quarta-feira, 11 de setembro de 2019

GIRASSÓIS NA JANELA



Uma história sobre maturidade



A casa era de madeira, no meio de um extenso e verde gramado. O mês era setembro.

Ao abrir a janela do seu quarto, que ficava virada para o leste, Gabriel se deparou com um girassol em flor, com uma única flor.

O girassol


E assim foi pelos próximos dias, sempre que abria a janela pela manhã o girassol estava de costas para ele e de frente para o sol.

A partir do meio dia, o sol caminhava para oeste e o girassol ia junto. Acompanhando o sol, o girassol virava de frente para a janela de Gabriel.
Todo dia era assim, menos quando o céu estava nublado, aí o girassol ficava na dele, não se abria muito, como se estivesse introspectivo.

À noite, o girassol dormia, descansava do seu trabalho diário de andar atrás do sol, mas na manhã seguinte lá estava ele novamente, virado para o nascer do sol, e à medida que o sol brilhava e aquecia o girassol se abria mais.

Mas chegou um dia em que o girassol não acordou pela manhã, não quis ver o sol, não se abriu, cumpriu seu ciclo, morreu, deixando dezenas de sementes.

Gabriel

Assim era ele, pensador, pensativo, algumas pessoas diziam que era por isso que Gabriel parecia triste.

Não teve uma vida fácil e por muito tempo até se considerou uma pessoa infeliz e, às vezes, um fracassado.

Mas nos últimos anos vinha sentindo uma mudança interior que não sabia explicar direito.

Ao observar o comportamento do girassol naqueles dias, Gabriel ficou a pensar e a refletir sobre a sua própria vida.

Percebeu que de uns tempos pra cá não tinha mais tanta necessidade de falar, de expressar seu pensamento e suas opiniões. Apenas queria experimentar a vida, não queria convencer ninguém de nada, só queria desfrutar do seu caminho, mais ou menos como aquele girassol.

Gabriel notou que fazia tempo que passou a andar mais devagar, com mais calma, não tinha mais porque correr, perdeu a pressa.

Surpreendeu-se com o equilíbrio que seu humor vinha apresentando e com a falta de interesse em julgar os outros, em conceituar, rotular e explicar tudo o que via.

Gabriel havia se tornado mais atento e delicado em seus movimentos e no trato com as pessoas, preferindo sempre o calor e a luz da serenidade e do equilíbrio.

Deixou de se preocupar com a idade, com os erros, com reconhecimento, com frustrações e contrariedades, com incertezas e com a opinião alheia. Até se pegou rindo de si mesmo, do próprio ridículo.

Foi assim que Gabriel percebeu que estava amadurecendo, mas que usava mais bengalas na juventude do que depois de velho. Quando era jovem usava bengalas para a alma e para as emoções, procurou drogas, cigarro, bebidas, paixões, terapias e religiões.

Mas agora parecia que corpo e alma percorriam caminhos contrários. Quanto mais o corpo se aproximava da morte, mais viva a alma se tornava. E quanto mais jovem e vigoroso era seu corpo, menos vida parecia haver na alma, que era mais instável, insatisfeita, ranzinza e rabugenta.


Ao sentir seu corpo envelhecendo, sentia também o sol da juventude a encher-lhe a alma. E seguia docemente a sua trajetória, sem sobressaltos nem desesperos.

Ora olhando para o leste, ora se virando para oeste, Gabriel seguia o sol e aproveitava a sua luz para apreciar as belezas naturais, como um girassol na janela.

Ao cair da noite, ou nos dias de chuva, Gabriel gostava de sossegar e ler, ficar confortável e pensar, levemente introspectivo, mas sem aquela tristeza dilacerante da juventude.

Nos dias de ventos fortes, Gabriel desfrutava sem reclamar, sentia os odores que o vento carregava e a carícia que ele lhe fazia. Apesar da idade, Gabriel tonara-se mais maleável, deixando para traz a rigidez da juventude. Aprendeu a dançar com a vida, como o girassol no vento, com graça e harmonia.

