segunda-feira, 16 de março de 2020

Quem quer ser um super-herói?




“Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.”
                                                             Jean Cocteau


Sabe aquela pessoa que passa 15, 20, 30 anos no mesmo emprego, morando na mesma rua, frequentando os mesmos lugares?

Pois é, ele era assim. Ele era uma destas pessoas.

Não sei você, mas eu já vi pessoas assim falarem com orgulho que estão há 30 anos no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas, vivendo do mesmo jeito.

Não entendo como isso é possível e como um ser humano pode se orgulhar de uma desgraça desta.

Acho que quem vive muito tempo do mesmo jeito, frequentando os mesmos lugares e pensando do mesmo modo já parou de viver sem deixar de existir. Não há mudança, não há progresso, não há crescimento, não há transformação, nada.

Apesar de ele trabalhar há 16 anos em um emprego medíocre, em um subsolo escuro, de ser uma pessoa solitária, metódica, medrosa, ele acalentava no fundo de sua alma o sonho de ser diferente, o sonho de que era um aventureiro corajoso, um homem de inciativa, destemido, com atitude, um revolucionário admirado.

De vez em quando ele tinha uma espécie de apagamento, ficava imaginando ser um tipo de super-herói, realizando alguma proeza, alguma aventura. Imaginava-se um homem corajoso, de iniciativa, sedutor e que a mulher por quem ele nutria uma paixão secreta se enchia de admiração por ele e se entregava em seus braços apaixonada.

Vai, confessa, você reconhece isto, talvez até já tenha se imaginado assim.

Ele se imaginava fazendo o contrário do que fazia no seu dia-a-dia, porque agia com medo, com timidez e com baixa autoestima. Achava que uma vida interessante só era possível para aqueles que tinham algo especial, não para ele, que era só uma pessoa comum, sem dinheiro nem dons especiais.

Refiro-me ao protagonista e à trama do filme A Vida Secreta de Walter Mitty, de 2013, que conta a história de um simples encarregado da seção de negativos de uma revista. Ele permaneceu no mesmo emprego por 16 anos e não viveu nenhuma aventura do tipo que ele imaginava.

Por outro lado, ele era muito bom no seu trabalho, dedicado e competente. O que ele fazia garantia a fama e o sucesso do fotógrafo e da revista, mas ele mesmo não aparecia, vivia em ambientes com pouca luz, lidando com negativos de fotografias, em completo anonimato. O patrão e os colegas de cargos mais altos e interessantes o depreciavam por isso e ele mesmo se desvalorizava.

Certo dia sumiu o negativo da foto que seria a última capa da revista, uma foto histórica, que prometia encerrar a existência da revista em grande estilo.
Walter Mitty então resolveu ir atrás do fotógrafo para saber o que havia acontecido com aquele negativo, mas o fotógrafo vivia viajando pelo mundo. 


Foi aí que, movido por grande curiosidade, juntando toda a coragem que conseguiu reunir, indo contra a vontade do seu chefe, que o ridicularizou e humilhou diante dos seus colegas de trabalho, algumas mudanças e descobertas aconteceram.  Meio no susto, é verdade, quase que por acaso, mas a vida é assim mesmo, para apanhar sol, ou chuva, só é preciso sair de dentro de casa.

Na pista do fotografo ele foi para a Groenlândia, lá subiu num helicóptero com um piloto bêbado para chegar num navio, pulou no mar, brigou com um tubarão, foi resgatado pelo navio, navegou até a Islândia, escapou da erupção de um vulcão e não encontrando o fotógrafo voltou para casa. Foi demitido da revista.

Em casa, com sua mãe, descobriu que o fotógrafo estava no Afeganistão, na Cordilheira do Himalaia, para fotografar uma espécie rara de tigre, e foi para lá.

Depois de uma longa viagem, encontrou-se com o fotógrafo e descobriu que o negativo da foto que procurava estava na casa dele mesmo, dentro de uma carteira de couro que o fotógrafo havia mandado para ele de presente e que ele havia jogado no lixo.

Paramos por aqui o spoiler, porque vale a pena assistir ao filme, além da linda história, tem cenas engraçadas, trilha sonora linda e fotografia de tirar o fôlego.

Ao final do filme, vem a frase de Jean Cocteau na cabeça da gente: “Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez”.

A lição


Walter Mitty venceu o medo, soltou as amarras que ele mesmo criou para si, tomou a decisão de fazer e então fez.

Mas fez a partir da sua humildade, da sua responsabilidade e paixão em realizar o trabalho que amava.

Não fez para ficar famoso ou rico, fez por amor, por paixão, e então se enriqueceu.

Ele descobriu que era capaz de realizar o que quisesse, até as mais inusitadas aventuras. E precisou apenas de um primeiro passo, uma primeira decisão.

Tudo o que ele imaginava nos seus apagamentos imaginativos, nas suas viagens mentais, acabou acontecendo, porque “a imaginação é mais poderosa do que o conhecimento”, disse Albert Einstein.

