domingo, 27 de outubro de 2019

Muito prazer: Bicho-Papão.


Viajando com o Bicho-Papão



Certa vez, viajei de moto pelo sul da Argentina, Patagônia, Terra do Fogo, até Ushuaia. Fui com um “amigo”, mas acabei tendo que retornar sozinho por motivo que não merece atenção agora.

Em duas ocasiões dormi no pátio de postos de combustível, uma noite foi na Patagônia e outra foi próximo de Buenos Aires. Encostei a moto, deitei ao lado dela, na calçada, e dormi ali mesmo.

Outra vez, em outra viagem pelo norte da Argentina, quando fui para o Chile, tive que dormir no centro de uma cidade, na calçada, debaixo de uma marquise, ao lado da moto.

E sabe o que me aconteceu?

Nada. Dormi tranquilo.

Já viajei sozinho, com pouco dinheiro, pilotando durante dias por regiões desertas e nunca, jamais, me senti ameaçado ou em perigo. Nunca passei por situação de violência, mesmo dormindo na rua em barraca ou totalmente exposto.

Aliás, minto, duas vezes cheguei perto de me sentir ameaçado. As duas vezes foram com a polícia e não com bandidos.

Na Argentina, policiais exigiram que entregasse a eles os 150 pesos que eu tinha na carteira para me liberar, porque eu estava sem o seguro carta verde. E outra vez foi com a polícia da imigração, ao passar de Argentina para o Chile, em passo Jama, na Cordilheira dos Andes. Apreenderam a máquina fotográfica de um amigo meu porque ele bateu foto no pátio da imigração, outra estratégia para pedir propina. Mas foi só isso.

Mas na rua, na estrada, nas cidades, com as pessoas de todos os lugares por onde andei eu tive apenas cordialidade, respeito e colaboração.

Não tenho medo de viajar sozinho por onde quer que seja, comprovei que o mundo é um lugar seguro.

É claro que alguns cuidados são necessários e existem pessoas más em qualquer lugar do mundo, mas não são maioria nem é a tragédia, o flagelo que a televisão mostra.

A não ser que a pessoa procure, provoque, atraia situações de violência.

A cultura do medo


A pessoa que assiste muita TV, principalmente os telejornais, coloca-se em contato com uma avalanche de notícias ruins, de violência, de roubo, assaltos, assassinatos, corrupção, morte, crueldade.

Por que é assim?

Porque é isso que grande parte das pessoas quer ver. É isso que as pessoas gostam de consumir e a TV vende o que as pessoas querem comprar, é disso que ela vive.

É claro que, se destacarmos somente as notícias ruins do mundo e passarmos na televisão, quem estiver assistindo ficará com a impressão de que só acontecem coisas ruins, que o mundo é só violência, que ninguém está seguro em lugar nenhum, que o mundo é um inferno.

Mas quem está nas ruas do mundo, quem viaja pelo mundo sabe que a realidade não é somente essa.

Existe a criminalidade e a violência?

Sim, existe.

Mas a escala de violência e criminalidade ainda é bem menor do que a escala da bondade. A maioria das pessoas ainda é cordial, receptiva, altruísta, solidária.

Conheço pessoas que estão viajando há anos pelo mundo todo, das mais diversas formas, dormindo em barracas, em seus carros, na casa de pessoas que acabaram de conhecer e estão seguras, se sentem seguras, sem medo e nunca sofreram violência. Nem mesmo em países em conflito ou em regiões tidas como violentas.

O mundo que encontramos lá fora não é o que a televisão mostra. É muito maior, mais lindo e melhor.

Mas a cultura do medo é o mais antigo e eficiente instrumento de controle e dominação que existe.

E começa em casa, com os pais usando esta estratégia para controlar a criança.

“Se você fizer isso o Bicho-Papão te pega”.

“Cuidado, não vá! Não faça, é perigoso! Você vai se machucar! A Cuca te pega! A polícia te prende! O homem do saco te carrega! Se você fizer isso a mãe e o pai ficarão tristes.”

Depois vai evoluindo.

 “É pecado, Deus vai te castigar! Você vai perder a salvação! Vai queimar no inferno! Olha a ira de Deus! Se der chance, o diabo te destrói! Não pode perder o emprego! Se continuar assim nunca será ninguém na vida! Vai acabar sozinho! Vai rodar! Vou te dar nota baixa...”

