domingo, 1 de dezembro de 2019

O HOMEM QUE PAGA PARA SOFRER


Escolhendo a ferramenta


Na minha profissão é bem comum ver pessoas se esforçando muito por “um lugar ao sol”, para “ser alguém na vida”, como se costuma dizer. O que geralmente significa ter uma profissão, uma carreira profissional, um status social, reconhecimento, ser avaliado positivamente, ser aprovado.

Neste processo é igualmente comum, e já vi acontecer muitas vezes, a pessoa conseguir o que quer depois de muito esforço, alcançar seus objetivos, tornar-se um profissional, ser reconhecido e avaliado positivamente, ser aprovado e detestar o que alcançou, sentir-se um escravo, manter-se preso por anos naquela situação insuportável e terminar a vida doente.

Claro que não é culpa de ninguém nem é questão de culpa, a pessoa alcançou exatamente o que buscou livremente, tomou as suas próprias decisões e elas tiveram resultados, manteve-se onde estava por decisão própria.

A questão é outra, é sobre o saldo da conta.



Cada um de nós, ao nascer, recebe uma conta com um saldo que não se sabe de quanto é. Podemos gastar livremente, da maneira que desejamos, mas não sabemos quanto temos ou quando irá acabar nossa riqueza.

Refiro-me a um capital mais valioso do que dinheiro: ao capital vital, à vida, ao tempo de vida que se tem.

Quem sabe quanto tempo tem? Qual é o saldo desta conta?

Nosso saldo pode zerar aos 14, aos 27, aos 50, aos 60 ou aos 90 anos, não sabemos. E quando nosso tempo tiver que acabar, o saldo da conta bancária, por maior que seja, não será capaz de mudar isso.

Já perdi, e provavelmente você também, pessoas próximas de todas as idades. Perdi um filho com dois dias de vida e meu pai com 60 anos. Perdi amigos com 23, parentes com 27, amigas com 55, com 19 anos e nem o dinheiro nem a profissão nem a carreira nem status nem anonimato, nenhuma situação social poderia estender os seus dias. O saldo da conta do tempo deles acabou.

A importância deles para os que ainda vivem é quase nenhuma, não importa o quanto foram aprovados em vida, quanta riqueza acumularam, se foram “alguém na vida” ou não. Estão igualados, nivelados pelo nível mais baixo, como faz a lei da entropia. Não são nada mais do que longínqua memória, fumaça eu se esvai com sopro de leve brisa.

Então, que diferença faz?


A única diferença entre eles é como usaram o capital que receberam ao nascer. O que fizeram com o saldo da conta do tempo, do tempo de vida.

Se lhe fosse dada uma conta bancária com um valor em dinheiro para você gastar livremente, mas sem saber qual é o saldo, como você gastaria?

Você não sabe quanto tem nem quando irá acabar. Mas enquanto tem, não há limites, a não ser aqueles que você mesmo coloca.

Iria usar mal este dinheiro? Iria querer desperdiçá-lo? Iria usá-lo para o seu sofrimento, para se machucar?

Então por que alguns usam o tempo que têm vivendo situações desagradáveis, que lhe fazem sofrer, como se nunca fosse acabar?  Por que achar que sempre haverá um amanhã para ser feliz se na verdade não se sabe o saldo desta conta?

Não se tem certeza de quando tempo se tem, mas se tem certeza absoluta que este tempo acabará.



E pode acabar ainda hoje, amanhã, daqui a uns meses ou muitos anos, mas esta hora vai chegar inevitavelmente, não importa que tipo de vida se tenha levado, se boa ou ruim, com ou sem dinheiro, sendo “alguém na vida” ou sendo “ninguém”. O tempo vai acabar do mesmo jeito para todos.

No final, a opinião das pessoas não terá nenhum valor e geralmente todos são elogiados ao morrer e esquecidos em seguida.