Quando somos crianças é comum brincarmos de super-heróis e nos imaginarmos realizando as maravilhas que os super-heróis das telas e dos quadrinhos realizam. Mais tarde, na adolescência, seguimos imaginando que realizaremos coisas incríveis “quando crescer”, quando ficarmos independentes.

Depois de adultos somos engolidos pelas responsabilidades, pela rotina, pelo cotidiano, pelo medo, pela ganância, pelas dúvidas, pela insegurança e acabamos deixando morrer os sonhos e a imaginação.

A lição de Walter Mitty é que cada pessoa tem em si um super-herói, não como dos quadrinhos da infância, mas como ser humano, sempre que busca o que ama com amor, coragem e dedicação, não se deixando desvalorizar, jamais, nem por outros nem por si mesmo.

Se o fotógrafo era famoso e aventureiro, era também por causa daquele que cuidava de forma primorosa dos negativos das suas fotos. Ninguém é super-herói sozinho, mas no ato de compartilhar a vida todos somos, não importa a função que temos.

Walter Mitty descobriu que o potencial para o extraordinário estava dentro dele e só podia ser libertado por ele mesmo. Sem esta convicção de nada adiantava o mundo oferecer a ele as oportunidades mais incríveis e com ela até o mais singelo pode se tornar uma grande aventura.

Vivemos em uma era em que há muitos exemplos reais de que a vida pode ser extraordinária se a gente soltar as amarras e dar o primeiro passo, acreditar e perseguir nossos sonhos.

Às vezes será necessário uma ou duas doses de rebeldia, ousadia e coragem, como foi para Walter Mitty, ou passaremos toda uma vida nos porões dos nossos medos, de nossas inseguranças, das amarras e das limitações que a sociedade nos coloca e que nós mesmo colocamos em nossa mente.

E é verdade que o  Universo conspira para a realização dos sonhos daqueles que não desistem deles e vão em busca com força e vontade inquebrantável.

E estes são super-heróis para si mesmos.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A MORTE DA VERDADE (não li o livro de Michiko Kakutani e este artigo não é baseado nele)



Um é dois, diferente para cada um.



Há poucos dias Alice foi visitar Sérgio, ficou lá por cerca de 2 horas e almoçaram juntos. Foram casados por cerca de 5 anos e estão separados há mais de 20, uma separação conflituosa.

Para Sérgio,  aquela era uma visita desagradável, que ele preferia não ter que receber, mas como a casa não era sua, não teve como negar. Sérgio apenas suportou, com sentimento de asco, mas tratou Alice com educação, ainda que desejasse o contrário. Ficou aliviado com o fim da visita e a saída de Alice.

Sérgio entende que se no mundo há mais de 7 bilhões de habitantes e bastante espaço, ninguém precisa estar com quem não gosta, com quem não lhe faz bem, com quem lhe causa repulsa. Não vê necessidade de aproximação ou de trabalhar resgates de relacionamentos saturados, que já adoeceram e morreram.

Para Alice, foi um encontro de resgate e de perdão, como ela mesma relatou a um amigo pouco depois de sair de lá. Entendeu a postura de Sérgio como de constrangimento diante da força de seu olhar e da sua presença e não de repulsa. Leu o semblante de Sérgio como de sofrimento pelas dificuldades que havia passado e não como asco. Saiu feliz e satisfeita com a visita, à qual atribuiu leveza por causa de uma seção místico-psíquica que havia realizado com um terapeuta, há algum tempo, a centenas de quilômetros dali.
Talvez um destes dois insista em dizer que a sua versão é a verdade. Talvez alguém diga que cada um tem a sua verdade e outro ainda afirme que entre uma e outra há uma verdade absoluta e independente da interpretação que cada um possa fazer.
Opiniões, apenas isso: opiniões.

Leituras, são só leituras.


Um evento que envolveu duas pessoas e cada uma fez a sua leitura, de forma que pudesse se sentir bem e que pudesse acomodar a situação em si da melhor forma, ou da forma que lhe foi possível. E foi assim porque não poderia ter sido diferente, tudo ocorreu dentro das condições de cada ator.

Leituras, é isso o que fazemos, dentro da condição que temos fazemos leitura das situações, das pessoas, do mundo, da vida e de nós mesmos, da forma mais conveniente possível para nós.

Há duas expressões já muito gastas que prefiro não utilizar: “com certeza” e “na verdade”. Não gosto nem de uma nem de outra, mas elas vêm sendo utilizadas à exaustão faz algum tempo, ao ponto de saturação. São indicativas de que seres humanos necessitam pensar em termos de certezas e verdades. Minha leitura pessoal.

Algumas vezes posso aceitar que é a minha verdade e não a do outro. Mas ainda assim tenho a inclinação de querer que ela seja assumida pelos demais, que seja a verdade predominante. Outras vezes posso querer impor minha verdade aos outros. Sendo que nem sequer ela existe, apenas a leitura feita em um dado momento por um certo indivíduo.