Tenho certeza de que você conhece muitas outras expressões deste tipo.

Em um outro estágio, na esfera social, os meios de comunicação e as instituições de controle utilizam da mesma estratégia para controlar e para fazer a população comprar, consumir sensação de segurança. Por isso a insegurança e o medo são tão importantes.

A segurança passa a ser perseguida quase que doentiamente, mesmo sob situações humilhantes. Em um mundo em que o medo prevaleça, as pessoas não se importam mais em perder tudo o que têm, até a dignidade, para se sentirem seguras. Pagam qualquer preço, fazem qualquer coisa.

Espalhando o medo de doenças se vende remédio.

Espalhando o medo da violência e a impotência do Estado em contê-la se vende armas, carros blindados, segurança privada, cursos de defesa pessoal, alarmes, seguros, grades, câmeras de vigilância e se mantem as pessoas em casa assistindo TV, comendo ansiosamente e depois comprando remédios.

Espalhando o medo do inferno, da ira de Deus ou da miséria humana e financeira se arrecada dízimo e submissão.

Espalhando o medo de crise se matem o empregado obediente no seu emprego por mais infeliz que esteja e por mais humilhado que seja.

Espalhando o medo da escassez e da fome se promove corrida aos supermercados e aumento de consumo.

Espalhando o medo do inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos se vende mais aquecedores, roupas de inverno, pacotes de viagens para regiões mais quentes...

Espalhando o medo do verão mais rigoroso dos últimos 60 anos se vende mais ar condicionados, roupas de verão, pacotes de viagens...

Espalhando o medo do terrorismo se mantém a população obedecendo cegamente a qualquer ordem que contenha a expressão “ameaça de ataque terrorista”.

E uma lista quase infinita de estratégias de manipulação das pessoas por meio do medo poderia ser escrita aqui, mas não há espaço.

Veja como age o marketing, as expressões que usa.


“últimas vagas”; últimas unidades”; “você não pode perder”; “você não pode ficar de fora”; “se quer ter uma carreira de sucesso, garanta a sua matrícula, compre já”; “se cometer estes erros sua empresa vai falir”; “se você não fizer seu concorrente fará”; “você quer mesmo perder espaço no mercado, perder clientes?”; “se continuar fazendo assim vai perder recursos”; “nós temos a solução...”.

O medo do fracasso, de perder, de ficar de fora de algo maravilhoso, de não acompanhar a tendência, de perder o marido se não estiver de acordo com o padrão de beleza, de perder a esposa, de perder a casa, de perder oportunidades, de perder dinheiro se não aprender a fórmula mágica, se não comprar o produto ideal. 

É sempre sobre o medo, a ganância e a vaidade. Os principais anzóis com os quais os humanos são fisgados. Mas o medo é o principal.

Tanto é assim que a tortura é o meio mais eficaz de tirar informação de alguém, pelo medo da dor, da perda, do sofrimento de quem ama, confessa-se até o que não se fez.

Pelo medo as pessoas fazem qualquer coisa.

É por isso que, em um país do tamanho do Brasil, em um planeta do tamanho da terra, com a diversidade que têm, você encontra as mesmas notícias em todos os canais de tevê, em todos os jornais impressos, em todas as publicações, programas de rádio e sites de notícias.  Porque todos seguem a mesma agenda.

É claro que existem infinitas coisas maravilhosas para se mostrar. É claro que acontecem milhões de cosias maravilhosas e horríveis a todo instante no mundo todo. Mas todos os meios de comunicação noticiarão aquele mesmo assassinato, aquele mesmo desastre, aquela mesma crise. Porque obedecem a mesma agenda, estrategicamente pensada e elaborada.

Porque se sabe exatamente que tipo de reação se quer provocar na população, como fazer para obtê-la e qual resultado ela trará.

Isso não é teoria da conspiração, é uma análise pessoal, baseada em formação acadêmica e experiência profissional, mas que você não precisa e não deve aceitar. Só precisa pensar um pouco sobre o que acabou de ler antes de engolir ou de cuspir fora.