Suportar uma situação de vida insatisfatória, insalubre, apostando que no futuro haverá tempo de se libertar e ser feliz é o mesmo que gastar o dinheiro de uma conta de saldo desconhecido para se machucar, para se ferir, apostando que depois haverá dinheiro para o curativo, para o médico, para o alívio.

Com dinheiro, em sã consciência, ninguém faria isso, mas muitos fazem com seu tempo de vida.

Quando eu me aposentar, então irei descansar e aproveitar a vida.

Quando meus filhos crescerem, então deixarei este casamento que me faz sofrer.

Quando eu terminar de pagar o apartamento, deixo este emprego nojento.

Meu sonho é viajar, mas só posso ir depois que eu me aposentar, agora não tenho tempo.

“Agora não tenho tempo”, “agora não posso”, “agora não dá” são expressões que acabam com a vida de qualquer um e não fazem o menor sentido.

Pois só agora se tem tempo, só há o tempo de agora, o depois é que não se tem.


“Não posso” deve ser substituído por “não quero”, porque tudo pode ser mudado, o que pode acontecer é a pessoa não admitir, não querer tomar certas decisões, entendendo determinada escolha não é admissível para si.

Nestes casos, a escolha que se está fazendo é a de permanecer gastando a riqueza que recebeu para se ferir, para o próprio sofrimento. E ferido, machucado, infeliz, desperdiçando o tempo, não se pode ser útil e positivo na vida de ninguém.

Sempre há opções, sempre há escolhas, basta tomada de decisão.

O tempo de agora é o único que se tem e deve ser vivido plenamente, buscando realizar sonhos, viver com satisfação, de forma a poder dizer que faria tudo outra vez, que repetiria com prazer, que faria as mesmas escolhas, porque não deseja outro caminho, outra vida, outro uso do seu tempo.

Pode ter certeza de que, ao chegar aos 50 ou 60, e chega rápido, muito rápido, todos olham para traz e avaliam a vida que tiveram. Não há nada mais desesperador do que constatar que foi uma merda, do que saber que não era aquilo que queria ter vivido, porque o tempo gasto não volta mais para a conta, não dá para fazer de novo.

O único tempo que se tem para fazer diferente é o de cada amanhecer em que se abre os olhos, uma nova chance, mais uma oportunidade, até chegar aquele em que tudo acaba.




sábado, 16 de novembro de 2019

O DESPERTAR DO CORINGA


 

Estranha é a surpresa diante do óbvio e a naturalização do absurdo.

Não é um ato de rebeldia ou de resistência chamar fascista de fascista, apenas constatação do óbvio.

Diante de cada ação fascista, atualmente, surge, quase que de repente, uma surpresa e um alarido, um cacarejar sem sentido. Mas armas são feitas para matar, a água molha, o fogo queima, bombas são feitas para explodir, a eletricidade dá choque e fascista faz coisas de fascista. As coisas são assim mesmo.


Surpresa e nota de repúdio porque a elite (eu disse: ELITE) não aceita a inclusão e ascensão social dos pobres e derruba governos com golpe? Mas desde quando a luta de classe virou uma novidade? Desde quando a botina da elite (eu disse: ELITE) deixou de pisar em pobre e preto? Que novidade é essa agora?

Surpresa e alarde com decisões injustas do judiciário?  Em que tipo de fantasia (fora da mitologia) a justiça é cega, isenta e igual diante de todos?

Quem, em sã consciência, se surpreende com o capital dizimando as florestas e os povos originários, poluindo todas as águas, sugando o sangue do povo, extraindo a riqueza da terra com os ossos dos mortos nas barragens, envenenando os alimentos e o ar por dinheiro e produção, vendendo a pátria?

Quem, em sã consciência, acha que isso vai parar com condescendência, com coraçõezinhos, com pensamento positivo, com manifestações de opinião nas redes sociais, com orações, com conchavos políticos, com voto, com amorzinho inclusivo e respeito ao capital e à propriedade, com concessões, com coligações, com negociações?  