Gabriel percebeu que, como o girassol ao morrer, deixaria sementes, esperança e possibilidade de vida nova.

Sabia que não acontecia assim com todas as pessoas, então entendeu que tivera uma boa vida, porque aprendeu, e não foi em vão o tempo que passou sob o sol.

Não desejava partir e não recusava a partida, alcançou uma calma e uma serenidade próprias daqueles que sabem que não precisam, não querem nem podem controlar.

Entendeu, por fim, que a vida não é para ser forçada, rotulada, controlada e que seu verdadeiro sentido é só ela mesma, está em si mesma, naquilo que é, do jeito que é.

Entendeu que poderia ter poupado muito esforço e sofrimento e que poderia ter desfrutado da vida de forma mais leve, mas afinal, foi o que foi e exatamente o que tinha que ser.

Como aquele girassol na sua janela, oferecendo-lhe um espetáculo diário, por um tempo determinado, exatamente como tinha que ser.



terça-feira, 3 de setembro de 2019

O PREGADOR


Ele tinha o direito de dizer tudo o que queria, e dizia.


 Havia um homem que pautava a sua vida pelo princípio da liberdade, da autenticidade e da permissão.


Sim, ele se permitia, acha importante se permitir dizer com autenticidade e sinceridade tudo o que desejava dizer e até o que não desejava, mas que lhe vinha à cabeça, ou melhor, que lhe vinha à boca, nem sempre à cabeça.

Vamos dar um nome fictício a este homem em respeito ao seu direito de anonimato, vamos chamá-lo de senhor Prolixo.

O senhor Prolixo orgulhava-se de falar a verdade na cara das pessoas, fosse quem fosse, ele não mentia, não disfarçava, era sincero.

Ele entendia que guardar coisas e deixar de dizer algo poderia lhe fazer mal e ainda tirava a autenticidade das relações.

Quando alguém achava ruim e reclamava com ele, não entendia como as pessoas não gostavam que ele fosse sincero. Ele não falava pelas costas e não levava desaforo para casa.

Com o passar do tempo Prolixo percebeu que algumas pessoas começaram a se afastar dele, começou a perder amigos, a perder namoradas, a perder empregos, a afastar parentes, a ver pessoas feridas, machucadas e até chorando e tristes por causa das suas palavras.

Quando se deu conta, Prolixo estava vivendo sozinho, estava isolado, não tinha mais amigos nem ninguém que conseguisse conviver com ele, pois sabiam que em algum momento ele os feriria com suas palavras.

O Senhor Prolixo pensava: “que gente chata, que gente molenga e sensível, não se pode dizer nada, se ofendem com tudo”.

Mas um dia ele cansou de viver sozinho e de machucar as pessoas. Tentou se controlar, mas não conseguia, acabava dizendo. Depois pedia desculpas e muitos o desculpavam com sinceridade, mas ainda assim não conseguia mais reaver a amizade, ou o amor, da mesma forma. E acabava ofendendo novamente.

Então foi falar com seu avô, um velho carpinteiro, porque com seu pai ele não podia mais falar, havia ferido e magoado o pai muitas vezes.

Naquela época, as pessoas mais velhas, mais experientes, que já tinham vivido bastante, como o pai e o avô, serviam como o coach de hoje em dia. Quando alguém estava com uma dúvida, com algum problema, precisando de um rumo, se aconselhava com alguém mais velho, com vivência, com experiência de vida.

Então o velho vovô carpinteiro ouviu o neto, suas histórias, suas queixas e explicações e o levou até uma parede de madeira que ele mesmo havia construído.

Mostrou a parede de madeira nova ao neto, entregou-lhe um maço de pregos e um martelo e mandou que ele pregasse pregos por toda aquela parede, de cima abaixo, um ao lado do outro, por toda a extensão.

E o velho saiu, deixando Prolixo sozinho, pregando pregos.

Depois de um tempo, Prolixo terminou de pregar e avisou seu avô, que o acompanhou até a parede. Enquanto os dois Olhavam para ela, o velho perguntou o que ele via, e ele respondeu que a parede estava cheia de pregos.

