quarta-feira, 19 de junho de 2019

QUE EDUCAÇÃO É ESSA?

Você, professor, tem o conhecimento, mas está vendendo seu tempo, suas horas, seus dias, sua vida? 




Peço desculpas aos meus colegas professores, mas vou fazer um pouco o advogado do diabo neste artigo.

A intensão não é ofender nem desmerecer nosso trabalho, é só incomodar mesmo, porque o que é cômodo pode não ser muito produtivo nem transformador.


Espero provocar perguntas, questionamentos e indignação. 

Educação, ao meu ver, de educador, é uma ciência, uma disciplina acadêmica, uma área de pesquisa e uma prática, que deveria contribuir para a construção de um mundo melhor para as pessoas. 

Repito: para as pessoas.

Deveria contribuir para a construção de uma sociedade humana em que se pudesse viver dignamente, feliz e em comunhão, sentindo-se seguro e realizado.

É assim que é?

Ao que me parece, a escola e a família deveriam ser os lugares privilegiados da educação, aquela que constrói um mundo melhor para uma sociedade melhor.  Mas nem uma nem outra e nem mesmo a religião estão dando conta de construí-la, de desenvolvê-la e de praticá-la. Salvo raras exceções.

Chego a esta opinião ao olhar para o lado, ao meu redor, para o mundo em que vivo, para a vida das pessoas e para as relações sociais físicas e virtuais.

E você? 
Consegue ver?  
Consegue enxergar além das aparências e dos discursos? 
Consegue ver por baixo das máscaras?

Chego a me perguntar se a escola faz mais bem ou mais mal para as nossas crianças e jovens hoje em dia.

Eu sei que há um pudor enorme com relação à escola e falar contra ela ou questioná-la é quase um sacrilégio, mas aquilo que não se repensa, que não se critica e renova, tende a mofar e a escola está ficando com cheirinho de mofo.

É na escola que os diferentes começam a ser massacrados pelo bullying e é para lá que eles têm voltados armados de revolta, desalento e pistolas. 
Não tem sido assim?

A educação escolar não prepara para o século XXI, não ensina, como diz Augusto Cury, as pessoas a lidarem com suas emoções.

Não ensina, como diz Edgar Morin, as pessoas a lidarem com a complexidade e a terem uma visão sistêmica do mundo e da vida.

A escola não ensina as pessoas a viverem na atual configuração social.

E o resultado que temos é uma sociedade doente.

Aliás, a escola está conseguindo inclusive adoecer os professores, aí imaginem como fica tudo.


Reforma? 

Não. 

Não sei se este sistema pode ser reformado, algumas vezes o melhor é demolir e construir um novo.

Um novo ente de educação erigido no lugar deste que aí está.

Sem pudor. Com utopia, pode ser, mas sem pudor de desconstruir o que adoece, o que não funciona mais.

Ah, sim, serve para ensinar Matemática, Português, Geografia, História e algumas técnicas profissionais. 

Mas que matemática e que português se tem ensinado na escola, que ninguém aguenta mais?

Sou professor de Português e lecionei por muitos anos, e por isso posso afirmar sem medo de errar que o que se ensina nesta disciplina ainda hoje é ridículo.

Com raríssimas exceções, as escolas nem para ensinar a ler e escrever estão servindo mais.

Todas as pesquisas e dados e resultados e experiências comprovam isso.

Então, se não ensina a ler e escrever, não ensina ética, não ensina a lidar com as emoções e conflitos sociais, não ensina a conviver e compartilhar, se não ensina respeito, compaixão e solidariedade, se não ensina a pensar de forma sistêmica e crítica nem a estudar e aprender, serve para quê?

Se não serve ao propósito de construção de um mundo melhor e de uma sociedade mais justa, a qual propósito tem servido a “educação”, a escola?

Tem servido para a competitividade?
Para a exclusão?
Para a seleção?
Para a programação e encaixotamento das mentes?
Sim, pois a gênese da escola é esta, para isso foram criadas, com este propósito, e a ele ainda servem. Já disse Foucault. 