Qual é a droga que nosso povo tem usado para achar que memes, postagens constatando o óbvio, notinhas de repúdio, grupinhos virtuais, votinhos na urna e esperança no Estado mudarão as relações de poder injustas concretadas através dos séculos?

Para vencer o aço dos canhões e o concreto das divisões de classe é preciso muito mais do que meia dúzia de likes.

Qual é a surpresa em se ver pessoas religiosas corruptas, destilando ódio, preconceito, matando e assassinando, explorando pessoas, apoiando o fascismo, traficando drogas, embaladas pela doce hipocrisia e pela melosa demagogia? Só para quem não conhece ou decidiu esquecer a história. Amém, irmão!?

Quando foi que a rebeldia virou este regurgitar, este ruminar, este vomitar e voltar a comer?

Quem esticou a infância até os 40 e suprimiu a força, o tesão e a rebeldia do adolescente e do jovem?

Quem apagou os sonhos, os anseios de liberdade e a ousadia dos estudantes?

Em que buraco enterraram o discernimento e a coragem do pai trabalhador e cidadão?

Qual foi a chave que desligou nossa autonomia de pensamento e nos fez babar diante de qualquer porcaria que brilhe ou que tenha o nome de “oferta”?

Quem é o dono do muro que separa os explorados em grupos rivais?
Que merda fizeram com nossa cabeça, que somos capazes de brigar por migalhas, migalhas de razão, de tempo, de dinheiro, de opinião, de lixo. Como pombos ou galinhas, brigamos até pelas migalhas de mentiras e ilusões que nos jogam no chão das praças e terreiros digitais.

Seguiremos dormentes e autômatos, referendando essa emergente distopia, fartos de ilusão, carentes de autêntica e ativa rebeldia.

Quando estivermos certos da inclusão, sequer veremos ao longe a capital, confinados em distritos, separados por detritos, chafurdando na própria miséria, boiando inertes na ilusória razão.


Cada um, uma moeda, um número de controle, uma bateria, um doador de tempo, uma fonte de sangue e vida para a grande elite da capital, do capital.

Há quem não faça mesmo ideia de como o mundo funciona, onde é a casa do poder, onde mora o controle, onde vive a abundância, por onde andam as intenções de quem comanda.

E se o livre arbítrio legitima a escolha de uns pela ignorância ou pela ilusão, em benefício próprio, muito mais a escolha de outros por acordá-los, ou combatê-los, do modo que for, para benefício de muitos, e sempre, primeiro, dos mais fracos.

Por melhor que possa parecer uma vida, por mais digna que possa soar, independente da ilusão a que se agarre ou do deus a que se apegue, se não se posiciona contra o sistema, a favor dos mais fracos, é nada mais que um lamentável despropósito.

domingo, 10 de novembro de 2019

UM URSO NA JAULA DE ISOPOR





Uma história para pensar


Há poucos dias eu vi uma reportagem na TV que mostrava um urso pardo vivendo em uma área espaçosa em um zoológico. Embora a área fosse cercada, era arborizada, grande, com troncos e obstáculos, pequenos morros e inclusive um lago.  

Mas o pobre urso não aproveitava toda aquela área, ele só usava sempre o mesmo espaço, de 5 a 10 metros, e ficava caminhando de um lado para o outro sem parar, com aparência de demente, triste, deprimido. A imagem era de cortar o coração.

A explicação para isso é que ele viveu muito tempo em uma jaula e se condicionou a andar de um lado para o outro, de uma parede a outra, em frente a grade.

E isso me fez pensar naquela história da águia que vivia como galinha.

No elefante que fica amarrado a uma estaca que ele pode arrancar com facilidade.

Na boiada que aceita os limites de uma cerca que ela pode estourar facilmente.

No cavalo que aceita o comando de uma rédea que na verdade não tem nenhum poder sobre ele.

E pensei nas pessoas que vivem presas por limites imaginários, porque desconhecem a força que têm e porque adotaram crenças que limitam a vida e aprisionam a alma.