Então o velho ordenou que ele arrancasse todos os pregos, e saiu.
Prolixo já estava irritado, quase dizendo umas verdades ao seu avô, mas também estava muito curioso para saber onde ia dar aquilo tudo. 

Então arrancou todos os pregos e chamou o seu avô novamente, que lhe perguntou:

- o que você está vendo?

 E o neto respondeu, irritado:

- Estou vendo uma parede cheia de furos, ora!

E então o velho carpinteiro explicou ao neto, que assim como aconteceu com os pregos, algo parecido acontecia com as palavras. Quando você diz algo que machuca alguém você crava um prego no relacionamento, na emoção, na sensibilidade, na alma daquela pessoa.

Quando você pede desculpas você arranca os pregos, mas as marcas, os furos, nem sempre podem ser apagados. A parede jamais será a mesma, não é mais possível ignorar aquelas marcas.

Você tem toda a liberdade de pregar os pregos que desejar, da forma que quiser, mas tenha a consciência de que, mesmo arrancando os pregos, ficarão furos na parede.

Você tem liberdade de dizer o que quiser, mas mesmo que peça desculpas depois e seja perdoado, os furos dos pregos ficarão. A palavra dita jamais retorna e a marca que elas deixam nem sempre podem ser ignoradas ou apagadas.

Por isso, se queres resultados diferentes, então precisas fazer diferente. É melhor ter mais cuidado com as palavras, com a forma de dizer, para quem diz e em quais circunstâncias.

A solução para uma pessoa não adoecer com o aquilo que guarda não está em colocar para fora, jogando o seu lixo na sala do vizinho. Está no tipo de coisa que produz. Por exemplo, o que produz coisas amargas é a amargura. O que produz coisas doces é a doçura. A escolha do que você vai produzir é sua e não dos outros.

Não é sua a tarefa de julgar a sensibilidade dos outros ou exigir que não se ofendam com o que você diz. Também não é verdade que usar palavras amenas é enganar ou mentir. É possível dizer a verdade de diferentes formas e até a mais dura verdade pode ser dita de forma gentil.

A sua forma de dizer, grosseira e rude, não é uma virtude, se fosse não machucaria tanta gente. A sua forma de dizer é o sinal de que algo não está bem no seu interior. Pode ser a expressão da sua amargura, da sua insatisfação, da sua revolta ou, talvez, da sua insegurança.

Depois de ouvir as palavras do seu avô e de passar por esta experiência, Prolixo nunca mais foi o mesmo, mudou completamente a sua maneira de ver as relações, o valor das palavras e de falar com as pessoas.

A sua vida mudou, ele entendeu o grande poder que as palavras tinham na sua vida e na vida dos que o rodeavam.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

NÃO TENHO TEMPO



Na era da falta de tempo, terceiriza-se até as decisões e o pensar.


Se não dá tempo, então paga alguém pra fazer, não é assim?

Mas tem gente terceirizando tudo e a principal desculpa é a falta de tempo. 
Que é a desculpa mais usada e também a mais esfarrapada de todas.

Existe falta de interesse, falta de organização, de vontade, de foco, de prioridade, mas não falta de tempo.

O tempo continua o mesmo, do mesmo jeitinho e com os mesmos mistérios. O homem é que quer colocar dentro de um certo espaço de tempo mais do que cabe nele.

É insanidade querer colocar um trem com dezenas de vagões na sala de casa sem estragar nada. Algo certamente vai dar errado. Mas ainda assim esta atitude é uma decisão pessoal, não é algo imposto a alguém nem impossível de ser alterado.

E com esta graciosa falácia da falta de tempo se tem terceirizado tudo: a limpeza, a manutenção, a cozinha, a arrumação, a educação e a criação dos filhos...

Terceiriza-se a saúde mental e emocional, a alegria e o ânimo, porque não se tem mais tempo para cuidar destas coisas. Além disso, existem pessoas e substâncias destinadas a esta tarefa.  