É na escola que a deseducação acontece. 
E até que alguém tenha coragem de encarar esta realidade, ela continuará deseducando.


Um movimento de pais, de professores e de estudantes em prol da desconstrução deste modelo de educação escolar, bichado, antiquado, inadequado e nocivo, e que ao mesmo tempo construa uma nova proposta de ente educador, para o século XXI, seria, talvez, uma alternativa.

Parafraseando Humberto Maturana, antes de decidir que educação queremos para o Brasil, precisamos decidir que Brasil queremos, que sociedade queremos, que cidadãos queremos. 

Em que momento fizemos isso no Brasil? 

Quando você como pai, como educador ou como estudante opinou sobre estas questões? 

Quando você participou, mesmo sendo educador, de discussões e construções deste tipo que realmente tenham resultado em práticas?

Quem é pai de criança ou jovem em idade escolar sabe que mesmo pagando uma escola particular cara, seus filhos ainda não sabem o que a escola passou anos tentando ensinar. 

E a culpa não é do aluno, é da escola. 

Porque por outros meios as crianças têm aprendido outras coisas de forma rápida e com facilidade.

Há professores dando 60 aulas por semana, para salas com 30 ou 40 alunos, ainda usando um livro didático e uma lousa, enquanto o jovem tem o mundo na palma da mão, ao alcance de alguns toques na tela, sem precisar sequer olhar. 

Se a escola fosse mesmo um lugar saudável não teríamos um número tão grande de professores em tratamento com medicação de uso psiquiátrico e de crianças tomando Ritalina e sabe-se lá mais o quê. 


Se a nossa loucura já está atingindo as crianças, isso deveria ser um alerta vermelho para repensarmos a educação, a escola e a nossa saúde mental e emocional.

Professor estuda anos, adquire um conhecimento especializado e aprende como passar este conhecimento.

Depois chega na escola e vende seu tempo.

Ou seja, o professor vende seu tempo para a escola, mas ela vende o conhecimento do professor para a sua clientela.

É isso que significa trabalhar por hora/aula, você, professor, está vendendo seu tempo e seu dia só tem 24 horas, por isso não consegue ganhar o suficiente mesmo trabalhando tanto. 

Enquanto isso é a escola que vende o seu conhecimento por um preço bem alto.

Se você vendesse seu conhecimento diretamente, sem atravessadores, tudo seria diferente, para você, para a sua família e para seus alunos.

Desconstruir a escola e este tipo de mercado de conhecimento ou informação, significa acabar com a exploração do professor, baratear a educação para os pais e melhorar a qualidade do ensino para os alunos.

Espero não ter proposto soluções nem ter dado respostas, mas ter provocado perguntas, dúvidas e questionamento.

domingo, 16 de junho de 2019

O PODER DA LINGUAGEM


Não suporto influenciar pessoas e vou te contar porquê.



 "Luciano, posso fazer uma festinha de aniversários de 1 ano para o meu filho?"

Influenciar pessoas está na moda, parece que é o que todos procuram, seja para aumentar a clientela, seja para encher seus templos, seja para conquistarem seguidores, tráfego, clientes, votos, simpatia, aprovação ou consciência tranquila.

Por isso eu não gostaria de escrever para convencer, apenas para me expressar.

Se te servir, use. Mas por decisão sua.

Se não servir, descarte, jogue fora. 

Se não quiseres ler, tudo bem, o importante é que a escolha seja só sua e seja livre.

Não suporto influenciar pessoas e vou te contar porquê.


Vou te contar uma história bem singular, mas que é a pura verdade, aconteceu comigo.

E com esta história, a minha intenção é mostrar como a linguagem é poderosa e como acho importante utilizá-la com responsabilidade.

Entre meus 23 e 28 anos eu viajei pelo Brasil dando palestras sobre vários assuntos ligados ao esoterismo, à meditação, ao autoconhecimento, tantrismo, concentração, despertar da consciência, viagem astral e eliminação do ego.

Sim, eu sei, é doido, mas já vou te explicar.

Eu me fanatizei em uma determinada organização filosófica e mergulhei de cabeça, de forma intransigente, extremista e intolerante, como é todo tipo de fanatismo.