Não se trata de demonizar o jornalismo, o marketing ou os meios de comunicação, trata-se de lidar com a informação de forma crítica, analítica, sem aceitá-la ou rejeitá-la de imediato, mas sempre estudando e pensando sobre ela.

Nenhuma notícia ou informação nos chega, seja através da TV, da internet ou da igreja, sem antes receber um tratamento especial para cumprir um propósito determinado. Nenhuma.

Penso nisso tudo como o Mito da Caverna, de Platão.

Se ficarmos somente olhando passivamente para as informações que nos chegam, como as sombras na parede da caverna, perderemos o contato com a realidade, a coragem de encarar o mundo real e até a crença na sua existência, como resultado da desinformação.


sábado, 19 de outubro de 2019

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE MILAGRES



 O que geralmente as pessoas chamam de milagre?



Milagre é aquilo que não poderia acontecer, mas acontece. Algo improvável, meio mágico, ou mágico mesmo, sobrenatural e místico.

Certo? Concorda?

Por exemplo, dizem que uma pessoa se curar de câncer pode ser um milagre. Sair viva de um acidente aéreo certamente é considerado um milagre, pois até dizem que a pessoa nasceu de novo.

Um carro que cai de um viaduto ao lado de uma pessoa e não em cima dela é um milagre? Sim, acho que as pessoas considerariam isso um milagre.

Ah! E tem aqueles milagres do tipo transformar água em vinho, multiplicar pães e peixes, curar e ressuscitar mortos.

Peço desculpas, mas, na minha opinião pessoal, nada disso é milagre.
A cura do câncer é resultado de ensino, pesquisa e extensão.

Sobreviver a acidentes é probabilidade.

E todo o resto pode ser fantasia, ciência, mágica, magia, ilusionismo, ficção, trabalho, acaso, medicina e coisas prováveis.

E milagre é o improvável que acontece. Sobre isso já concordamos lá no primeiro parágrafo deste texto.

A vida é absurdamente improvável.


Absurdamente improvável é eu e você estarmos respirando, andando, falando, aprendendo, enxergando, ouvindo e se emocionando.

É absurdamente improvável acordarmos todas as manhãs.

É absurdamente improvável termos sido gerado dentro da barriga de outro ser humano e saído de lá com vida.

É absurdamente improvável convivermos com tantas espécies, tantas paisagens e cores magníficas em cima de uma pequena bolinha solta no espaço infinito, onde não tem a menor condição de vida.

É absurdamente improvável que meus olhos captem o reflexo da luz, que viaja a 299. 792, 458 metros por segundo, receba uma imagem de cabeça para baixo e meu cérebro a corrija, criando compreensão.

Isso é que é um milagre e não escapar de ser mordido por um cachorro ou conseguir um emprego. Aceitar bobagens deste tipo como milagres é comprar gato por lebre.

Milagre mesmo é acordar a cada manhã, é lembrar e esquecer, é retirar automaticamente o oxigênio do ar para viver, é ter no peito uma bomba trabalhando dia e noite por décadas sem estar ligada em tomada alguma, sem motor, sem fios.

Você já viu a imagem da terra no espaço, daquelas que vai se afastando e mostrando nossa posição na galáxia e a posição da nossa galáxia no Universo?

Pois é. Estamos vivos ali, todo nosso drama de vida se desenvolve ali, naquele grão de poeira, solto em um espaço que não oferece condições de vida.

No espaço onde vivemos não há condição de vida, não há oxigênio, não há gravidade, não há temperatura nem pressão que possamos suportar.

A Terra, apesar de solta neste espaço, tem uma camada misteriosa de oxigênio, gravidade e pressão ideais para que possamos viver.

Está a uma distância exata do sol para termos luz e temperatura ideais para a vida. Um pouco mais perto, tudo seria queimado. Um pouco mais longe, tudo seria congelado.

Como se não bastasse tudo isso, a maior probabilidade é que a Terra se choque com outro corpo e tudo se despedace. Mas não se choca, pelo menos não se chocou ainda.

A maior probabilidade é que ela se afastasse ou se aproximasse do sol e tudo morresse. Mas, por enquanto, isso ainda não aconteceu.

O mais provável é que a atmosfera da terra simplesmente desapareça e a vida com também. Mas isso não acontece.