Terceiriza-se a saúde espiritual e física, porque também não se tem tempo para isso e existem pessoas especializadas nestas áreas. Há quem ensine a comer, a se mexer e até a respirar da forma “correta” e há aqueles que cuidam da espiritualidade dos outros.

Terceirizam-se as decisões, o planejamento da vida, da carreira, do matrimônio e até os pensamentos, porque não se tem mais tempo de pensar e já há quem pense pelos outros, quem reflita sobre o casamento dos outros, quem estabeleça as prioridades dos outros, quem use a mente pelos outros.

Então terceiriza-se a própria vida, porque não se tem tempo de viver nem de pesar a própria vida.

Maravilhosa é a falta de tempo, que serve de máscara ao medo, à incompetência, à preguiça, ao desinteresse, à desorganização.

Não se fez a visita, não se procurou a pessoa, não se fez o que prometeu por pura falta de tempo.

Terceirizou-se a sinceridade, a hombridade, o caráter e a verdade para a falta de tempo.

O sono pode ser terceirizado, deixado a cargo do Diazepan; a atenção e concentração podem ficar a cargo da Ritalina; a calma, o equilíbrio e a alegria, dos pais e dos filhos, quem sabe se entrega ao Prozac ou a outra substância qualquer. Para cada área que se deixa de cuidar surge um substituto a quem se pode terceirizar.

Algumas destas lacunas que foram criadas deram lugar a novas profissões para preenchê-las.

Quer muito, mas não tem tempo. Embora encontre tempo para todo o resto e o dia continua tendo 24 horas e a semana 7 dias. Exatamente como era há 50 anos.

O que mudou, então?

Talvez o homem esteja se tornando mercadoria, coisa, máquina, aparelho, eletrodoméstico, visto que está tendo que terceirizar as tarefas humanas.

Por outro lado, as tarefas humanas são cada vez mais exercidas por máquinas ou por profissionais, e a humanidade se robotiza.  

Parece que as pessoas estão perdendo a capacidade de exercerem as mais elementares atribuições humanas e de cuidarem da própria vida e da família.

Nem mesmo a decisão de comprar é mais exercida com humanidade e liberdade, é implantada, é enxertada.

Até as necessidades são terceirizadas, são criadas por outros ou estabelecidas por algoritmos. Aparece no meu feed, por exemplo, o que o algoritmo decide que é importante para mim, seja publicidade ou não.


Além dos softwares que leem, analisam e dirigem as escolhas das pessoas, além dos químicos que fazem aquilo que não se tem tempo de desenvolver, paga-se o coach pessoal, o coach profissional, o coach de relacionamentos, o mentor, o analista, o personal trainer, o personal stylist, o personal organizer, o marido de aluguel, o personal tourist, o pastor, o guia espiritual, a babá...

Se antes as pessoas conversavam, se aconselhavam e ouviam o pai, o avô, os amigos, agora, não tendo tempo para isso, elas pagam alguém que faça este papel. E então acham tempo e confiam, porque estão pagando um profissional.

Se tudo o que cabe ao ser humano, tudo o que faz parte da vida humana precisa ser terceirizado, entregue para alguém, para alguma máquina ou para alguma substância fazer, então o que sobra?

Para que servirá o homem?

Para produzir e consumir, apenas?

A superespecialização pode ter levado o humano a grande limitação, mecanizando-o e fazendo-o perder iniciativa, atitude, independência, capacidade, habilidade, naturalidade?

Geralmente, a desculpa é a falta de tempo por se ter que cuidar da carreira, da fama, do dinheiro, dos compromissos, dos afazeres e não sobra tempo para cuidar do resto.

O principal da vida ficou relegado a resto e sobra e foi entregue aos cuidados de outras pessoas, entidades, substâncias. E o que era para ser resto e sobra tornou-se o principal.


Este não é um discurso moralista, maniqueísta, que quer estabelecer o que é certo e errado ou o que as pessoas precisam fazer para serem felizes. Nada disso, não tenho interesse em influenciar vidas nem em dizer para as pessoas como elas devem viver.

