segunda-feira, 10 de junho de 2019

VOCÊ JAMAIS SERÁ UM FRACASSO


Se alguém nega quem realmente é, elimina a chance de mudar e ser diferente


Lembrei de fazer uma ressalva, um alerta, que acho importante.

Eu mesmo já publiquei aqui no blog muitos textos incentivando as pessoas a perseguirem seus sonhos, a buscarem a vida que desejam, a se transformarem e a transformarem suas vidas.

Inclusive um dos meus lemas é que “um querer visceral abre qualquer porta, alcança qualquer objetivo”.

E hoje em dia há uma avalanche de trabalhos deste tipo, mentores e coaches e vídeos e palestras e workshops e imersões, e-books sem fim.

Todos dizendo que você pode ser o melhor, que deve alcançar a excelência, que pode viver como quiser, que pode chegar onde quiser e alcançar qualquer coisa que sonhar.

Todos sabem as 7 estratégias infalíveis para alguma coisa, os 10 erros que você jamais poderá cometer e os 13 passos para algum tipo de sucesso.

Todos têm a receita infalível para você alcançar um milhão antes dos 22 anos de idade, para vender horrores pela internet até dormindo ou para ser feliz para sempre.

E Deus o livre de ficar sem aquela estratégia criada especialmente para pessoas como você, aí você não será ninguém mesmo.

Pois muito bem.


Exageros à parte, você sabe que é assim, está vendo por você mesmo e eu concordo que muito disso é extremamente positivo e verdadeiro.

Quando incentivo você, dou exemplo meu, que dormi na rua e passei forme, mas me formei em uma Universidade Federal e me tornei o que eu queria ser, um professor.

Que já fui viciado em drogas horríveis e me transformei, superei e venci definitivamente.

Então ninguém pode me dizer que um ser humano não é capaz de transformar a sua vida no que ele quiser. Não para mim.

Eu sei que posso transformar a minha vida no que eu quiser porque já fiz isso mais de uma vez.

Já estive no inferno e no céu, sei que posso passear entre os dois se eu quiser. Porque já fiz isso e fiz a minha escolha. Porque é assim que sou ou foi assim que as coisas se fizeram para mim.


Porém, tem algo que eu gostaria de lembrar, de reforçar.


O pódio não tem lugar para todo mundo. No camarote não cabe todo mundo. E a base da pirâmide social não cabe no seu topo.

Não há lugar para todo mundo no tapete vermelho do sucesso, entre os holofotes e aplausos.

Sempre terá que ter alguém fazendo o trabalho simples e menos glamouroso. Indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, cuidando do trivial, pegando transporte público, ralando de segunda a sábado e batendo o ponto.

Não dá para temos somente nômades digitais de sucesso no mundo, especuladores econômicos profissionais, investidores milionários, mentores estrelas, palestrantes popstar, donos de e-commerce, influencers, blogueiros disputados, produtores etc.

Não tem como. O mecanismo é assim, alguém tem que produzir e alguém tem que consumir, tudo o que você pensar.

Não digo isso para desestimular ou desanimar ninguém e ainda bem que não tenho este poder.

Só gostaria que você considerasse comigo a hipótese de que cada pessoa está onde deve estar, é quem tem que ser e faz o que tem que fazer. Se não fosse assim não seria mais ela mesma, seria outro.

Quando fizer diferente, muito bem. Mas quando não fizer, muito bem também.
Olhando para o passado, pense se você não foi exatamente quem tinha que ser, esteve onde tinha que estar e fez o que tinha que fazer.

Se você não foi diferente é porque não podia ser, do contrário não seria mais você. E quem você é hoje não existiria. Você é o resultado do que viveu.

Se o cara tem que ir de bicicleta todos os dias da semana para a borracharia onde trabalha, porque é assim que ele sustenta os filhos, este cara é O CARA.

E ele não é menos do que o influencer de sucesso, que a cada semana faz postagens no Instagram de um lugar diferente do mundo.