Fiquei surpreso quando aprendi que nem o que vejo diante dos meus olhos é a verdade. Se vejo uma árvore não estou vendo uma árvore, não estou recebendo a verdade daquela árvore, a sua integralidade, estou apenas recebendo luz refletida nela. Meus olhos inclusive a recebem em um sentido, de cabeça para baixo, por exemplo, e meu cérebro é que vira, que interpreta, que faz a leitura de uma forma que me seja possível entender aquilo, aquela luz que me chega, não a árvore.

Talvez meu tato, paladar, olfato e minha audição se aproximem mais da verdade da árvore do que a minha visão. No entanto, confio muito mais no que vejo, sou escravo da visão, supervalorizo este  sentido em detrimento dos outros, e de outros.

Este é um aspecto da morte da verdade: ela não existe como valor absoluto.
Mas alguém poderia argumentar que existe sim, que a leitura que cada um faz é a sua verdade. Ainda assim é apenas uma leitura possível, pois para uma mesma pessoa outras leituras são possíveis, até mesmo contrárias àquela feita anteriormente.

Não há verdade imutável, mas relativa. Em outro momento, em outra situação, com outros sentimentos e informações tanto Alice como Sérgio leriam o mesmo evento de forma totalmente diferente e a verdade deles seria outra.

Ora, mas há realidades que são verdades imutáveis, uma rocha é uma rocha, é dura e não se move. Não, não necessariamente, depende em relação a que, depende de qual ponto de vista se lê.

Uma rocha se move o tempo todo, pois é feita de átomos e não existe átomo parado em condições naturais. Ela não se move aos nossos olhos, para a percepção dos nossos sentidos, mas em si está se movendo.

E ela não é maciça e dura, é uma renda, cheia de espaços vazios por onde é possível atravessar. Assim como nosso corpo ou uma chapa de aço. Para vermos assim bastaria que diminuíssemos bastante de tamanho. Então nosso corpo é sólido, a chapa de aço e a rocha também, mas para nós, para nossos olhos, para nosso tamanho. Se fôssemos do tamanho de uma bactéria veríamos nosso corpo como vemos as estrelas no céu, a via láctea.

Leituras possíveis de acordo com o ponto de vista.

A segunda morte da verdade.


A humanidade já teve inúmeras certezas e verdades que, com o tempo e a ciência, se mostraram verdadeiros absurdos. Nada garante que não estejamos repetindo o mesmo erro.

Porém há outro aspecto da morte da verdade, típico da pós-modernidade.
Talvez estejamos vivendo um momento de instabilidade, de transição entre uma humanidade que acreditava em verdades absolutas e uma humanidade que sabe que elas não existem, que aprendeu a viver com inconstâncias e incertezas, que sabe que tudo é apenas leitura, instável, fútil e transitória, ainda que dure mil anos.

Refiro-me ao extremismo próprio deste momento de transição. Em que a humanidade começa a entender que cada um tem a sua verdade, que ela deve ser respeitada, mas que também pode mudar a qualquer momento, é relativa e não absoluta.

Soma-se a isso a possibilidade de manifestar-se e de compartilhar essas leituras, como verdades próprias, para milhares de pessoas em todo o mundo.
Uma criança que não sabe o que fazer direito com o brinquedo novo tão evoluído.

Então temos um fato histórico comprovado cientificamente, por exemplo, a viagem de Cristóvão Colombo e sua chegada ao continente americano.
As leituras daqueles eventos mudam e podem ser extremamente diferentes. Múltiplas interpretações sobre as viagens e descobertas de Colombo, ou de Cabral, são possíveis, mas negar integralmente a existência de que algo deste tipo aconteceu é uma postura extrema e uma escolha individual temerosa.

Assim como é extremo e temeroso alguém afirmar, no século XXI, que a terra é um disco plano e dizer que isto é verdade porque é a sua verdade e tem o direito de fazer tal afirmação.

OK. Está certo. A pessoa tem todo o direito de crer nisso sem ser internada por uma patologia psíquica. Talvez possa afirmar também que holocausto nunca existiu, que nenhum judeu foi morto, que no mundo nunca houve escravidão.

Comportamento típico de quem está aprendendo a lidar com a liberdade de fazer leituras e escolhas, mas não está sabendo lidar muito bem com isso. Descobrimos recentemente que podemos escolher em que acreditar, que somos nós que escolhemos o que é verdade, conforme for mais conveniente para nós, independente do que existe no mundo.

Mas ao experimentar este novo mundo, além de aprender a fazer escolhas, humanos tendem a forçar a barra para impor suas escolha e interpretação aos outros e demonizam todo aquele que não compartilha da mesma visão, que discorda.  

É neste estágio que estamos. Aprendendo a lidar com a liberdade de escolher nossas verdades, ainda em desequilíbrio, indo para extremos, desafiando as possibilidades, cambaleante como criança aprendendo a caminhar.
E, como crianças, estamos experimentando os limites, algumas vezes abraçando absurdos. 