O que exponho aqui é apenas reflexão pessoal, se servir a alguém, se ajudar, muito bem, se não servir, tá bem também. Serve para mim.

Porque, ao escrever, faço algo que gosto muito de fazer, que me dá prazer, e ainda paro para pesar e refletir sobre a minha vida. Depois compartilho o resultado.

Para escrever sobre não ter tempo e terceirizar tarefas que são minhas, da minha vida, tive que arrumar tempo para isto, tive que me organizar, elencar prioridades, e isso só me faz bem.

Sei que as pessoas dormem tarde, acordam com despertador, cumprem horários puxados no trabalho, na faculdade e em casa e que precisam disso para sobreviver.

Mas também sei que muitas pessoas estão ficando doentes justamente por causa deste estilo de vida, entre outros fatores.

Eu também já vivi assim e conheço um exército de gente que vivia assim e descobriu novos caminhos, buscou alternativas, algumas porque já estavam doentes, outras porque queriam viver e não somente existir.

Se o estilo de vida não está fazendo bem, se o essencial da vida está sendo deixado de lado, então é preciso buscar alternativas.

E elas existem.


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O CÃO QUE TENTAVA MORDER O VENTO



Se não fosse para ser quem és e quem fostes, a vida não te teria criado, teria criado outra coisa, outro alguém no teu lugar.



Talvez, só talvez, uma das maiores causas do sofrimento esteja no desassossego de ter que ser, ou ter sido, outro alguém.

Pensando sobre minha vida, parece que vivi sempre na iminência de ser algo, sempre num porvir, num vir a ser.

Criança, “um ser em formação”, vive na iminência de tornar-se adolescente.

O adolescente, na expectativa de tornar-se jovem e o jovem, adulto.

O adulto, por sua vez, vive na expectativa de tornar-se casado, solteira, patrão, santo, profissional, livre, pai, respeitado, salva, reconhecida, valorizado, mãe, poderoso, rica, de sucesso, famoso, avó, aposentado, morto...

É um desassossego que só pode mesmo desaguar em patologias, principalmente porque tem um agravante.

Além da emergente expectativa própria, há o bombardeio das expectativas alheias, aí não tem quem suporte, mesmo.

Ao que me parece, não sei o que você pensa sobre isso, os pais criam expectativas em relação aos filhos, desde que nascem, para todo o sempre.

Os filhos criam expectativas em relação aos pais, mas, estes, pelo menos chega um momento em que desistem de alimentá-las e mantê-las, assim que descobrem que pai e mãe são nada mais que humanos falhos.

E desistem. 
Apontarão agora suas metralhadoras de expectativas para a cabeça das esposas, dos maridos e dos seus próprios filhos. Para sempre.

Ele cria expectativas em relação e ela e ela cria expectativas em relação a ele. Quando isso acontece, com o passar do tempo, as expectativas não se cumprem, é claro, pois é uma criação pessoal, e então o relacionamento vira um inferno.

Ou não.

Ou o outro corresponde às expectativas, o que é ainda pior, pois um criou e impôs sobre o outro o que ele deveria ser. E o outro, por sua vez, cumpriu o protocolo, seguiu o programa, representou seu papel, sua personagem.

Faça um exercício sincero comigo.

Pense nas expectativas próprias, aquelas que você criou em relação a você mesmo e à vida.

Agora pegue as expectativas que o mundo colocou e coloca sobre você.
Somou tudo?

Qual é o resultado?

O resultado é o inferno.

É desassossego, exasperação, ansiedade, um eterno vir a ser, vir a se tornar algo, sempre, como se nunca fosse.

Este interminável vir a ser é ilusão, é cão correndo atrás do próprio rabo.

Mas espera um pouco. Tem alguma coisa errada aí.

Os outros criam expectativas sobre mim e eu tenho que correr atrás para satisfazê-las?

Tem algo precisando de in-versão aqui.

Que se danem as expectativas.

Sim, mesmo as dos pais e cônjuges e filhos e seja lá de quem for.


Por quê?