Se ele mudar de estilo de vida, ótimo! Mas alguém ainda terá que estar na borracharia.

Se não mudar, precisa encontrar a si mesmo, sentir-se pleno e realizado naquilo que vive. Sem se sentir frustrado, derrotado, fracassado, porque não alcançou o que imaginou, ou o que alguém disse que ele devia fazer. Isto tornaria a vida um pesadelo, infeliz.

Você nunca será um fracassado, haja o que houver, faça o que fizer, seja quem for, você é quem tem que ser, fez o que tinha que fazer.

Não importa o que digam. Você é um sucesso naquilo que é e naquilo que faz.
Mesmo que não faça nada, não é um fracasso, pois tem o seu significado.

O mundo precisa de todos, todos são importantes, inclusive, e as vezes muito mais, no anonimato.

Portanto, este meu alerta, é só uma preocupação para que ninguém se sinta derrotado ou frustrado por não ter conseguido trilhar o caminho apontado por alguém de sucesso, famoso na internet.

Saiba ler a vida, saiba ler o que dizem estas pessoas, saiba ter persistência e disciplina para lutar pelo que quer, mas sabendo que você já é um sucesso, já é importante, já é alguém na vida.

Nunca se sinta um fracassado, porque você não é.





sábado, 8 de junho de 2019

O BÊBADO





No bairro onde eu cresci havia um campinho de futebol em um terreno baldio bem na esquina. Quase todos os dias a galerinha se reunia lá para uma pelada.

A rua Tiradentes era uma ladeira e cruzava a avenida Independência bem no pé do morro.

Ali, naquele cruzamento, ficava, de um lado, o nosso campinho de futebol; do outro lado o bar do seu Nelo; do outro o CD, era como chamávamos o colégio particular Dignitas, e em frente ao colégio, na outra esquina, era o escritório de contabilidade do Rui.  

Ao lado do escritório, no começo da subida da ladeira, tinha um terreno baldio, arborizado, com mato alto, onde havia um galinheiro abandonado, era um barraco de restos de tábuas velhas.

E naquele bairro tinha um bêbado, era “o bêbado”, porque bêbado não tem nome, é só “o bêbado”, era assim que nos referíamos a ele.

Era preto feito carvão e tudo o que fazia era beber. Pedia dinheiro para beber e bebia para pedir dinheiro. Bebia para dormir e acordava para beber. Todos os dias, o dia inteiro, era assim que ele vivia: indo do bar para o seu barraco e do barraco ao bar. 

Morava naquele terreno baldio, naquele galinheiro abandonado.

Nunca o vimos com ninguém, não tinha amigos, era o estorvo do bairro, não tinha serventia alguma, ninguém dava a mínima atenção para aquele preto bêbado.

Alguns tinham medo dele, cruzavam a rua e o evitavam por causa do medo ou do cheiro.

Outros lhe davam dinheiro ou cachaça para ele sair de perto e ficar um tempo entocado naquele seu galinheiro sujo, bebendo, sem dar ao bairro o desprazer da sua aparência.

Nunca se teve notícia de que ele tenha cometido algum crime ou feito algo de ruim para alguém, a não ser ter nascido e existir do jeito que era. E por isso servia de chacota para alguns garotos, que o chamavam de preto bêbado fedorento.

Mas ninguém podia imaginar que o bêbado seria capaz de fazer o que fez um dia.

Estávamos jogando no campinho e eu estava no gol, de onde eu tinha uma visão completa do cruzamento. Devia ser umas seis horas da tarde, mas ainda não estava escuro.

De lá onde eu estava vi quando o bêbado saiu do terreno baldio, atravessou a rua e entrou no bar do seu Nelo.

Também vi quando o Rui fechou o escritório de contabilidade e foi embora, no mesmo momento em que o Boca passou com seu fusca, descarga aberta, som alto, agitando o bairro como sempre fazia, ladeira acima.