E aqui estamos. Contrariando toda a lógica. Isso tudo é que é milagre de verdade.

Todas as noites eu apago, durmo por horas, e meu coração continua fazendo o sangue circular por todo o meu corpo. E eu acordo no dia seguinte com a capacidade de dar continuidade à minha vida, com memória organizada, com energia renovada. Pela lógica isso não era para acontecer.

Ser curado de câncer não chega nem perto de ser milagre diante do fato de estamos vivos.

Sair vivo de um acidente é só uma probabilidade, as chances são bem maiores de não acontecer do que de acontecer.

O carro que caiu do viaduto ao meu lado tinha uma infinidade de espaços para ocupar na terra e o mais provável é que não fosse em cima de mim. Milagre seria ele ter me acertado diante de tantas outras opções e não ao contrário.

No entanto, diante das condições planetárias e espaciais em que nos encontramos, diante da inexplicável insistência da vida em nós e do absurdo funcionamento do nosso corpo, o mais provável para nós, a cada segundo, é a morte, não a vida.

Nada é mais mágico, místico, misterioso, milagroso, inusitado, espantoso, impossível do que nosso simples respirar, ver, caminhar, falar, ouvir, dormir, acordar, pensar e se emocionar.

Nada mais milagroso do que nosso viver segundo a segundo.


E aquilo que temos como natural e material, corriqueiro e comum, trivial e banal, é justamente o contrário, é espantoso, é maravilhoso, é o maior de todos os milagres, é o improvável, fantástico, mágico, imponderável, indizível e inacreditável.

O que consideramos milagre não passas de possibilidade e probabilidade, causalidade ou casualidade.

Não há nada de milagroso no resultado de ações, de trabalho, nas consequências dos atos, nos resultados das escolhas. Não é um milagre alcançar a meta de vendas do mês, é trabalho. Não é milagre terminar a faculdade, é resultado de estudo e dedicação.

Milagre é a vida, sem preconceitos, em qualquer forma.

O ser humano tem uma tendência estupenda de naturalizar e banalizar as coisas, até as mais absurdas, assustadoras ou extraordinárias.

Por outro lado, aceita tornar um milagre dos deuses o simples resultado de uma ação deliberada, o produto do acaso ou qualquer outra bobagem.

É compreensível que esta característica seja usada como mecanismo de controle.

O homem que banaliza o extraordinário se apequena, rompe com sua grandeza e magia, nega suas possibilidades e se esvazia.

O vazio do extraordinário em seu viver faz falta, cria necessidade, o que o torna manipulável.

Então, ávido, sedento, torna-se manipulável e aceita ser moldado e controlado, porque anseia pelo extraordinário que lhe falta. O que não faltará é um discipulador disposto a preencher este vazio com sua própria mediocridade e com engano.

Cada respiração sua e cada segundo da sua vida, seja ela como for, seja você quem for, é absolutamente extraordinário, um milagre, uma história de mistério e de magia, é o inusitado.

Somos parte disso. Veja.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

DIA DOS PROFESSORES TAMBÉM É DIA DE REFLEXÃO



Primeiramente preciso dar os parabéns aos bons professores, pela coragem, pelo bom trabalho, pelo amor e pela compreensão da vida e das pessoas, enfim, pela opção de viver aprendendo, porque o bom professor é um eterno aluno.  

E, sendo realista, é preciso admitir que, como em todas as profissões, pode haver professor ruim também. E um mal professor faz um estrago danado, porque professor não lida com coisas, lida com vidas, mesmo que não entenda assim e não perceba desta forma.

Professor influencia até mesmo sem perceber. Quando vê, serviu de exemplo para alguém, inspirou, mudou o rumo de alguma vida só por ser quem é e fazer o que faz.

Uma baita responsabilidade, não é mesmo?

Por isso acho injusto e um despropósito professor ser remunerado por hora, por hora aula, que na verdade é seu tempo de vida.

O dia tem só 24 horas e ele não pode trabalhar as 24 horas do dia, então, para ganhar um pouco melhor, enche os dias e a semana de horas trabalhadas. Ainda assim seu ganho está limitado pelo tempo e não por sua capacidade de realizar, de fazer, de transformar.