Pensei nos 99% da população mundial, controlada e explorada por aquele 1% que cria as cercas, amarra os laços, puxa as rédeas e estala o chicote do medo.

Ursos e homens, para se libertarem, só precisam acreditar na força que têm, se desfazer das crenças limitantes, pensar fora da jaula.

Entender como os condicionamentos funcionam é um bom começo, que pode até não levar à mudança do mundo, mas leva à mudança do seu mundo.

E a comparação do homem com animais não é ofensiva, pois pertencemos ao reino animal e como temos muitas diferenças também temos muitas semelhanças.

Além disso, usar a natureza para aprender e melhorar não é ofensivo.

Um indivíduo não molda a cultura, mas a cultura molda os indivíduos.


Parece natural de você a forma como você vive, né?

Mas não é.

É só resultado da cultura em que você está inserido.

Não me refiro à cultura como manifestação cultural: teatro, literatura, música, cinema, pintura...

Refiro-me à cultura como o conjunto de hábitos, procedimentos, procederes, costumes, que moldam o modo como uma pessoa vive, como pensa, como vê e entende o mundo e a si mesma.

Há um número enorme de estudos acadêmicos, teorias, pesquisas científicas, ensaios de pensadores sobre a cultura. Desde que o homem é homem ele pensa sobre seu agir, sobre suas reações, como vive, como pensa, como se relaciona, como é sua sociedade e como se tornou quem é.

Praticamente tudo em uma pessoa, desde o jeito de andar, o modo como se alimenta, a maneira como usa o banheiro até a leitura que faz do mundo e como se vê é determinado pela cultura.

E cultura não é algo físico, que se possa pegar, é virtual, transmitida do meio para o indivíduo, passada de geração em geração, do social para o individual.
Para melhor entender, eu costumo comparar a cultura com um software, um programa que se instala em nós e nos faz ser quem somos. Sei que esta maneira de entender e explicar a cultura não agrada a todos, mas é a minha maneira.

Desta forma, quase nada do que eu sou é autêntico, no sentido de ser original, não criei quase nada em meu modo de ser, em minha identidade como sujeito no mundo, tudo foi e é determinado pela cultura, cada hábito, como olho para o mundo e para as pessoas, como vejo, como entendo. Obedeço a um programa.

Portanto, eu, sozinho, ou qualquer pessoa, por mais que faça, não pode mudar a cultura. Ela se forma e se modifica pelo agir das massas, dos povos, por um processo que se dá ao longo de anos, desencadeado por forças gigantescas.

Por exemplo: uma vez, há muitos anos, era cultural em algumas regiões do Brasil as crianças pedirem a benção para o pai e para a mãe antes de irem dormir. Hoje não é mais.

Por mais que uma única pessoa deixasse de fazer isso antigamente ela não mudaria a cultura de uma nação inteira sozinha, outros fatores influenciaram nesta mudança, que foi acontecendo devagar, como um processo, ao longo de muitos anos.

Os filhos faziam isto e os pais exigiam que fizessem enquanto o software estava rodando, à medida que o programa foi sendo modificado as pessoas lentamente foram mudando seus hábitos.

Em alguns povos, as pessoas comem pegando o alimento do prato com as mãos e levando-os diretamente à boca, sem que isso pareça estranho, pelo contrário, é visto como algo natural. Já para nós, aqui no Brasil, e para outros povos do mundo, o natural é usar talheres, comer com as mãos parece estranho.

Nem um nem outro é natural, os dois modos de comer são determinados pela cultura, não faz parte de uma decisão pessoal e independente dos indivíduos destes povos.

O homem tem facilidade de naturalizar as coisas, mesmo aquelas que no início pareçam muito estranhas e até inadmissíveis. O homem das cavernas não usava talheres, mas eu e você hoje achamos natural usá-los.

