras se decepcionam e se frustram porque entendem que merecem, mas as coisas que desejam não vêm.

De nada adianta merecer viver se você não nadar quando cair no rio. 
Vai morrer como morreria qualquer outro.

E então não se poderá dizer que aconteceu porque não merecia. Não. Aconteceu porque não nadou.

Do contrário, alguém que pode estar na conta dos que não merecem viver, viverá se cair no rio e nadar.

Porque se salvar do afogamento é a consequência do ato de nadar.

A questão não é, portanto, de merecer ou não merecer algo, mas de conhecer as leis universais e agir de acordo para alcançar o que se deseja.

Alguém pode simplesmente viver de qualquer jeito, ir levando a vida, sem se questionar, sem saber direito o que está fazendo ou achando que sabe.

Poderá passar a vida inteira frustrada, infeliz, não conseguindo alcançar o que quer por não ter consciência de como são as regras do jogo e como funcionam as leis do Universo.

Por exemplo, nadar e não se afogar é ação e consequência. Jogar algo para cima e ele cair é ação e consequência em virtude de outra lei, a lei da gravidade.

Uma laranjeira não vai dar frutos ou deixar de dar em virtude do merecimento de quem a plantou, mas como consequência das condições em que ela vive.

Alguém não consegue emprego ou recebe uma promoção em virtude do merecimento, mas como consequência da sua competência, do trabalho que realiza, do quanto estudou, de como agiu, das suas atitudes.

Na família, na religião e na escola é importante fazer crer que as pessoas recebem coisas se merecerem e se não merecerem não receberão.

É assim com os presentes, com o carinho, com a atenção, com a simpatia, com a amizade, com as notas, com a salvação e o céu.

E funciona assim porque as pessoas têm necessidades, têm medos, são ambiciosas e querem as coisas, então realizam o que lhe é ordenado para receberem aquilo que desejam, ou para se livrarem da culpa e do medo.

É assim que a ideia de merecimento funciona como mecanismo de controle e dominação.

Por isso se deve ter muito cuidado com este conceito, com a ideia de merecimento.

Porque de tanto viver sob este jugo, a pessoa internaliza este valor e depois pauta a sua vida pelo que merece ou pelo que não merece, de acordo com os critérios que lhe foram passados na família, na escola e na religião.

Esta é uma das raízes da autossabotagem, no fundo a pessoa sabota aqueles projetos que ela, quase inconscientemente, acha que não merece.

Sabota o emprego, o relacionamento, a promoção, o empreendimento, as finanças e a própria vida, porque no fundo da sua psique está registrado que ela não merece ser feliz.

Talvez porque tenha abandonado alguém, feito um aborto, mentido, enganado, traído, matado, roubado, frustrado alguém?

O fato é, e você que resistiu até aqui e continua lendo sabe, que se alguém fizer o que tem que ser feito, do jeito que deve ser feito, o que deseja virá, mesmo tendo cometido erros, pois será consequência lógica das ações.

Porque é uma questão de lei, ação e consequência, ação e reação, lei do retorno, lei da entropia, nada de merecimento.

O conceito de merecimento vem acompanhado da ideia de que se alguém merece, então outro alguém lhe deve algo. O que é outra ideia estapafúrdia, que leva a enganos e desastres horríveis.

Uma pessoa que se julga merecedora entende que a vida lhe deve o melhor, mesmo que ela sequer saiba o que tem que fazer ou como tem que agir para alcançar aquele status que acha que merece.

Pensar em termos de merecimento é também considerar que em algum lugar alguém anota seus atos, seus pensamentos, suas intenções e faz um balanço do que você merece e do que não merece.

Tenho uma notícia para as pessoas que pensam assim: não existe ninguém anotando o que você faz para depois estabelecer o que você merece.

Lá na infância havia, sim, seus pais, eles prometiam que, se você merecesse, te dariam coisas, então tinham que computar seus pontos positivos e os negativos. Alguns colocavam a culpa no Papai Noel.

Mais tarde vieram os professores e os tutores espirituais, estes te disseram que em algum lugar celestial ou diabólico havia alguém que fazia este serviço.

Mas agora você cresceu, não há ninguém em lugar nenhum computando seus merecimentos.

O que há são leis, você faz algo e uma consequência ocorrerá de acordo com a ação inicial.

Quer dinheiro? 

Ora, trabalhe, ganhe, não gaste e como consequência lógica você terá estes cobiçados papeizinhos.

Quer liberdade? 

Então não faça nada que te prenda, que restrinja a sua liberdade.

E assim por diante.

O que não dá é alguém querer dinheiro, mas gastar mais do que ganha, querer liberdade e assumir compromissos aprisionadores, ou cometer um crime, ser condenado e ir para a prisão. E depois achar que não merecia ser feliz, ter dinheiro e liberdade.