É estabelecido um preço para o seu tempo e não um valor sobre seu trabalho, sobre a sua capacidade, sobre a importância do que faz, sobre o quanto e como transforma uma vida, sobre o conhecimento que tem e sua capacidade de usá-lo em benefício do outro.

Já a escola não cobra dos pais dos alunos por hora, cobra pelo que oferece. Quanto mais oferece, mais cobra, dentro do mesmo tempo, do mesmo horário e do mesmo espaço. 

Menos alunos por sala, mais cara a mensalidade. Garantia de mais aprendizado, mais cara é a escola. Maior chance de aprovação em vestibular e concurso ou de arrumar um bom emprego, mais cara é a escola. Melhores professores, com mais conhecimento e formação, maior o valor cobrado.

Mas para o professor, coloca-se um preço pela sua hora de vida, pelo seu tempo e não pelo seu conhecimento.

Por isso o professor não aumenta sua remuneração senão em virtude do seu tempo, e o seu tempo é a sua vida e muitas vezes a sua saúde.

O tempo vendido nunca mais volta, não poderá ser recuperado.


O preço da hora é a mesma, mudando um pouquinho em virtude da titulação e não da prática efetiva, capacidade e conhecimento.

Qual é o valor do seu trabalho, não o preço da sua hora?

Qual é o valor do seu conhecimento, não o preço da sua hora?

Qual é o valor da sua didática, não o preço da sua hora?

Qual é o valor da sua pedagogia, não o preço da sua hora?

Você estudou anos para adquirir um conhecimento e vende o seu tempo de vida e não o seu conhecimento. Quem está vendendo o seu conhecimento é a escola, e por um preço bem alto.

Sim, eu sei que mensurar este valor não é fácil, mas não é impossível.

Também sei que os professores e as professoras são capazes de encontrar uma forma de mensurar o valor que têm seu trabalho e conhecimento e não o seu tempo de vida. Por que este sim é imensurável.

Minha admiração e minha reverência a todos os professores e professoras.

sábado, 28 de setembro de 2019

O QUE É DESINFORMAÇÃO E COMO SE PROTEGER



 Desinformação: a psicodelia dos caretas



A desinformação não é o mesmo que ignorância e também não é apenas uma mentira ou fake News, é muito pior.

Enquanto a ignorância é desconhecimento, é ausência da informação, a desinformação é a distorção proposital e planejada da informação com propósito de enganar quem a consumir, é a negação da verdade através de uma narrativa facciosa.

A ignorância pode ser superada facilmente com informação, estudo, pesquisa e experiência.

A desinformação não, porque a informação distorcida sacia a ignorância, preenche um espaço que estava vazio, mas vem carregada da intenção de quem a colocou ali, de quem a elaborou e não daquele que ignora, que deveria ir livremente e de mente aberta em busca de informação.

O processo para reverter este quadro é um processo de cura. É necessário retirar uma informação distorcida do convencimento e fazer a mente se abrir ao novo, com curiosidade e criticidade.

E este é um processo mais difícil do que simplesmente informar, porque a desinformação utiliza-se de emoções e anseios, de dúvidas e principalmente dos medos de uma pessoa ou grupo social.

Um exemplo.



Suponhamos que os Estados Unidos quisessem tomar o Canadá. Para isso precisaria de apoio e união de todas as instituições governamentais, de segurança, financeiras e da população americana em torno deste projeto de poder. 

Iniciaria, portanto, uma campanha que criasse uma imagem horrível do Canadá, do governo canadense e da sua população, utilizando dos piores medos e das maiores preocupações dos americanos. Criaria ódio aos canadenses, distorcendo fatos, criando fatos e afastando os americanos da verdade, por isso é desinformação.

Na desinformação muitas vezes são aproveitadas situações reais, porém distorcidas, modificadas, exageradas, acrescidas ou subtraídas de elementos de forma a descaracterizá-la, por isso é desinformação.

A campanha dos Estados Unidos contra o Canadá se daria no campo jornalístico, institucional, de forma geral e localizada, mas também através das artes e de outros meios. Por exemplo, poderiam ser financiados filmes em que o vilão seria canadense, a tragédia seria canadense, a origem do mal seria em território canadense.