Em uma certa nação, pedir sal em um restaurante ou lanchonete é uma ofensa grave, uma grosseria. Mas parece natural para eles se sentirem ofendidos se alguém faz isso. O fato gera um sentimento, mas não há nada de natural nisso, é determinado pela cultura.

Natural é respirar, em qualquer povo e em qualquer lugar da terra.

Natural é sentir fome, cede, tesão.

Natural deveria ser o instinto de autopreservação e de preservação da espécie, do ouro.

Natural deveria ser a desobediência às rédeas, às cercas, às correntes.

Mas como o simples ato natural de pegar o alimento com a mão e comer tornou-se um absurdo, porque um dia alguém resolveu fabricar e vender talheres, pensar e viver fora da caixa também se tornou inaceitável, um absurdo e um ato de violência. Isso é repressão.

Neste sentido, a liberdade se dá em níveis diferentes, desde uma postura mais radical e extrema frente à cultura dominante e aos diferentes tipos de limitações e aprisionamentos, até uma vida apenas mais consciente de tais condicionamentos, com um pouco mais de independência.

Fora isso há a total ignorância, a ingenuidade, ou aquele positivismo crente de que as jaulas são para a proteção, as rédeas são para dar a direção necessária e as amarras são naturais, inevitáveis e benéficas.

A partir do momento em que se passa a saber, tudo é uma questão de escolha.


domingo, 3 de novembro de 2019

VENDAVAL NO JARDIM


Checklist de validação


Um jovem estava fazendo uma espécie de matrícula, de cadastro em uma instituição e a funcionária pedia informações sobre ele e digitava.

Nome? Identidade? CPF? Religião?

Não tenho?

Não tem? Mas como assim, não tem religião?

Não tenho religião.

Então boto aqui: cristão?

Não, não bota nada.

Mas foi batizado em qual religião?

Não fui.

Não foi batizado?

Não.

Imagine que esta conversa continuasse neste ritmo e viessem outras respostas negativas para as perguntas “lógicas” da funcionária.

Vacinas?

Não tenho.

Nunca foi vacinado?

Não.

Histórico escolar?

Não tenho, nunca estudei em escola, fui educado em casa e à distância.
Por mais inteligente que este jovem fosse, por mais educado, capacitado e gentil, ele não cumpriu os protocolos sociais, seria um estranho diante dos olhares tradicionais.

A ilusão de autonomia



Parece lógico que desde que nascemos haja um caminho a seguir.

Quando chegamos aqui já existia um esquema a ser seguido e obedecido, que foi traçado por aqueles que chagaram antes de nós.

E parece mesmo que tudo é cumprindo naturalmente.

Somos criado e educados por adultos, que depois nos enfiam em uma escola para sermos preparados para seguir o roteiro. 

E toda a organização social e a mentalidade da maioria das pessoas estão moldadas para cumprir o papel na peça da sociedade humana.

Quando alguém pensa que decidiu fazer faculdade, ter uma profissão, buscar um emprego, casar-se e constituir família, não decidiu, apenas cumpriu o programa.

Este tipo de tomada de decisão não é livre e independente, é modelada. E não há nenhum mal nisso, é claro.

Se a pessoa se sente sinceramente realizada assim, se vive satisfeita, pois que assim seja.

Mas aquele que decidir não cumprir o papel pré-determinado e se aventurar a escrever a própria história, fora dos padrões, será criticado. Não por todos, só pela maioria, principalmente pelos mais próximos.

Há pessoas que sentem que algo está errado, se sentem deslocadas, não pertencendo a este mundo, não aceitas, desencaixadas, um estranho ou uma estranha no ninho. Obviamente o modelo não satisfaz estas pessoas, não preenche os anseios da alma, como se não fossem feitas para encenar a mesma peça social.

Também não há nenhum mal nisso. A não ser que estas pessoas insistam em participar do teatro social comum, tradicional. Neste caso poderá haver problema. Algumas não suportam, têm dificuldade para definir sua identidade e adoecem.