Acho que é mais ou menos por aí que as coisas andam.

A gente acredita nos contos de fada da infância e às vezes os carrega por toda uma vida, arrastando seus dogmas como bolas de chumbo pendurados por correntes ao tornozelo do nosso entendimento.

Liberte-se.






terça-feira, 16 de julho de 2019

FOI SÓ DA BOCA PRA FORA!



Conhece esta expressão? Ela te convence? Você já usou?


 Esta expressão é usada geralmente em situação de discussão, colocada da seguinte forma.

Duas pessoas estão discutindo um assunto, a discussão fica um pouco acalorada, e uma diz para a outra:

mas tu sempre foi um banana!”

Diante da reação da outra, do clima que se instala, do que a frase provoca no ambiente, a pessoa então tenta amenizar declarando que disse aquilo “só da boca pra fora”. Como quem diz que não quis dizer aquilo, que não é sério, que ela não pensa assim, que o outro não deve dar importância...

Mas é claro que foi da boca pra fora, como alguém te diria algo falando da boca pra dentro?

E não, isto não significa que a pessoa não pensou, que falou por falar, que foram só palavras da boca pra fora, que não têm importância, que a pessoa não pensa assim.

Esto no existe!


Não existe palavra que sai sozinha, sem nenhum correspondente interno, sem pensamento, sentimento, vontade, emoções, intenções, algo sempre há.

Palavras não brotam do nada, do vazio, quando alguém diz algo para outro alguém sempre há um fundamento.

Por exemplo, em psicologia, o ato falho.

Pode ser que a pessoa nem se deu conta de que disse algo, não lembra das palavras que pronunciou, mas em psicologia aquelas palavras ditas estão dizendo algo da psique daquela pessoa.

Portanto, quando alguém diz “ah, foi só da boca pra fora”, ela está escondendo o que tem por traz daquelas palavras, o que as motivou, porque disse o que disse.

É provável que sempre tenha achado o outro um banana, embora nunca tenha dito, mas naquele momento acalorado as palavras saíram e para não magoar mais, para não piorar a situação, para não ter que assumir que sempre achou o outro um banana, ou sabe-se lá por qual motivo, recorre a este subterfúgio.

É evidente que este é um direito da pessoa, não querer explicar porque disse algo, não querer demonstrar o sentimento ou o pensamento que a levou dizer aquilo.  

Embora melhor seria, talvez, então, não dizer.

O fato é que quem diz e depois tenta contornar com o argumento furado de que “foi só da boca pra fora” tem seus motivos.

E quem ouve pode fazer uma escolha, que pode não ser muito fácil.

Pode deixar-se convencer, crendo que realmente foi só da boca pra fora. Ou assumir que o que foi dito é exatamente o que foi dito, lidando de forma madura com as consequências desta tomada de consciência.

As decisões, neste caso, permeiam a verdade, a autenticidade, a maturidade, a mentira e o engano, a falsidade e o autoengano.

São escolhas, apenas escolhas.

Mas como profissional da linguagem posso afirmar que esta expressão é um tanto sem pé nem cabeça.

Por um lado, ela é óbvia, pois se diz algo para alguém da boca pra fora e não da boca pra dentro.

Por outro lado, ela é ridícula, pois tenta fazer retornar ou anular as palavras que já foram ditas por um e ouvidas por outro.

E dizem que são três as coisas nesta vida que jamais voltam:
a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.

E neste caso a pessoa perdeu a oportunidade de ficar calada e assim não ter que fazer retornar a palavra dita.

Disse, falou, a palavra saiu, não tem mais volta.

Ouviu, a palavra, ela entrou no ouvido e na mente, não tem mais volta.

Esta é uma das belezas da linguagem. É encantador lidar com algo tão volátil, tão poderoso, tão fugidio e concreto ao mesmo tempo.

Algo que é nosso, que está sob o nosso domínio e controle, mas também não está e é do outro ao mesmo tempo. E marca e fere e também cura e suaviza.

Ao passo que a linguagem revela também oculta e disfarça e diz e esconde numa espécie de jogo, brincadeira, luta e dança, de sons e ideias e sentimentos e sensações.

Que outro material assim tão genial temos nas mãos, ou melhor, na boca?


Então não seria inteligente aprender a cuidar bem dela, da linguagem, a dizer bem dito, a pesar bem antes de falar e de calar?

Refrear-se internamente antes de dizer o indevido, refrear a língua e dizer quando precisa ser dito é bastante difícil, requer sabedoria, leva uma vida para aprender e geralmente uma vida é insuficiente, mas é lindo.





quinta-feira, 11 de julho de 2019

QUEM TEM BOCA VAI PARA ONDE QUISER



Olha só o que me aconteceu esta semana na fila da lotérica.