Sendo o fanatismo religioso o pior de todos e o mais perigosos.

Passei a trabalhar para esta organização.  Abria centros de estudos por onde eu ia, vivendo apenas para isto e deste trabalho.

Para se ter uma ideia, em uma destas cidades, de 200 mil habitantes, depois de 3 anos de trabalho saí de lá deixando uma escola funcionando na principal avenida, em um imóvel de 500m2, totalmente autossustentado e autofinanciado.

Então, o que houve de errado?


Fui bem treinado para fazer o que eu fazia, as palestras eram elaboradas cuidadosamente para convencer, e convenciam muitos e de tal forma que um dia isso me assustou.

Vinham nas nossas palestras, pessoas de todas as áreas profissionais, de todos os níveis sociais, de diferentes níveis de instrução, de poder econômico variado e de todas as idades.

Parece que as pessoas necessitam de alguém em quem se inspirar, alguém para endeusar, para idolatrar, alguém que as controle e direcione. Talvez por falta de amor próprio e autoconfiança.

Certo dia, em uma destas cidades em que fundei um centro de estudos da tal organização, um homem, pai de família, profissional, pai de uma menina e um menino, me procurou para me perguntar se ele podia fazer uma festinha para comemorar o aniversário de 1 ano do seu filho.

“Luciano, posso fazer uma festinha de aniversário de 1 ano para o meu filho?”

Naquele momento meu fanatismo abriu-se, fendeu-se, rachou, e um facho de luz entrou em minha consciência.

E eu me perguntei.

“O que é que eu estou fazendo com estas pessoas?”

“Quem eu penso que sou para determinar o que é verdade e o que não é, o que é bom e o que é mal para estas pessoas?”

Tirei o chão daquele pai de família que até me conhecer sabia tomar decisões.

Roubei a segurança daquele homem que antes de me ouvir, de aceitar o que eu tinha para lhe dizer, bem ou mal fazia suas escolhas.

Mas eram as suas escolhas, as suas decisões, tomadas livremente, sem a minha interferência, sem a interferência de alguém que mal se conhecia e queria ditar verdades para a vida dos outros.

E o pior é que ele não foi o único.

E quando os deixei, muitos ficaram sem saber o que fazer e se perderam de si mesmos.

E infelizmente eu também não era o único.

Então, quando os deixamos, alguns não souberam mais viver, alguns se tornaram andarilhos, deixando tudo para traz, até mesmo a própria identidade.

Isto faz muito tempo, hoje estou com 52 anos. Não esqueço de muitas daquelas pessoas, mas não posso me condenar para o resto da minha vida, senão quem não vai conseguir viver sou eu.

E eu sou o resultado do que vivi, dos lugares por onde andei, das pessoas com quem estive.

E depois de ter vivido esta experiência, entrei em uma Universidade para estudar a linguagem humana e fiz dela a minha profissão.

Sei muito bem o poder que as palavras podem ter, tanto para edificar como para destruir vidas.

Já provei desse poder tanto sobre a vida dos outros como sobre a minha própria vida.

Por muito tempo repeti para mim mesmo que eu me odiava e que eu era um lixo e assim eu me sentia, mesmo que ainda fizesse coisas boas e recebesse elogios.

Mas dentro de mim, era assim que eu me sentia, de acordo com o que eu dizia de mim mesmo, um miserável.

Até que o poder do que eu declarava sobre mim mesmo se concretizou e se exteriorizou.

Sair dali não foi nada fácil.

Então, mais uma vez a linguagem teve seu papel decisivo.

O poder do que se declara, o poder do verbo, é impressionante.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO, E O VERBO SE FEZ LIXO



A palavra é como o vento, o calor, a água, pode gerar vida ou acabar com ela.


Não é à toa que nós, humanos, falamos, e escrevemos, só não sabemos ainda o que fazer com isso.

Parece que não temos ainda a real dimensão do poder que tem o verbo, as palavras, a linguagem.