Não te falei do Boca? Desculpa, esqueci.

O Boca era o filho do dono da fábrica de calçados que tinha no bairro, onde metade dos moradores trabalhavam.

Vi um menino de bicicleta vermelha, devia ter uns 10 anos, vindo na avenida Independência, se aproximando do bar do seu Nelo, na direção da esquina. Quase no mesmo momento em que o bêbado saia do bar com algo enrolado em folhas de jornal velho.

O ronco forte do fusca do Boca surgiu de novo, desta vez ladeira abaixo, em alta velocidade, na direção do cruzamento.

O garoto de bicicleta não havia percebido a situação. De onde ele estava não podia ver a ladeira nem o fusca por causa do bar na esquina e da sua preocupação com o bêbado na calçada.

Paramos o jogo. 
O fusca não parou.

O garoto se aproximou da esquina.

O bêbado, já perto do cruzamento, jogou fora o que tinha na mão, saiu correndo, alcançou o garoto da bicicleta e o empurrou com força, ficando ele mesmo na frente do carro desgovernado que o acertou em cheio.

O bêbado foi jogado longe, a garrafa de pinga se estilhaçou no asfalto, o garoto caiu da bicicleta e o fusca passou direto pelo cruzamento, sem parar.

Corremos todos para ver de perto, o bêbado jazia inerte no asfalto, corpo mole, quebrado, poça de sangue embaixo da cabeça, olhos arregalados, lábios entreabertos.

O garoto da bicicleta estava branco, tremendo, assustado, mas estava bem, apenas uns arranhões.

Da garrafa quebrada no chão exalava um cheiro forte e adocicado, me aproximei e nas folhas de jornal molhadas de cachaça ainda pude ler:

“Professor do Colégio Dignitas é acusado de pedofilia”


“Prefeito é afastado por fraude na licitação da merenda escolar”


“Confusão na câmara de vereadores em virtude da disputa pela presidência da casa.”




quinta-feira, 6 de junho de 2019

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO E INTERNET


 Ler é muito mais do que reconhecer letrinhas

Quadro do pintor Almeida Júnior - Leitura

Saber descodificar o código escrito não é saber ler.

Ou seja, saber desvendar os símbolos gráficos (as letras, por exemplo) transformando-os em sons, em palavras, não significa saber ler.

Alguém pode olhar para um papel com a letra do Hino Nacional brasileiro, saber cantar ou declamar lindamente a primeira estofe e não fazer a mínima ideia do que ela está dizendo.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo heroico o brado retumbante.”

Esta pessoa sabe transformar o código escrito em palavras, sabe descodificar a grafia, mas não sabe ler.

Isto é o que se chama de analfabetismo funcional.

Dei o exemplo da letra do Hino Nacional, mas o analfabetismo funcional ocorre com relação a todo texto escrito, como um contrato, uma lei, a pergunta de uma questão de concurso.

Já vi muitos alunos se darem mal em uma prova por não saberem ler a pergunta, por não entender o enunciado da questão.

A pessoa lê, mas não entende o que lê, não compreende, então não lê, não interpreta, não sabe fazer uma leitura do que está escrito.


Saber ler é perceber as intenções, as motivações, os objetivos, as estratégias, a linguagem figurada, os intervalos e pontuações, tanto o que está no texto como o que está fora dele, em seu entorno.

Saber ler vai além do texto escrito, significa saber interpretar o mundo, as falas, as expressões e feições, os gestos, as indiretas, os duplos sentidos, as entrelinhas, as omissões, as pegadinhas e até os silêncios.

E o hipertexto?


Hipertexto é como certos especialistas chamam a web.

A internet é um grande, um enorme, um gigantesco texto escrito por milhões de pessoas, em centenas de idiomas, com milhões de páginas, sendo produzido incessantemente nos mais variados formatos.