Assim, em pouco tempo, a maioria do povo americano estaria suplicando por uma invasão ao Canadá e veria esta medida como necessária e urgente para salvar os Estados Unidos e cada cidadão americano de um verdadeiro terror.

Desinformação e poder



A desinformação serve ao poder, a projetos de poder, a poderes constituídos, a manutenção de poderes.

É certo que este tipo de estratégia não é nada novo na história da humanidade. O nazismo a utilizou para demonizar os judeus e todos os que resolveu perseguir e eliminar.

Mas o que antes dependia da circulação dos jornais impressos, de transporte lento ou dos correios, hoje está potencializado pela internet e pela inteligência artificial. O estrago é bem maior e mais profundo.

A desinformação é uma estratégia, fake News e mentiras são apenas soldados dela, parte de algo maior.

Se a NASA tivesse contato com seres de outros planetas e quisesse esconder isso da população mundial, o que ela faria?

Criaria uma narrativa de que a NASA tem contato com seres de outros planetas. Porém uma narrativa completamente inverossímil, com elementos que seduzissem as pessoas, mas como ficção, diversão ou como uma forma de satisfazer frustrações, medos ou esquecer da mediocridade da própria vida. Jamais estas pessoas acreditariam se alguém lhes dissesse que havia outra verdade.

Os maiores instrumentos de desinformação da atualidade são as redes sociais e principalmente os grupos temáticos. Ali a falsa narrativa é compartilhada por alguém conhecido, um amigo, alguém que se admira, sendo difícil crer que se trata de algo falso.

Foram estes instrumentos, nas mãos de empresas e de mercenários, que influenciaram as últimas eleições nos EUA, no Brasil e em outros países. Este desserviço tem causado linchamento, físico e virtual, de pessoas inocentes, tem interferido no trabalho de forças de segurança, governos e de proteção à vida.

Algumas pessoas, ignorante no assunto, passam as mensagens com intenção de ajudar do próximo, e acabam ajudando a proliferar uma informação falsa, além de estar afastando a pessoa da verdade. Porém outras pessoas sabem o que estão fazendo e fazem por dinheiro, por maldade, ódio, mediocridade e pelas mais absurdas motivações, incluindo o fanatismo religioso. Inclusive as religiões são por excelência instrumentos de desinformação.

A desinformação cria a ilusão de que a pessoa sabe a verdade e isso é mil vezes pior do que a ignorância e a dúvida.

As deep fakes



Pedro Burgos, em um artigo da Época, de 20 de setembro de 2019, afirma que os americanos já estão preocupados com o processo eleitoral de 2020 e que a dificuldade de monitorar as atividades de desinformação nas redes nem é a maior das preocupações.

Diz Burgos que “há uma grande preocupação com as “realidades sintéticas”, como os deep fakes e áudios falsos. A tecnologia que permite criar vídeos falsos convincentes a partir de gravações está avançando velozmente. Mesma coisa para as mensagens em áudio. Em um site que já foi tirado do ar, era possível digitar um texto qualquer e ouvir uma personalidade política lendo, com entonação, trejeito e sotaque de volta. É algo assustador, especialmente para nós brasileiros, que nos impressionamos com imitações toscas compartilhadas por WhatsApp. Como as pessoas que combatem boatos dirão ao público que não acredite automaticamente em vídeos, áudios ou imagens?”

Alguns têm chamado estes tempos de desinformação de pós-verdade, seja lá o que isso signifique. Isto se deve à dificuldade cada vez maior de definir o que é verdade e o que não é e à desvalorização da versão que mais poderia se aproximar de algo verdadeiro, apoiada em bases científicas, por exemplo, diante de uma falácia.

Como se proteger?



A melhor maneira de se proteger contra a desinformação é não assumir como verdade absoluta tudo, ou nada, que se recebe pela internet e por outros meios. A pesquisa e o reconhecimento de fontes confiáveis tornou-se crucial neste festival de mentiras e factoides que nos bombardeia diariamente.

As fontes mais confiáveis são as acadêmicas, surgidas de pesquisas sérias, longas e multidisciplinares, referendadas por autoridades no assunto em questão. Mas não só.

É importante comparar teorias, autores e experiências, buscar opinião contrária, despir-se do ódio, do preconceito, da frustração e da mediocridade.