Uma linda rosa na caixa de cristal

Conheço os dois tipos de pessoas. Os que adoram cumprir o protocolo e viver o papel que lhe foi colocado e os que não sabem lidar com isso, não é da sua natureza viver estes papeis e cumprir com os modelos.

Nenhum nem outro deve ser condenado ou deve se sentir culpado.

Você deve saber o que eu estou querendo dizer, deve conhecer ou até já se sentiu assim, como se não pertencesse a este mundo. Tentar de encaixar é doloroso, causa desajustes, machuca, fere quem você realmente é.

Algumas pessoas preferem se proteger do vento para manter o penteado intacto.

Outras preferem a bagunça que o vento faz nos cabelos.

Algumas preferem um jardim organizado, separado, classificado e limpo.

Outros preferem um jardim misturado, ao sabor da natureza, feito vento no cabelo.

Conheci pessoas que sofreram por tentarem se em-caixa-r (encaixar) onde não cabiam.  

Tente coloca uma linda rosa dentro de um dedal e verás o estrago que farás com ela.

Eu vi isso em alunos, em crianças com potencial enorme em algumas áreas, inteligentíssimas em alguns aspectos, mas sofrendo muito, porque os adultos, as instituições, pais, professores, psicólogos e psiquiatras trabalhavam juntos para que se encaixassem em moldes, modelos e protocolos.

Não há escrúpulos em se usar remédios (drogas), ameaças, corrupção e coerção para fazer uma inocente e rica criança, ou até um jovem, se 
em-caixa-r (encaixar),

Preferem matar sonhos, habilidades, sensibilidades e inteligências para chamá-la de “normal” e vê-la cumprindo os ritos e programas de uma sociedade doente.

Neste caso, é preferível o vendaval bagunçando todo o jardim do que as flores morrendo sufocadas nos cristais da sala.  

Felizmente, tenho visto muitas pessoas vivendo fora das caixas, negando papéis pré-determinados de tradições castradoras e sufocantes que cheiram a mofo.

Seja índigo, arco-íris, milenium, Y ou o tiozinho que aprendeu e mudou, não importa o rótulo, existe um grupo de pessoas vivendo sonhos fora da caixa, escrevendo a sua própria história, determinando seu modo de vida, fazendo as próprias escolhas livres das convenções.

E fazem tudo muito bem planejado e com muita responsabilidade, respeitando todo modo de vida.

Se você se sente assim, desajustado, não pertencendo a este mundo, não se culpe, não se machuque, alegre-se, não force a barra para seguir a manada.

Não tenha medo de desagradar, porque mesmo fazendo tudo o que te mandarem você ainda irá desagradar e será criticado.

Então deixa o vento bater. Liberte-se.



domingo, 27 de outubro de 2019

Muito prazer: Bicho-Papão.


Viajando com o Bicho-Papão



Certa vez, viajei de moto pelo sul da Argentina, Patagônia, Terra do Fogo, até Ushuaia. Fui com um “amigo”, mas acabei tendo que retornar sozinho por motivo que não merece atenção agora.

Em duas ocasiões dormi no pátio de postos de combustível, uma noite foi na Patagônia e outra foi próximo de Buenos Aires. Encostei a moto, deitei ao lado dela, na calçada, e dormi ali mesmo.

Outra vez, em outra viagem pelo norte da Argentina, quando fui para o Chile, tive que dormir no centro de uma cidade, na calçada, debaixo de uma marquise, ao lado da moto.

E sabe o que me aconteceu?

Nada. Dormi tranquilo.

Já viajei sozinho, com pouco dinheiro, pilotando durante dias por regiões desertas e nunca, jamais, me senti ameaçado ou em perigo. Nunca passei por situação de violência, mesmo dormindo na rua em barraca ou totalmente exposto.

Aliás, minto, duas vezes cheguei perto de me sentir ameaçado. As duas vezes foram com a polícia e não com bandidos.