Se antigamente alguém tinha uma enciclopédia na estante, com 23 volumes, com origem e autoria bem definidas, com assuntos, conteúdos e formatos limitados pelo livro, agora tem o hipertexto, o texto virtual.

Nele não se tem o controle da autoria nem da origem e nem de conteúdo. E o hipertexto é constituído de texto escrito, áudio, vídeo, gráficos, imagens, etc. Muda constantemente, é dinâmico.

Se uma pessoa tem dificuldade de fazer a leitura de uma estofe do hino do seu país, de uma questão de prova ou de uma cláusula de contrato, como poderá lidar com a leitura do hipertexto?

Não tendo condições de ler, mas tendo que lidar com ele diariamente, quais poderão ser as consequências?

A primeira consequência é aquela mesma que ocorre se alguém come algo que o seu organismo não é capaz de digerir.

Indigestão, intoxicação, congestão, algo deste tipo.

O organismo geralmente põe para fora aquilo que não digere, vomita.

A grande quantidade de informação recebida, mas não lida, não compreendida, é vomitada, é repetida, como fazem os papagaios, ou os robôs, sem saberem direito o que estão fazendo.

Até que toda aquela informação cause uma intoxicação, provoque uma grande confusão e não possa ser aproveitada positivamente, tornando-se disfuncional, uma doença.

Onde se aprende a ler, afinal?


Não basta ir para a escola para aprender a ler, lá nos ensinam a descodificar os símbolos gráficos e, quando muito, nos dão uma pequena noção de leitura, mas não há tempo nem espaço na escola moderna para praticar a leitura.

A escola está  ocupada com a sua função principal, formar “chão de fábrica”, formar a base da pirâmide, o alicerce da sociedade, o que sustentará o alto e servirá ao topo.

A escola está ocupada em “em-formar”, colocar na forma, normatizar as pessoas para que sejam úteis na sociedade, ou seja, para que produzam e consumam, já que sem esta engrenagem a máquina quebra.

Um ou outro que se destaca consegue escapar deste grande moedor de carne. Estes são os que aprenderam a ler, porque foram mais além da escola.
Tem gente que não gosta da escola, com razão, mas é preciso ir muito além dela e não aquém.

O que faz alguém se tornar um bom jogador de futebol, um bom skatista, um bom guitarrista, um bom bailarino?

Treino, treino e treino.

Então o que é necessário para aprender a ler e ser um bom leitor?

Ler, ler e ler.

Desenvolver repertório, familiaridade, conhecimento e profundidade de leitura.

Um leitor bem formado e experiente tem condições de selecionar o que lê e encontrar o que procura e precisa no texto e no hipertexto, formando opinião e pensamento próprios.

Alguém que nunca viu um peixe na vida não sabe escolher, selecionar, definir o mais adequado para as suas necessidades, pode levar o que o vendedor lhe disser que é bom, mesmo estando estragado.

Mergulhado no hipertexto, alguém que não sabe ler ou que mal sabe ler fica a mercê de indicações, do que chega até ele, daquilo que mais se tem repetido, do assunto da moda, da interpretação da moda, dos hiperlinks, dos achismos mascarados de certezas e conhecimento, dos algoritmos, dos robôs.

E um mar de ignorância esperta avança sobre incautos iludidos, que cacarejam razões e empunham bravatas morais vazias.

Em nome do medo de dizer eu não sei, eu não tenho certeza, eu estou em dúvida, eu não conheço este assunto, eu preciso de ajuda, eu preciso pensar melhor, estudar melhor, quero conhecer uma opinião diferente e não vou me posicionar agora.  

Para proteger o orgulho e esconder a ignorância, a garganta vomita o clichê do momento em repetição insuportavelmente oca, surda, estéril, seca.

Tudo por falta de leitura, de interpretação de texto, escrito, falado, desenhado.

Porque não fomos mais além da escola, adiante dela.