Por isso se tem observado ultimamente comportamentos anti-ciência, parece que se pode ignorá-la, que não precisamos mais dela nem do arcabouço que produziu até agora, pois fazemos escolhas, escolhemos nossas próprias verdades, escolhemos nossas crenças, fabricamos nossas verdades e nossas próprias interpretações, já sabemos andar sozinhos.

É claro que alguns espertalhões já perceberam este momento e estão se aproveitando da ignorância, do automatismo, da má fé de alguns, da ganância, da insegurança e principalmente do medo.

Por isso se estabeleceu uma guerra, não entre verdades, não entre armas, não entre ciências, não entre argumentos ou ideologias, mas entre narrativas, pois o que importa no momento são as narrativas.

A narrativa vencedora é aquela que faz maior séquito, que converte mais, que faz mais crentes, e é isso que proporciona poder, domínio e riqueza aos narradores.

Seus seguidores, dependentes da humana necessidade de verdade, certeza e de conveniência para se sentirem bem, escolhem crer em uma versão, em uma leitura, estabelecendo-a como verdade, independente de quão absurda ela possa ser.

É a criança ainda insegura, que está aprendendo a andar, testando limites e possibilidades, agarrando-se no que for mais conveniente com medo de cair. Estamos no período de transição entre engatinhar e andar com as próprias pernas. Por isso às vezes nos jogamos no chão e voltamos a engatinhar.

O risco de cair existe, é iminente, podemos ser enganados, trapaceados, doutrinados, podemos fazer escolhas equivocadas, tropeçar e desabar escada abaixo, quebrando o próprio pescoço e o de outros.

A criança tem a proteção e ajuda dos pais, no nosso caso, neste período de transição pós-moderna, estamos no meio de pessoas muito más, inescrupulosas, frias, insensíveis.

É bom ficar atento e tomar cuidado com as leituras. Procurar olhar para todos os lados, prestar atenção, não assumir verdades nem certezas de fora impulsiva e imediata só porque parece ser conveniente aos nossos propósitos mais prementes.

É bom aprender o mais rápido possível a conviver com insegurança, com o transitório, com a distância do chão, com a falta de alguém a nos carregar, a nos dirigir, a nos levar pela mão.

domingo, 19 de janeiro de 2020

O FARELO DE BOLO, O AVIÃO E O CALABOUÇO



Quanto mais eu aprendo, menos eu sei




O meu pensamento inicial sobre saber e não saber seguia uma lógica que com o tempo mostrou-se ilusória. A lógica era bem simples: se eu leio eu aprendo e, portanto, se eu aprendo eu sei, tenho conhecimento.

E eu aplicava este modelo para quase tudo. Se eu estudo eu aprendo e, portanto, agora sei. Se eu viajo, vou até o lugar e vejo, experimento, portanto eu passo a conhecê-lo.

Só que não...
Não é bem assim.

Com o passar dos anos, com os estudos, com as leituras e viagens fui percebendo que havia algo errado com este modelo, ele não estava funcionando.

Em princípio pensei que eu devia ser tão idiota que era incapaz de aprender, por isso quanto mais eu estudava e lia, mais burro eu me sentia, quanto mais viajava, mais desconhecedor eu me sentia. Eu me sentia cada vez menor ao invés de me sentir maior, eu tinha a sensação de que sabia menos e não mais.

Então lembrei de “O enigma de Kaspar Hauser”.

Um filme alemão antigo, de 1974, dirigido por Werner Herzog. O filme conta a história de um jovem que foi mantido isolado em um calabouço desde que nasceu, sem nunca ter contato com pessoas nem com o mundo. Ele não desenvolveu linguagem e não sabia o que existia além daquele calabouço, não sabia como era o mundo. Seu mundo estava ali, dentro daquelas quatro paredes de pedra.

Portanto, naquelas condições, aquele jovem apenas conhecia o que existia na frente de seus olhos, ele não fazia ideia do que ignorava, não fazia ideia de que existia algo mais. Quando o encontraram e o retiraram dali, levaram-no para uma cidade grande para tentar civilizá-lo e então ele conheceu o mundo. Ou melhor, ele tomou consciência de que existia um vasto mundo a ser conhecido, tornou-se consciente do que ignorava, do que desconhecia.

E assim entendi que eu estava enganado quando eu aprendia ou ia nos lugares e acomodava em mim a convicção de que sabia. Não, eu tomava consciência do que ignorava, do que não sabia e do que havia ainda por ser conhecido, visto, vivido e aprendido.


Quanto mais eu rodava o mundo, menor eu me tornava e tornava-me consciente de que conhecia pouco, porque tomava consciência do tamanhão do mundo.

Quanto mais aprendo, mais sei que não sei nada diante do tamanhão dos mistérios da vida e das ciências.

Quando vejo um avião passando lá no céu ele me parece pequeno e simples, apenas um objeto voando, um brilho prateado no azul. Mas quando vou ao aeroporto e chego perto de um, vejo que ele é enorme e de grande complexidade, que tem uma infinidade de coisas que desconheço, então torno-me consciente muito mais do que ignoro em um avião do que conheço dele.