Na Argentina, policiais exigiram que entregasse a eles os 150 pesos que eu tinha na carteira para me liberar, porque eu estava sem o seguro carta verde. E outra vez foi com a polícia da imigração, ao passar de Argentina para o Chile, em passo Jama, na Cordilheira dos Andes. Apreenderam a máquina fotográfica de um amigo meu porque ele bateu foto no pátio da imigração, outra estratégia para pedir propina. Mas foi só isso.

Mas na rua, na estrada, nas cidades, com as pessoas de todos os lugares por onde andei eu tive apenas cordialidade, respeito e colaboração.

Não tenho medo de viajar sozinho por onde quer que seja, comprovei que o mundo é um lugar seguro.

É claro que alguns cuidados são necessários e existem pessoas más em qualquer lugar do mundo, mas não são maioria nem é a tragédia, o flagelo que a televisão mostra.

A não ser que a pessoa procure, provoque, atraia situações de violência.

A cultura do medo


A pessoa que assiste muita TV, principalmente os telejornais, coloca-se em contato com uma avalanche de notícias ruins, de violência, de roubo, assaltos, assassinatos, corrupção, morte, crueldade.

Por que é assim?

Porque é isso que grande parte das pessoas quer ver. É isso que as pessoas gostam de consumir e a TV vende o que as pessoas querem comprar, é disso que ela vive.

É claro que, se destacarmos somente as notícias ruins do mundo e passarmos na televisão, quem estiver assistindo ficará com a impressão de que só acontecem coisas ruins, que o mundo é só violência, que ninguém está seguro em lugar nenhum, que o mundo é um inferno.

Mas quem está nas ruas do mundo, quem viaja pelo mundo sabe que a realidade não é somente essa.

Existe a criminalidade e a violência?

Sim, existe.

Mas a escala de violência e criminalidade ainda é bem menor do que a escala da bondade. A maioria das pessoas ainda é cordial, receptiva, altruísta, solidária.

Conheço pessoas que estão viajando há anos pelo mundo todo, das mais diversas formas, dormindo em barracas, em seus carros, na casa de pessoas que acabaram de conhecer e estão seguras, se sentem seguras, sem medo e nunca sofreram violência. Nem mesmo em países em conflito ou em regiões tidas como violentas.

O mundo que encontramos lá fora não é o que a televisão mostra. É muito maior, mais lindo e melhor.

Mas a cultura do medo é o mais antigo e eficiente instrumento de controle e dominação que existe.

E começa em casa, com os pais usando esta estratégia para controlar a criança.

“Se você fizer isso o Bicho-Papão te pega”.

“Cuidado, não vá! Não faça, é perigoso! Você vai se machucar! A Cuca te pega! A polícia te prende! O homem do saco te carrega! Se você fizer isso a mãe e o pai ficarão tristes.”

Depois vai evoluindo.

 “É pecado, Deus vai te castigar! Você vai perder a salvação! Vai queimar no inferno! Olha a ira de Deus! Se der chance, o diabo te destrói! Não pode perder o emprego! Se continuar assim nunca será ninguém na vida! Vai acabar sozinho! Vai rodar! Vou te dar nota baixa...”

Tenho certeza de que você conhece muitas outras expressões deste tipo.

Em um outro estágio, na esfera social, os meios de comunicação e as instituições de controle utilizam da mesma estratégia para controlar e para fazer a população comprar, consumir sensação de segurança. Por isso a insegurança e o medo são tão importantes.

A segurança passa a ser perseguida quase que doentiamente, mesmo sob situações humilhantes. Em um mundo em que o medo prevaleça, as pessoas não se importam mais em perder tudo o que têm, até a dignidade, para se sentirem seguras. Pagam qualquer preço, fazem qualquer coisa.

Espalhando o medo de doenças se vende remédio.

Espalhando o medo da violência e a impotência do Estado em contê-la se vende armas, carros blindados, segurança privada, cursos de defesa pessoal, alarmes, seguros, grades, câmeras de vigilância e se mantem as pessoas em casa assistindo TV, comendo ansiosamente e depois comprando remédios.