Quem fica na escola, reclamando que ela já é muito, já é demais, sai dela sem saber ler e está fadado a repetir o que mandarem, o que estiver na moda, o jargão do momento.

Eu não sei quantos livros eu já li, sei que leio constantemente desde a adolescência, devo ter lido centenas de livros, mas eu sei que não começou na escola, não começou por causa da escola e nunca li nenhum livro na escola.

Meu primeiro livro, o primeiro que lembro, veio de uma prima minha, que me emprestou dizendo ser uma boa história.

O título é Papillon, do escritor francês Henri Charrière, dependendo do formato tem entre 500 e mais de 700 páginas. Devorei em uma semana e daí em diante nunca mais parei de ler.

E foi assim que aprendi a ler, que desenvolvi o gosto e o hábito, foi fora da escola, em casa, trocando livros com amigos e amigas e conversando sobre eles. Depois, bem mais tarde, na faculdade de Letras, apenas aprimorei minha leitura.

E por que este conhecimento é importante?


Pelo mesmo motivo que um soldado não é largado no campo de batalha sem arma nem proteção.

Nossas crianças, adolescentes e jovens mergulham com facilidade no hipertexto e lá permanecem por bastante tempo.

Com que arma? Com qual proteção?

A melhor arma e a melhor proteção é saberem ler e interpretar com profundidade o que tem diante de si. Mas a escola não está ensinando, não está preparando as crianças para isto. Pelo menos não de forma ostensiva e disseminada aqui no Brasil.

Em outros países, como na Finlândia, já é uma matéria, uma disciplina escolar, o ensino da leitura na web, inclusive preparando as crianças para lidar com fake news, ao mesmo tempo em que exercitam a leitura de jornais impressos.

De acordo com várias pesquisas nacionais e internacionais o brasileiro é dos piores leitores do mundo.

E que é professor e professora sabe das dificuldades que nossos estudantes, de uma forma geral, têm com a interpretação e compreensão de textos.

Neste contexto, não saber ler é como ser cego e perambular pela web sem bengala e sem cão guia. A qualquer momento se pode esbarrar com o indesejável e acabar se machucando.

E a cegueira da falta de leitura e interpretação não fica restrita ao hipertexto, estende-se cá para fora, tornando-se um enorme entrave ao desenvolvimento pessoal, em uma sociedade letrada e complexa como esta em que vivemos.





quarta-feira, 5 de junho de 2019

PREVINA-SE CONTRA O EMBURRECIMENTO


Todos querem se prevenir contra o envelhecimento, mas poucos se previnem contra o emburrecimento.

Pois dizem que é possível emburrecer, ou seja, é possível perder QI, sofrer redução da capacidade cognitiva.

Recentemente surgiram algumas publicações argumentando que os seres humanos estão emburrecendo.

Algumas destas reportagens explicam como este processo está ocorrendo, inclusive do ponto de vista da genética.

Outras trazem resultados de pesquisas com dados e números que comprovam a redução de QI nos últimos anos em determinados grupos estudados.

Assim como também sugiram opiniões contrárias, rebatendo as pesquisas.

Como professor que lida com a linguagem, que lida com cognição, fiquei pensando sobre o assunto e sobre a forma como nossa mente trabalha em determinadas situações.

Nós, seres humanos, temos um sistema operacional fantástico, com bilhões de neurônios, conexões e sinapses, que ao longo da nossa evolução nos deu a capacidade de pensar de forma inigualável, sem paralelo na natureza ou na tecnologia (pelo menos por enquanto).

Além disso, temos outros tipos de inteligências, como a inteligência emocional, que nos dá a capacidade de sentir empatia, por exemplo.

O homem é capaz, portanto, de pensar sobre a realidade de diferentes ângulos, é capaz de fazer abstrações, capaz de pensar sobre si mesmo, sobre sua consciência e sobre o próprio processo de pensar. E estas habilidades são exclusivas dos seres humanos.