Eu tinha muita vontade de conhecer o deserto, que me parecia, de longe, ser algo simples, só a monotonia da terra seca e quente. Mas quando eu estive lá tomei consciência do seu tamanho, complexidade, multiplicidade e da imensidão a ser conhecida, aí é que fui saber o que eu ignorava em um deserto.

Só quando passei pelo curso de Letras na Universidade foi que tomei consciência do quanto eu não sabia sobre linguagem, literatura e o mundo da escrita. E quanto mais entro neste território, maior ele fica, menos eu sei, mais eu sei que ignoro.

 Assim, quanto mais conheço mais aumenta a parte que desconheço, pois tomo consciência dela. Quase posso dizer que aprender é emburrecer.
Se o jovem Kaspar Hauser não tivesse saído para o mundo não saberia o tamanho que ele tem e o quanto ignorava dele. Supondo que ao ver o mundo, ao aprender algumas coisas novas, com falar, ele olhasse apenas para o conhecimento adquirido, convencendo-se dele, fixando verdades, então estaria tragicamente se lançando novamente ao calabouço. Mas desta vez ao calabouço da sua própria mente, do seu convencimento, da sua ilusão de conhecimento e da cegueira proposital sobre o que ainda ignora, que é praticamente tudo.



Compreendi que se fecho minha visão sobre o que acho que sei, deixando de fora a consciência de tudo o que ignoro, então estarei reduzindo o mundo ao meu tamanho, ao tamanho do que conheço, o que é bem pouco, bem pequeno e bem simples.   

Se me aproximo do avião sei mais dele do que sabia ao vê-lo passando no céu? Não, sei que ignoro mais dele do que ignorava ao vê-lo passando no céu.

Se saio da minha casa, da minha cidade, para viajar pelo mundo, conheço mais dele? Não, sei que ignoro mais dele do que ignorava antes de percorrê-lo.

Então conhecer e encher-se de respostas? Não, conhecer é encher-se de perguntas.

Então o que acontecia comigo quando eu lia, estudava, viajava e achava que estava me enchendo de conhecimento? Acontecia que eu estava fixando meu olhar, minha atenção, apenas no adquirido, como se o recortasse e isolasse do restante da realidade. A fatia me saciava e eu esquecia que ela saiu de um bolo enorme ainda desconhecido para mim.

E minha postura passava a ser lamentavelmente a de alguém que conhece, e infelizmente que acha que conhece mais que outros. Então eu queria orgulhosamente expor minha sabedoria, dar a minha opinião, pois achava que ela era importante para os outros, mesmo que não soubessem disso nem a tivessem solicitado.


Claro que olhando para aquela minúscula fatia como se fosse o bolo todo, eu realmente era um sábio. Porém olhando para o enorme bolo de onde experimentei um minúsculo farelo, eu era um grande ignorante. E é isso que sou, embora não raro já tenha chamado alguém de burro, pelo menos em pensamento, infelizmente. Mas agora entendo que esta atitude testemunha sobre mim, mostra a minha realidade, não a dele.

Vergonhosamente cheguei a pensar mesmo que eu estava me tornando um sábio, uma pessoa que conhecia a verdade e que talvez fosse mesmo superior a outros. Mas quando aprendo algo, quanto viajo a algum lugar, consigo ver então o quanto não sei, o quanto não conheço, o quanto tenho a aprender, o quanto sou ignorante.

A primeira postura não foi tomada à toa, ela me tornava grande e seguro, fazia eu esquecer da minha pequenez e vulnerabilidade. A segunda postura, ao contrário, torna-me pequeno diante do mundo, da vida e de seus mistérios. Sinto-me até mesmo incapaz e vulnerável, mas me parece mais realista, parece mais a minha cara.

Claro que se eu olhasse para aquele farelo adquirido e ainda o aumentasse um pouco, esquecendo de onde ele saiu, realmente eu era um gigante poderoso que comeu todo o bolo, que o absorveu integralmente. Assim como de longe pareço maior do que um avião, o que não é verdade.  

Quando olho para o farelo que adquiri, em comparação com o bolo todo, não sou nada e tenho tudo para aprender e conhecer. Assim não caio na ilusão desastrosa de me achar sábio, conhecedor, melhor ou maior do que outro alguém. Assim não reduzo o mundo ao meu tamanho, enxergo-me pequeno nele, ignorante dele, com tudo para aprender.



Este é um exercício que faço, um treinamento, nem sempre com sucesso.





sábado, 11 de janeiro de 2020

O PEQUENO PRÍNCIPE (Antoine de Saint-Exupéry)



Ilusões e fantasias de gente grande




O pequeno príncipe, publicado originalmente em abril de 1943, é uma das obras do aviador e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, um conde, filho de conde, segundo sua biografia, que nasceu em Lion em 1900 e morreu em 1944, quando teve seu avião abatido pelas forças alemãs durante uma das suas missões pela Europa em guerra. Não presenciou, portanto, o grande sucesso da sua obra.