Espalhando o medo do inferno, da ira de Deus ou da miséria humana e financeira se arrecada dízimo e submissão.

Espalhando o medo de crise se matem o empregado obediente no seu emprego por mais infeliz que esteja e por mais humilhado que seja.

Espalhando o medo da escassez e da fome se promove corrida aos supermercados e aumento de consumo.

Espalhando o medo do inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos se vende mais aquecedores, roupas de inverno, pacotes de viagens para regiões mais quentes...

Espalhando o medo do verão mais rigoroso dos últimos 60 anos se vende mais ar condicionados, roupas de verão, pacotes de viagens...

Espalhando o medo do terrorismo se mantém a população obedecendo cegamente a qualquer ordem que contenha a expressão “ameaça de ataque terrorista”.

E uma lista quase infinita de estratégias de manipulação das pessoas por meio do medo poderia ser escrita aqui, mas não há espaço.

Veja como age o marketing, as expressões que usa.


“últimas vagas”; últimas unidades”; “você não pode perder”; “você não pode ficar de fora”; “se quer ter uma carreira de sucesso, garanta a sua matrícula, compre já”; “se cometer estes erros sua empresa vai falir”; “se você não fizer seu concorrente fará”; “você quer mesmo perder espaço no mercado, perder clientes?”; “se continuar fazendo assim vai perder recursos”; “nós temos a solução...”.

O medo do fracasso, de perder, de ficar de fora de algo maravilhoso, de não acompanhar a tendência, de perder o marido se não estiver de acordo com o padrão de beleza, de perder a esposa, de perder a casa, de perder oportunidades, de perder dinheiro se não aprender a fórmula mágica, se não comprar o produto ideal. 

É sempre sobre o medo, a ganância e a vaidade. Os principais anzóis com os quais os humanos são fisgados. Mas o medo é o principal.

Tanto é assim que a tortura é o meio mais eficaz de tirar informação de alguém, pelo medo da dor, da perda, do sofrimento de quem ama, confessa-se até o que não se fez.

Pelo medo as pessoas fazem qualquer coisa.

É por isso que, em um país do tamanho do Brasil, em um planeta do tamanho da terra, com a diversidade que têm, você encontra as mesmas notícias em todos os canais de tevê, em todos os jornais impressos, em todas as publicações, programas de rádio e sites de notícias.  Porque todos seguem a mesma agenda.

É claro que existem infinitas coisas maravilhosas para se mostrar. É claro que acontecem milhões de cosias maravilhosas e horríveis a todo instante no mundo todo. Mas todos os meios de comunicação noticiarão aquele mesmo assassinato, aquele mesmo desastre, aquela mesma crise. Porque obedecem a mesma agenda, estrategicamente pensada e elaborada.

Porque se sabe exatamente que tipo de reação se quer provocar na população, como fazer para obtê-la e qual resultado ela trará.

Isso não é teoria da conspiração, é uma análise pessoal, baseada em formação acadêmica e experiência profissional, mas que você não precisa e não deve aceitar. Só precisa pensar um pouco sobre o que acabou de ler antes de engolir ou de cuspir fora.

Não se trata de demonizar o jornalismo, o marketing ou os meios de comunicação, trata-se de lidar com a informação de forma crítica, analítica, sem aceitá-la ou rejeitá-la de imediato, mas sempre estudando e pensando sobre ela.

Nenhuma notícia ou informação nos chega, seja através da TV, da internet ou da igreja, sem antes receber um tratamento especial para cumprir um propósito determinado. Nenhuma.

Penso nisso tudo como o Mito da Caverna, de Platão.

Se ficarmos somente olhando passivamente para as informações que nos chegam, como as sombras na parede da caverna, perderemos o contato com a realidade, a coragem de encarar o mundo real e até a crença na sua existência, como resultado da desinformação.