Por exemplo: o ser humano é capaz de compreender um fenômeno, um acontecimento, pelo seu ponto de vista, por outras dezenas de pontos de vista, é capaz de fazer relações com outros conhecimentos e experiências que tenha, é capaz de duvidar, criticar, fazer projeções e muito mais.

Portanto, o pensamento de forma linear, do tipo causa e consequência, pura e simples, sem considerar variáveis, diferentes contextos, possibilidades, outras experiências pessoais, dados históricos e estatísticos, não dá conta da maioria das situações da vida.

E a visão dualista do mundo não é a única possível e nem de longe é a mais adequada de se manter.

Alto e baixo, certo e errado, melhor e pior, bem e mal, grande e pequeno, céu e inferno, felicidade e alegria, dentro e fora, amor e ódio, benção e maldição, fazem parte apenas de um modelo mental, bem próprio dos ocidentais.

Nem todos os povos da terra veem o mundo deste jeito, a  partir deste modelo mental, dividindo o mundo sempre em dois opostos.

Alguns povos asiáticos, por exemplo, veem os fenômenos e ocorrências da vida  a partir da multiplicidade, da visão sistêmica e multidisciplinar, nunca dividindo em dois opostos.

Entre o grande e o pequeno existe o médio, e o pequeno pode ser grade e o grade pode ser pequeno conforme o ponto de vista e o tamanho de quem olha.

O que parece um bem hoje poderá se mostrar uma tragédia mais adiante e o que é considerado um mal pode se mostrar uma benção mais tarde.

A visão dualista é bastante reducionista e de alcance bem limitado.

Deixe-me dar um exemplo.


Faz um tempinho assisti a um vídeo na internet em que um rapaz dizia estar apresentando a prova cabal de que a terra é plana, colocando uma régua de 30 cm paralela ao horizonte de um mar calmo, estando ele em cima de um prédio.

Esta conclusão é tirada da seguinte matriz.

o horizonte sobre o mar calmo ficou paralelo à régua de 30 centímetros que está na minha mão, logo a terra toda é plana e não redonda, logo a ideia de que a terra é redonda é ........

O todo é julgado a partir de uma pequena parte, sem mais considerações e ponto final.

E o raciocínio vai se dando de forma linear.

Assim:

“se estou certo disso > logo > a consequência é ...... > logo > a conclusão óbvia é ..... > logo > .......

Mas existe outra forma de pensar fora desta matriz.

Antes de concluir e se posicionar, a pessoa pensa, considera o tamanho da régua em relação ao tamanho do planeta Terra; a sua posição em relação a linha do horizonte; o relevo do local em que está fazendo a experiência; as abundantes imagens feitas a partir dos milhares de satélites que circulam a terra, inclusive da estação espacial; a comparação da Terra com a lua, com o sol e com quase todos os planetas que vemos daqui; a visão que se tem em uma viagem de avião a 10, 11 mil pés de altitude, as incontáveis viagens por terra e mar circulando o nosso planeta e muito mais.

Nesta forma de raciocínio apareceram dados de muitas direções, de diferentes disciplinas, que levaram o pensamento para deferentes possibilidades.

A primeira mente, que chegou à conclusão e convicção de forma imediata e rígida, funcionou de um jeito.

A segunda, que antes de concluir ponderou, fez considerações, lembrou de dados, fatos e experiências, funcionou de outro.

Certo? Você consegue entender esta diferença?

Então vamos adiante.

Há uma condição ainda pior do que aquela da primeira pessoa do exemplo que acabei de descrever.

É a condição mental da pessoa que assiste alguém fazer a experiência e chegar à conclusão de que, portanto, a terra é plana e assume para si imediatamente tal convicção sem sequer pensar, refletir, ponderar. Toma a experiência como prova irrefutável e ponto final.

Esta condição mental é ainda mais delicada.

A mesma matriz de raciocínio, da experiência com a régua e a conclusão de que a Terra é plana, é aplicada a muitos outros contextos, infelizmente, por ser uma matriz.