Abre parênteses.

Uma curiosidade: temos no Brasil uma via chamada de Avenida Pequeno Príncipe, que é a principal via de acesso à praia do Campeche, em Florianópolis, Santa Catarina. O nome é uma homenagem da cidade a Antoine de Saint-Exupéry, que usou algumas vezes um campo de pouso da praia do Campeche para suas aterrissagens na Ilha de Santa Catarina no início do século XX.

Fecha parênteses.

Vamos às ilusões e fantasias de gente grande expostas pela sabedoria das crianças.

Talvez você já tenha lido o livro ou de alguma outra forma tenha conhecido a história e esteja pensando que é meio óbvio falar de ilusões e fantasias em O Pequeno Príncipe, pois é a história de um principezinho que morava em um planeta pouco maior que ele e veio para a Terra.

Ilusões e fantasias que envolvem viagem espacial, carneiros dentro de caixas e elefantes dentro de jiboias. Tem um aviador perdido no deserto, longe da civilização, com seu avião estragado, que provavelmente estava delirando por causa das condições adversas extremas, argumentaria a pessoa grande.

Não, não, não! Nada disso, não é esta a ilusão e a fantasia que me chama a atenção neste livro.

Para mim ele expõe outro tipo de ilusão e de fantasia, reais, que não são benéficas e saudáveis como estas que figuram em primeiro plano no enredo desta narrativa de ficção.

Os diálogos entre o aviador e o Pequeno Príncipe, as histórias, as conversas com animais e plantas, as personagens incomuns cheias de simbologias, o ambiente próprio das fábulas, tudo isso é produto da arte e da imaginação. A linguagem é a matéria prima que a imaginação usou para criar esta linda fábula.

Mas a arte pisa em um calo.



A arte pisa no nosso calo, talvez por isso o autor faça o alerta de que o livro não foi escrito para crianças, mas para adultos, ou para as crianças que porventura ainda possam sobreviver nos adultos. Toca na ferida da pessoa grande, importante, séria, ocupada que nos tornamos e provoca reflexões sobre nossa maneira de ver o mundo. Com as limitações próprias de quem perdeu capacidades da infância, por exemplo, a capacidade de enxergar, de ver além do que os olhos são capazes de nos mostrar.

Porque pessoas grandes precisam de tudo explicadinho, perderam a capacidade de imaginar devido a seriedade da vida adulta. Por isso é preciso desenhar jiboias abertas, para que elas vejam o elefante dentro e não confundam com um chapéu.

Há nas pessoas grandes do Pequeno Príncipe a ilusão doentia de controle, de domínio, de supremacia, de que é possível fugir daquilo que cativa sem conflitos. O monarca tem a ilusão de que todo e qualquer homem é seu súdito e que ele poderá controlar a todos o tempo todo, sem rebelião. O vaidoso tem a ilusão de que todos o admiram todo o tempo. O bêbado pensa que pode esquecer a vergonha de ser um bêbado, bebendo. O homem de negócios acha que é sério porque lida com números e possui riquezas, na ilusão de que pode fazer um cheque das estrelas do céu, depositar no banco e assim ser a melhor das pessoas grandes.  O pobre acendedor de lampiões (profissão existente antes de haver luz elétrica nas ruas) fantasia que até o nascer e o pôr do sol se adequarão aos regulamentos. O geógrafo tinha a ilusão de transferir o mundo para os seus livros enormes sem levantar a bunda da escrivaninha e que essa era a mais nobre das atividades.

E desta forma, na terra, um planeta enorme, lindo e rico, as pessoas grandes, tomadas por loucas fantasias e insanas ilusões se amontoam em poucos e pequenos espaços deixando enormes extensões inabitadas e ainda assim vivem solitárias. Aumentam cada vez mais a velocidade, mas não fazem ideia de onde querem ir.

Na terra, o principezinho constatou que os homens não têm imaginação e uns repetem o que os outros dizem. Cultivam milhares de rosas amontoadas em um mesmo jardim e se sentem pobres ao ponto de quererem matar raposas. Tomados de estranhas ilusões de superioridade, de progresso, de controle e posse as pessoas grandes são solitárias vivendo na multidão, vivem na miséria tendo mais do que o necessário, porque não sabem cativar e desconhecem o essencial.

As pessoas grandes, em O Pequeno Príncipe, perderam o contato com a realidade e a habilidade de imaginar, tornaram-se desertos. Levam a sério os oásis ilusórios da cultura humana, visão provocada pelo rigor das condições extremas, pela febre e desidratação em que se colocam.


Enquanto isso o Pequeno Príncipe mantem o equilíbrio entre a sua criança interior e seu adulto dando a importância devida a cada coisa, nem mais nem menos, sem se deixar levar pelas convenções nem pelas ilusões de pessoas grandes.

E o aviador encontra-se entre um e outro, ora ele é tomado pelo adulto ocupado com coisas importantes, como arrumar seu avião nem que seja a marteladas, ora ele se deixa conquistar pela imaginação e pela leveza do seu pequeno príncipe interior.