E ainda é válida a boa e velha intuição.


BURGOS, Pedro. A guerra contra a desinformação deve ficar ainda mais difícil. Época, 2019. Disponível em https://epoca.globo.com/coluna-a-guerra-contra-desinformacao-deve-ficar-ainda-mais-dificil-23961914


domingo, 22 de setembro de 2019

CRUZ, COLISEU E FOGUEIRA


Cruz 


É sexta-feira, as famílias saem de suas casas às pressas, eufóricas, animadas. Homens, mulheres e crianças lotam as ruas e de longe se ouve a algazarra, os gritos, assovios e o frenesi da turba, que comemora com alegria e satisfação. É dia de crucificação.

Desta vez são os judeus que fazem justiça, em defesa de suas famílias, de suas crianças, costumes, tradições, religião, em defesa do seu deus, do seu passado e do seu futuro. Querem ver morrer na cruz o homem que tem ameaçado os bons costumes do povo de bem com ideias diferentes.

É dia de festa, as ruas estão cheias e todo o povo convicto e convencido grita alegria, troça e raiva, enquanto uma mãe sofre, irmãos sofrem, amigos sofrem, pelo açoite, o prego, a cruz e a morte do sentenciado.

A justiça foi feita e o povo está satisfeito, pleno da sua certeza.


Coliseu


É domingo, dia de espetáculo. As famílias saem de casa apressadas, eufóricas e alegres, levando suas crianças para se divertirem. Vamos todos ao teatro.

Cinquenta mil pessoas lotam as arquibancadas de mármore branco do maravilhoso teatro, que levou oito anos para ser construído. A plateia está enlouquecida, há muita alegria, gritos, urros, aplausos, os pais levantam as crianças para verem melhor. As famílias estão reunidas, a ocasião foi especialmente promovida pelo imperador para fazer justiça e divertir a população que o apoia e ama ainda mais.

Os portões se abrem, um pobre cristão maltrapilho e faminto aparece assustado, não saber o que fazer, não tem para onde ir. O outro portão se abre e de lá sai um leão faminto, mas com todo o seu poder e força, pronto para saciar a sua fome de carne e a fome de espetáculo da plateia. A fera avança, ataca o homem e arranca as suas vísceras, devorando-as. Homens, mulheres e crianças nas arquibancadas vão ao delírio, gritam e uivam, aplaudem e se sentem seguras, protegidas e satisfeitas. Plenas da suas certezas, voltarão para casa agradecidas e com a consciência tranquila, prontas para mais uma semana de trabalho, afinal, o imperador é bom e está limpado a sociedade romana daquilo que ameaça seus costumes, suas tradições, suas riquezas e suas famílias.

Fogueira


É uma quarta-feira, não tem ninguém em casa, até parece que a cidade foi abandonada. Mas estão todos lá, a rua principal está cheia de gente, estão todos agitados, gritando com euforia e empunhando suas tochas, porque já é noite.

Ouve-se alegria e raiva, o nome de deus e morte, morte aos que são contra deus, aos que blasfemam, aos que contrariam a santa igreja, o santo Papa, o santo inquisidor.

Ela ameaça a fé, a tradição, a religião e a família, foi decidido que ela é uma bruxa e que merece a fogueira, graças a deus. E por isso o povo está em júbilo, se alegra no senhor seu deus, que pune os pecadores, os hereges, os judeus, os protestantes, os homossexuais, os iluministas, os adúlteros, os rebeldes.

A fogueira está montada na frente do templo, amarram a mulher apavorada ao madeiro, a multidão se acumula ao redor aos gritos de bruxa! Herege! Satanás! Queime no inferno! Há os que riem e fazem piada.

O carrasco aproxima sua tocha da lenha seca, o fogo começa a arder, as vestes da mulher ficam em chamas, ela grita, ela grita, ela grita ainda mais, sua pele começa a derreter, seu cabelo queima, seus olhos derramam pelo rosto em chamas e fritam. Um forte cheiro de churrasco se espalha no ar.

A multidão também grita, alegre, feliz e aliviada, plena de sua certeza, porque agora o mundo está livre do demônio. As famílias, a moral, as crianças, a fé, os costumes e tradições, a religião e o capital, por obra de deus e da igreja, estão protegidos. Todos afinal estão salvos. Amém. 