Ora, porque quem cria as expectativas em relação a mim são os outros, isso ocorre dentro do outro, eu não tenho responsabilidade sobre isso, não diz respeito a mim, mas a eles mesmos. Este é um problema deles, não meu.

E aquelas expectativas que eu crio sobre mim mesmo é problema só meu, eu que dê um jeito nelas, sem envolver mais ninguém.

E penso.

Por que a vida nos faria humanos se fosse para sermos santos, deuses, demônios ou qualquer outra coisa que não seja unicamente humanos?

Por que a natureza faria uma laranjeira que vivesse querendo ser um abacateiro?

Por que uma onça quereria ser um macaco?

Por que um leopardo quereria ser um homem?

Na natureza há metamorfoses, mas não há sofrimento de algo por querer ser outra coisa. As transformações podem acontecer, mas podem não acontecer, e tudo bem.

Não me parece saudável viver nesta constante consumição, neste constante vazio de ser, sempre esperando se tornar.

O que equivale a viver sem identidade, sem ser sujeito.

E, pior, depois, mais tarde, olhar para trás e se maltratar por não ter sido.
Por não ter sido o pai, a mãe, o filho, a esposa, o profissional, o amigo, o irmão ou seja lá que diabo esperassem que eu fosse.

Já olhei para trás e a dor me consumia, porque fiz alguém sofrer, decepcionei, não dei conta, não fui o que esperavam que eu fosse.

E além de carregar esta dor dentro, há que se conviver com ela nos olhos, nas palavras e na vida dos envolvidos.

E acabei por sentir culpa por ter sido.

Isto é de uma crueldade incalculável, que ninguém deveria impor a si mesmo nem aos outros.

Para quem acredita, conhece, já estudou alguma filosofia ou espiritualidade sabe que um dos princípios dos infernos é esta insaciedade, esta consumição de ter que, de querer que, de esperar que, da iminência que nunca se satisfaz e que nunca acaba e nunca se cumpre.

Ao que me parece, alguém que viva deste jeito só pode mesmo mergulhar na ansiedade, pelo incessante porvir, ou na depressão, no niilismo, no vazio, pelo porvir que não se cumpriu.

Por que não basta ser quem é, do jeito que é?

E se não basta ser quem é, do jeitinho que é, em que espécie de coisa nos tornamos?

Porque se não fosse para ser quem é, teria sido diferente.

Se fosse para ser de qualquer outro jeito, não seria quem é, a vida teria tratado de fazer diferente.

E, ao olhar para o passado, tento me livrar do pesar e da culpa por não ter sido o que esperavam que eu fosse nem o que eu mesmo esperava que eu fosse.

Fui exatamente quem deveria e quem podia ser. Mesmo que eu mesmo não goste disso, não importa o meu gostar. Foi o que foi. É o que é.

E, agora, a única coisa que devo ser, que me interessa ser, é o que fui criado pra ser: humano. Com tudo o que implica ser humano. Com as falhas, as limitações, os erros, os acertos, as incertezas e inseguranças, as forças e belezas.

Sim, as belezas, porque é neste caos humano, nas incongruências, nos paradoxos, nas contradições que reside a grande beleza da criação. Já que não creio que ela seja um erro ou tenha se dado por engano.

Mas a metamorfose, sempre.

E as expectativas?

Fodam-se as expectativas.



sábado, 10 de agosto de 2019

POR QUE NÃO? SE VAMOS TODOS MORRER MESMO.


A perspectiva da morte que valoriza a vida



É provável que tenhamos criado um tabu sobre a morte e tenha sido justamente isto que desvalorizou a vida.

Lá nas cavernas, com tantos perigos e predadores, com a morte nos rondando, nos espreitando e ameaçando o tempo todo, lutávamos pela vida incansavelmente. Aliás, era só o que fazíamos.

As coisas mudaram. Com o passar do tempo e com a evolução, os perigos e ameaças diminuíram e nossa expectativa de vida aumentou consideravelmente.