Ao final, a obra mergulha de repente em uma espiritualidade mágica e se conecta com o seu início, deixando a pessoa grande órfã daquelas explicações minuciosas e detalhistas, dos números e dados de comprovação que tanto necessita, mas não vai ter. Não desta vez.


Bom, agora que já perdi a conta de quantas vezes li este maravilhoso livro (o carrego comigo há anos), quero trocá-lo por outro, seja definitivamente ou para destrocar depois. Se você tem um livro e deseja trocar comigo, deixe seu recado aí embaixo, nos comentários. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A CONQUISTA DA FELICIDADE (Bertrand Russell)



Cem anos entre ontem e hoje


A conquista da felicidade é um livro que comprei há muito tempo e não havia lido, ele estava esquecido aqui em casa, até neste início de ano, quando eu procurava algo para ler e dei de cara com ele. 
Então fiquei pensando: 
porque ler, porque não ler, porque ler, porque não ler, acabei lendo.

É uma obra datada dos anos 30 do século XX, em que o filósofo e matemático britânico apresenta suas observações e análises acerca da felicidade e da infelicidade. Ele aborda, de forma simples e clara, em linguagem acessível, diversas áreas da vida humana como trabalho, tédio, excitação, entusiasmo, interesses pessoais e coletivos, sentimento de pecado, preocupação com a opinião dos outros, manias de perseguição, família, carreira, fadiga, inveja, afeição, esforço e resignação entre outros.

Mas o que mais me chamou a atenção neste livro nem foram as análises e observações de Russell acerca de felicidade e da infelicidade, porque entendo, contrariando a palavra de ordem da nossa época, que o que importa mesmo não é ser feliz.

O que me surpreende mesmo é a data do livro, 1930.


O livro foi publicado originalmente em 1930, no Reino Unido, o que significa que as ideias que ele contém foram sendo construídas, pensadas, elaboradas e depois escritas pela mente de um erudito, ao longo dos anos 1920 pelo menos e em ambiente europeu. Russell morreu em 1970, vítima de uma gripe, aos 98 anos. Portanto em 1930 ele tinha 58 anos, foi até aquele momento da sua vida que elaborou e escreveu A Conquista da Felicidade.

Agora, quase que por acaso, o livro cai nas mãos de um brasileiro, nada erudito, 53 anos, quase a mesma idade do autor à época, na entrada dos anos 20, do século XXI, a 100 anos de distância.

E o tema é justamente aquele mais presente na vida das pessoas, o que todos mais perseguem, o que todos mais querem: a felicidade. Tudo o que se faz é na tentativa de ser feliz, cada um à sua maneira. Felicidade é inclusive o que desejamos, pelo menos retoricamente, às pessoas nas datas especiais, aniversários, ano novo...

Mudamos o corpo para sermos felizes, compramos para sermos felizes, estudamos, casamos, nos reproduzimos, trabalhamos e saímos para nos divertir na esperança de sermos felizes. Quem assim não se sente, mantém a esperança de um dia finalmente ser feliz, por obra talvez do acaso ou de algum deus, que seja.

Até me vem à mente a imagem do cachorro que leva uma linguiça amarrada numa vara e presa nele. Já viu isso? Ele anda sempre atrás daquela linguiça na esperança de comê-la, sentindo o cheirinho, sentindo que está tão perto, mas nunca irá alcançá-la, pois não percebe que está presa nele mesmo.

Veja só que curioso o que Russell diz da sua época.


Ele inicia o livro dizendo que se alguém é feliz, deve perceber ao seu redor quantos o são realmente, quantos estão representando que são felizes e quantos são realmente infelizes. Afirma que, se observarmos o comportamento das pessoas, na multidão entregue às horas de trabalho nota-se ansiedade, concentração excessiva, dispepsia, incapacidade para a diversão, desconsideração pelo próximo, indiferença a tudo que não seja a luta cotidiana. Não lhe parece familiar?


Ao longo de todo o livro, enquanto aborda variados aspectos da vida humana, o autor cita situações pessoais e sociais que podem ser causas de infelicidade. E enquanto eu lia até esquecia de vez em quando que ele tinha como referência pelo menos as duas primeiras décadas do século XX e não do século XXI, então eu “atualizava” em minha mente a data do livro para o passado.

Tanto nas questões pessoais como nas sociais, à revelia de toda a “evolução” e da grande diferença que há entre as duas épocas, a vida humana mantém a mesma configuração. Os meios avançaram, a velocidade aumentou, surgiram facilidades e confortos, mas os problemas são os mesmos, foram apenas potencializados. E é claro que temos novos conflitos, próprios da nossa época, que se somam aos que vem de lá, do passado, e aos que são próprios do humano, que parecem eternos, perenes, inabaláveis.