Arenas modernas


Isso é parte da natureza humana: o ódio, a frieza, a demência, o gosto pelo castigo ao diferente, pela contenda, pela condenação pura e simples do outro, com troça e alegria, com júbilo e frenesi, em nome da família, dos costumes, da moral, de algum deus ou religião, de um pretenso bem inquestionável.

Injustificável é, mas está bem registrada em toda a nossa história. Sempre adoramos as cruzes nos Gólgotas, as vias sacras, os coliseus, as fogueiras, as inquisições, os escândalos, o sensacionalismo, os escárnios, a troça, os grupos fechados, as fofocas, os comentários violentos, os ataques, a humilhação alheia, a derrota do outro, o vexame, o bullying. Por isso têm audiência as novelas, os jornais sensacionalistas, a notícias de crimes, os acidentes com mortos, os programas que expõe intimidades, por isso pedimos o linchamento, o massacre, a tortura e o castigo, mais do que a paz.

Recebida a devida autorização, escancaramos no coliseu real e virtual da nossa sociedade, nas fogueiras digitais, nos gólgotas eletrônicos, nos tribunais da nossa santa inquisição interna.

De tempos em tempos, na história da humanidade, grupos humanos, de fervor inquisitorial, receberam autorização e autoridade para se divertirem, queimando. Por mais que os discursos proclamem, isto nada tem a ver com defesa de qualquer bem, é apenas a satisfação do sadismo psicopata, a compensação por uma frustração existencial íntima e profunda, a revelação da miséria contida neste tipo de alma.

Na crucificação, nos espetáculos macabros do coliseu romano, nas condenações e fogueiras da inquisição e em vários outros eventos históricos semelhantes sempre está presente o mesmo pretexto, que é o que é, apenas pretexto.

Estas caraterísticas ficam claras ao serem olhadas de fora, com distanciamento, geralmente depois do seu tempo. É possível ver então o conjunto de pretextos. Geralmente é a defesa de valores, da pátria, de um deus, da religião, da família, dos mais fracos, dos oprimidos, do povo, do capital, das riquezas. E isto independe do lado, da religião, da ideologia, da classe social, do poder aquisitivo, da nação.

Em todas as épocas há aqueles poucos que não se deixam levar, que não compactuam, que não aceitam a autorização para a barbárie, que não disparam com a boiada ao abrir da porteira.

Este deve ser um seleto grupo de seres humanos especiais, que valeria a pena conhecer.

Porque mesmo aquele que está sendo massacrado e reclama da situação, se for chamado a matar e se lhe for dada a oportunidade, também mata com gosto, porque internamente já condenou o seu algoz. Somos bem capazes de fazer aquilo que muito condenamos, e quanto mais condenamos, mais capazes somos de fazer o mesmo.

É o que a história da humanidade mostra, aquele que foi crucificado, passou a crucificar, o que foi queimado quer queimar, o que foi ridicularizado ridicularizou, o que foi escravizado quer escravizar. Estas coisas aconteceram assim no Oriente Médio, na Europa, na África, na Ásia, na América, com quase todos os povos que se dizem civilizados. Embora alguns tenham aprendido mais rápido e evoluído mais e outros ainda não.

Talvez este tipo de barbárie hipocritamente justificada e travestida de defesa do bem só não tenha ocorrido com povos tidos como bárbaros, classificados por nós como selvagens e pagãos.

É possível que não haja nisso necessariamente viés de bem ou de mal, apenas a condição humana e sua natureza se manifestando.

Sabendo disso, de tempos em tempos alguns homens utilizam o marketing do ódio, da barbárie e da hipocrisia em seus projetos de poder. E funciona muito bem, quanto mais violento e insano mais funciona, desde que bem mascarado de luta contra o mal, de guerra a algum inimigo imaginário que ameaça algum tipo de valor.

O marketing do ódio, da violência, da barbárie, da hipocrisia e da imbecilidade arrasta multidões a qualquer massacre, é hipnotizante, capaz de levar um povo a apoiar o extermínio de adultos, idosos e crianças, com prazer e sorriso no rosto e com certeza absoluta da correção dos seus atos.