Isto me fez pensar sobre o quanto a gente deixa de conseguir as coisas porque não se mexe, porque não fala, não diz o que quer ou o que não quer.

Aliás, a gente até diz, mas diz no modo fofoca, reclamação, comentário, aí não muda nada mesmo, não funciona.

Quer ver só?


Eu cheguei em uma agência lotérica da Caixa, que abriu há poucos dias aqui na minha cidade, e havia uma fila enorme, uma só, então entrei naquela fila.

Lá na frente, um guichê preferencial para idosos, gestantes e pessoas com necessidades especiais, outro guichê preferencial para jogos e mais um ou dois guichês funcionando para serviços e público em geral.

Eu poderia ter ido no guichê preferencial para jogos, mas preferi ficar na fila  única, junto com todos.

Então chegou um homem, que não entrou na fila, ficou de lado, e assim que vagou um guichê, de atendimento geral, ele foi até lá e foi atendido.

Assim que ele terminou de ser atendido, eu saí lá de traz da fila, me dirigi até aquele guichê e perguntei porque aquele homem foi atendido sem entrar na fila, passando na frente de todos.

A moça me respondeu que ele queria fazer apenas jogos e como o guichê preferencial para jogos estava ocupado, atendendo outro serviço, ela o atendeu ali mesmo.

Eu disse a ela que também queria fazer somente alguns jogos e que então também queria ser atendido. E ela me atendeu.

Enquanto isso eu pude ouvir as reclamações do pessoal da fila.

Ela terminou de me atender, eu saí, olhei para a fila, estavam todos com cara amarrada, reclamando, falando uns com os outros, parecia que iriam me surrar.

Mas nenhum deles saiu da fila para ver o que estava acontecendo, para perguntar o que houve, para saber qual motivo de termos sido atendido na frente deles ou para reclamar com quem poderia fazer algo. Apenas resmungaram.

Provavelmente todas aquelas pessoas permaneceram aguardando na fila até serem atendidos e nenhum deles se arriscou a reclamar, questionar, organizar a fila, começar outras filas de acordo com as preferências e serviços. Ninguém se mexeu.

E não é bem assim que tem acontecido?

As pessoas se juntam em grupos, físicos ou virtuais, e ficam reclamando das coisas erradas, da má sorte, das dificuldades, do destino e do diabo a quatro.

Mas são poucas que levantam e vão fazer alguma coisa de fato para mudar.

Estes grupos onde se fala e se reclama de tudo serve de catarse, ali se dissipa a indignação, o ímpeto, a coragem, a inciativa e fica por isso mesmo, não precisa mais ter ação de fato, todos ficam aliviados ou envenenados com sentimentos  negativos.

Funciona como uma droga.

Por isso que quem tem boca, sabe usar as palavras e usa, quem levanta e diz o que quer, onde dói, o que não quer, o que incomoda, o que deseja, este vai a Roma e onde mais quiser.

Não se trata de usar a linguagem para ficar reclamando, mas para dizer o que deve ser dito, do jeito certo, no momento certo, para as pessoas certas.

O que deve ser dito é a verdade;

o jeito certo é com educação, mas com atitude;

o momento certo é aquele que você sente que é;

as pessoas certas são as implicadas na situação, as pessoas envolvidas, que podem participar e realizar mudança.

Se você tem um problema com a esposa ou com o esposo, este problema não será resolvido ao você falar dele para um amigo ou uma amiga que nada tenha a ver com a situação e nada poderá fazer.

É preciso dizer para as pessoas o que queremos ou não queremos, elas não são advinhas e ninguém tem a obrigação de saber e providenciar o que nos faz bem, o que queremos.

Essa é uma tarefa de cada um para consigo mesmo.

Quem tem boca vai a Roma coisa nenhuma, vai muito mais longe.

A linguagem é um tesouro que, se soubermos usar, pode nos levar por todos os caminhos que sonhamos trilhar.

Mas se utilizamos da forma errada, pode nos prejudicar e prejudicar os outros.

Quem fica cacarejando e ciscando no terreiro é galinha, águias tomam impulso, abrem as asas, levantam e voam bem alto, acima das montanhas e das nuvens.

Somos águias, não galinhas.

Ficar reclamando do que quer que seja não resolve a situação, aliás, complica mais ainda.

Esta é a pior maneira de usar a linguagem, a boca, a laringe, o verbo. É um desperdício de poder, de força e de oportunidade.

Abra a boca e diga e fale, levante e faça e aja. Isso é orar com fé.

Orar com fé não é olhar para o céu, pedir e esperar que as coisas se façam por milagre, que algum deus mande pronto o que você quer.

O milagre é fazer acontecer.

Você já é o milagre pronto.

Está esperando o quê?