A sensação de segurança aumentou. Vieram os confortos e os prazeres e resolvemos que melhor seria esquecer que somos mortais e que nosso fim é nossa única certeza.

Mas é aqui que pode estar o erro


Já aconteceu com você ou com alguém que você conhece de achar que a vida não tem mais sentido e que não há prazer algum nela?

Já ouviu falar de pessoas que perdem a vontade de viver?

Conhece alguém que tem uma vida completamente sem graça, mecânica, cinza, previsível, sem aventura nem paixão, uma vida sem tesão?

Já ouviu falar de pessoas que diante de uma doença terminal passaram a valorizar cada minuto e cada acontecimento da sua vida?

Já ouviu dizer que existe alguém que tem muita dificuldade de se manter vivo ou de se movimentar, mas luta pela vida com bravura e a saboreia com alegria?

Já ouviu falar de alguém que vivia reclamando da vida, que dizia que não queria mais viver e que sob ameaça de morte implorou para viver mais?

Pois é, parece que a perspectiva da morte é que valoriza a vida.


Mas cismamos em viver como se nunca fôssemos morrer, como se nossa estadia aqui fosse eterna, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Mas a verdade é que não temos todo tempo do mundo.

Aliás, temos bem pouco tempo do tempo do mundo.

Se fosse para esquecermos a morte e viver como se nunca fôssemos morrer, então porque nasceríamos com esta única certeza na vida, a de que vamos morrer?

A morte é uma certeza, a vida não.

Então porque desperdiçar a preciosa vida com tanta besteira?

Parece que fomos feitos para funcionar como a lei de oferta e da procura, quanto mais produto disponível, menor o valor, a raridade é o que valoriza.

Então resolvemos esquecer que a vida é coisa rara, a morte é que é certa e sorrateira, pode chegar a qualquer momento, sem avisar.

E assim, convencidos falsamente de que ela nunca acabará, desvalorizamos a vida.

Não moramos mais em cavernas, não temos mais os mesmos predadores nem a mesma vulnerabilidade, mas temos outras tantas.

Não são poucos os relatos de pessoas que tiveram uma vida dedicada ao trabalho, ao dinheiro, foram rabugentas, plantaram discórdia, lutaram com mil fantasmas, cultivaram sofrimentos e preocupações e diante de um diagnóstico fatal, que lhe deu pouco tempo de vida, passaram a valorizar cada minuto, cada oportunidade e cada pessoa diante de si.

Libertaram-se de rótulos, abriram a mente, despreocuparam, deixaram de se importar com a opinião dos outros, com ninharias e mesquinharias.

Deixaram de brigar para defender sua razão, para vencer discussões ou por outras pequenezas deste tipo.

Pararam de sentir pena de si mesmas, de se sentirem ofendidas com tudo, de valorizar demasiadamente o que não tem valor.

Focaram no que interessa, amar e viver, porque a morte bate à porta.

Então por que não? Se a gente vai morrer mesmo.

Por que não rir de si mesmo, não rir das próprias gafes e tolices?

Por que não fazer aquela viagem, não realizar aquele sonho antes que seja tarde?

Por que não dizer eu te amo, me perdoa, eu estava errado ou errada?

Por que não aceitar alguém e se aceitar também?

Por que não perdoar e se perdoar?

Por que não dizer fica comigo, eu te quero e te desejo, o amanhã pode não vir, amor?

Por que não fazer o que “dá na telha”, se vamos morrer mesmo, a qualquer momento?

Por que não mudar tudo, mandar às favas o que machuca e murcha nossa vida?

Não temos a vida toda pela frente coisa nenhuma.

Quem disse isso quer apenas que andes nos trilhos, justamente onde o trem te esmagará.

Quem garante que vida toda é essa que se tem pela frente?

Só há probabilidade, porque pela frente, de certo mesmo, temos a morte.

Então viva rápido, intensa e levemente, como se fosse morrer amanhã. 

Porque você vai mesmo, só não sabe qual amanhã será, mas será.

E é assim que somos, assim nos constituímos, seres com certeza da morte, que desperdiçam a vida.