É a mesma matriz e o mesmo funcionamento cognitivo quando se julga o todo a partir de uma das partes em uma sequência linear.

Uma mulher cometeu um erro, logo nenhuma presta, logo.....

Um professor cometeu um erro, logo nenhum presta, logo...

A teoria tal é falha em determinado ponto, logo ela deve ser descartada por completo e....

A ideologia X é falha em um aspecto, logo ela não presta em seu todo, logo quem a segue também deve ser completamente descartado...

Há casos de ataques em escolas americanas por atiradores, logo o sistema educacional americano não presta, os professores americanos não prestam e a escola americana não serve para nenhuma criança.

Eu acredito nele, logo o que ele disse é verdade, se esta é a verdade, logo todo o resto é inverdade.

Este tipo de raciocínio funciona dentro de uma matriz, com padrões rígidos, que não aceita contradições e é baseada em convicção, em certezas absolutas e verdades irrefutáveis.  

Porque, desde que se esteja funcionando dentro de uma matriz, torna-se difícil pensar fora dela, abrir espaço para o novo e o contraditório. Por isso a presença de intransigência.

Um posicionamento bem típico da esquizofrenia, inclusive.

Este funcionamento é muito semelhante, senão igual, ao funcionamento do adestramento de animais.

Se eu obedecer ao comando, logo eu ganho petisco.

Se eu for no pote azul tem comida, se eu for no vermelho tem eletrochoque, logo só vou no pote azul.

Se eu pressionar o botão cai ração, se eu não apertar o botão fico com fome, logo vou pressionar o botão sempre que sentir necessidade de comer.

Se eu errar vou para o inferno e se acertar vou para o céu, logo quero acertar sempre, logo quem erra está condenado e....

Na primeira infância o cérebro funciona mais ou menos assim em um determinado momento.

Se eu chorar, ganho leite, se eu não chorar não ganho leite, logo sempre que eu quiser leite vou berrar e sempre que eu berrar ganho atenção, logo se eu berrar e ninguém vier.....

O cérebro do homem das cavernas funcionava mais ou menos assim.

Um deles saiu da caverna à noite e foi devorado por um tigre. Logo, sair da caverna à noite significa ser devorado por um tigre, ponto.

Esta é uma matriz de pensamento primitiva, que está no mundo animal, nos homens das cavernas, nos bebês e não há nenhum mal nela.

É natural, porém faz parte de um estágio, um estágio apenas, uma possibilidade apenas, somente um recurso, dos mais simples e limitados.

O homem das cavernas precisava evoluir para não morrer de fome e para não se tornar o jantar de alguém. E evoluiu.

Mas nós não precisamos mais disso, hoje nós só precisamos apertar botões, o que pode ser perigoso para nossa evolução e pode ser um dos motivos de emburrecimento.

Por outro lado, indivíduos das gerações mais recentes têm promovido uma revolução nas relações de trabalho e em todas as áreas da nossa vida não somente através dos avanços tecnológicos, mas através de um olhar diferente sobre o mundo, sobre a vida e sobre as relações humanas.

A prevenção contra o emburrecimento é a leitura, o pensamento, a reflexão e o contato direto com culturas diferentes, de mente aberta, considerando que nossa mente sempre poderá estar enganada e que nem tudo é tão simples como apertar um botão nem tão imediato como dividir por dois.

O homem tem medo do que não entende, por isso assume um entendimento tão rapidamente quanto possível para se sentir seguro. E se agarra a ele mesmo sendo o maior dos absurdos, quando não lhe sobra alternativa, por não dispõe de outras ferramentas cognitivas.

Mas é possível viver muito bem ser concluir, sem ter certezas, sem entender, sem classificar, sem organizar e cadastrar, sem rotular e nomear, sem explicar, sem ter respostas, sem estar convicto.

Em um constante buscar e aprender e reformular.