Falando em conflitos humanos perenes e inabaláveis, só abrindo um parêntese, um dia destes, aqui na minha cidade, um irmão matou o outro e a comoção foi geral, todos comentando o horror, o absurdo de um irmão matar o outro. E eu pensei com meus botões, que o fratricídio foi o primeiro assassinado do gênesis judaico/cristão. Parece que Caim abriu os trabalhos e a humanidade se mantém em sua trilha, nada mudou, alguns seguem praticando externamente e outros internamente. Mas o fato é que, de uma forma geral, o homem pouco muda a sua natureza, não importa a época, a tecnologia, a modernidade, os avanços.

A questão da felicidade é colocada por Russell como uma conquista pessoal, individual. Bem no comecinho do livro, a partir da página 13, o autor afirma que já escreveu antes sobre as mudanças que deveriam ser feitas no sistema social (lembre-se, a referência é o início do século XX, no Reino Unido) para favorecer a felicidade. E ele cita algumas das mudanças que sugeriu: descobrir um jeito de evitar as guerras, a exploração econômica e a educação baseada na crueldade e no medo.

Entretanto diz Russel que evitar a guerra é uma necessidade vital para a nossa civilização, mas isso não é possível enquanto os homens forem tão infelizes que “o extermínio mutuo lhes pareça menos terrível do que enfrentar continuamente a luz do dia”. Evitar a perpetuação da pobreza é necessário, mas de que adiantaria todos se tornarem ricos, “se também os ricos são desgraçados?” “A educação na crueldade e no medo é má, mas aqueles que são escravos destas paixões não podem oferecer outro tipo de educação”.

Russell diz então que em A conquista da felicidade resolveu focar na questão individual e pergunta: “Que pode fazer um homem ou uma mulher, aqui e agora, no meio da nossa nostálgica sociedade, para conquistar a felicidade?” Lembrando mais uma vez que esta sociedade, este aqui e agora a que ele se refere, é de 100 anos atrás, mas que surpreendentemente dialoga perfeitamente com nossa época, compartilhando muitas características comuns, feito comadres no chá da tarde, para ser mais britânico.

Seja assassinando irmãos seja amargando a infelicidade, parece que nós, humanos, não temos conseguido evoluir muito nestes aspectos. Mudamos muitas coisas, sim, a violência não é mais a mesma, foi refinada, camuflada, o que pode ser bem pior. Aquela educação na crueldade e no medo a que Russell se refere, por exemplo, agora tem outras embalagens, com cores diferentes, os medos são outros. 


Pode não ser mais o medo de ser espancado pelo professor ou pelo pai, o que não significa que não se use mais a ameaça, a crueldade e o medo na educação. Por exemplo o medo de não corresponder às expectativas, de decepcionar, de não se tornar alguém na vida, de ter que ouvir as lamentações e broncas dos pais, de perder coisas, de perder privilégios, de ser visto como um fracassado, de ser ridicularizado pelos parentes e colegas, de ser rotulado, taxado, carimbado, marcado para sempre.

A crueldade agora vem dos colegas. Se Russell aponta que os mestres eram escravos de paixões que os tornavam cruéis e por isso não podiam oferecer outro tipo de educação, hoje esta crueldade está nos alunos, nos colegas de classe. Ao longo do tempo a crueldade dos mestres, dos pais e das escolas foi transferida para os alunos, como não poderia deixar de ser. A discriminação, a exclusão, a ridicularização, o bullying e até a violência física se faz entre os iguais, o que torna tudo isso bem mais dolorido.

Por isso que quando se lê este Russell de 100 anos atrás temos a sensação de que ele escreveu ontem. O que é bastante triste, ver que não evoluímos na conquista de nossa felicidade. Ao contrário, somos um século mais infelizes, seja como indivíduos seja como sociedade. Talvez tenhamos desenvolvido boas técnicas para camuflar nossa infelicidade, criamos novas máscaras, nos aperfeiçoamos na arte de encenar e nisso realmente evoluímos.

O que Russell não ficou sabendo é que neste início de século somos mais. Mais ansiosos, mais deprimidos, mais medrosos, mais reprimidos, mais solitários, mais individualistas, mais apressados, mais indelicados e mais mentirosos. Se ele visse e comparasse esta época com a que ele viveu, esta sociedade com a sociedade que ele observou, iria ter material para pensar e escrever por mais 100 anos. Mas talvez mudasse o tema e o título fosse: A conquista do humano. Pois parece que primeiro temos que nos tornar humanos, temos que aprender a sermos humanos, para depois pensar em felicidade.

Russell percebeu muito bem, há 100 anos, que não temos possibilidade de construirmos ou pensarmos em um projeto de felicidade coletivamente, como sociedade ou com espécie. Mas ele acreditava na felicidade e achava que individualmente, mediante certos procedimentos, colocando em prática certas técnicas, tomando certos cuidados, sabendo lidar com os próprios fantasmas e proteger-se das nossas humanas mazelas, uma pessoa pode ser feliz.

De minha parte, agora que já li o livro, quero trocar por outro, de preferência um romance que eu não tenha lido e que me interesse. Pode ser uma troca definitiva ou para destrocar depois.
Alguém?