Nenhuma outra espécie usa este tipo de linguagem que usamos, a linguagem verbal e isto faz toda a diferença entre nós e eles.

É justamente por este tipo de linguagem que temos, capaz de fazer metalinguagem, que nossa mente é o que é, que nossa cognição, nossa ciência e nossa consciência chegam onde nenhuma outra é capaz de chegar.

Ao ponto de não termos limites, ninguém foi capaz de prever onde chegaríamos e ninguém é capaz de dizer onde ainda vamos chegar.

Mas nossa linguagem alcança lugares muito além de toda esta ciência terrena e física.

O verbo guarda aspectos metafísicos, alcança outros espaços e outros tempos. É um mistério.

Por isso, também não foi à toa que muitos livros místicos e religiosos, ao redor de todo o mundo, que ambicionaram descrever nossa gênese e a de divindades, colocaram este advento no verbo.

De acordo com estas crenças, tudo teria iniciado no verbo, na palavra, no logos. Daí nasce tudo o que existe.

E nós, os humanos, os únicos a ter este tesouro.

Como temos utilizado esta maravilha?

Onde este misterioso poder pode nos levar?

O que podemos alcançar se soubermos usá-lo?

Como temos tratado este presente dos deuses, do Universo, esta dádiva da criação?



A propósito, lembrei de um substantivo que ultimamente tem sido muito usado como adjetivo, para qualificar seres humanos: LIXO.

Não sei nem quem é, mas fez ou disse algo que EU desaprovo:  LIXO!

Não faço ideia de quem seja, mas defende uma ideia que vai contra o que EU acredito: LIXO humano!

Me disseram, ouvi dizer, que é um bandido, de acordo com a MINHA concepção de bandido e o MEU julgamento: é um LIXO!

Até ontem nunca tinha ouvido falar dele ou dela, mas li em algum lugar que sua opinião é contrária ao que EU penso: LIXO!

Mas é claro que as pessoas têm este direito, elas têm o livre arbítrio, não têm que ficar escondendo o que pensam das pessoas, têm liberdade de expressão. Afinal, quem diz o que quer ouve o que não quer. Não é assim que diz o ditado?

Pois muito bem, o ofendido também terá o direito de reagir quebrando os dentes do ofensor? É isso mesmo? Não pode haver limites para não traumatizar? O politicamente correto não serve porque é castrador, queremos dizer o que nos vem na cabeça?  

Isto não é falar, é vomitar sobre as pessoas.

Não é sinceridade, é maldade, rancor, ofensa, grosseria, desamor, descontrole, raiva, ira, que faz mal ao outro e àquele que profere, primeiro.

E sabe onde isto acaba?

Em trauma, violência, morte, dor, decepção, sofrimento, destruição, caos, perdas, em um círculo vicioso.

Porque a palavra é sagrada, o verbo é poderoso, deve ser usado com cautela, com cuidado, com carinho, para edificar.

Senão é melhor calar para não destruir.

Quer uma prova científica disso?


Um cientista japonês, o Dr. Masaru Emoto, fez uma experiência com a palavra para determinar o quanto ela tem o poder de influenciar a realidade, o mundo a nossa volta, fisicamente.

E olha só o que ele descobriu.

O Dr. Emoto pegou duas substâncias, uma em estado sólido, o arroz cozido, e outra em estado líquido, a água, e submeteu as duas a palavras positivas e negativas em seu laboratório por um determinado período. Depois analisou o resultado e divulgou.

É bom lembrar que não se fala sem pensar, isto é só uma maneira de se dizer que falou algo sem refletir antes, mas não se pensar.

Este é o resultado de palavra e pensamento, eles andam juntos.

Veja.









A maior parte do nosso corpo é constituída de água.

As palavras e pensamentos negativos que proferimos são gerados dentro de nós, crescem dentro de nós, vivem dentro de nós e podem permanecem em nós mesmo depois de deixarmos saírem.

Quando alguém diz que “fala mesmo!”, que não leva desaforo para casa, este é quem leva, não só para casa, mas para a cama. Leva dentro de si, envenenando suas entranhas.

Aquele que ouve, se for um pouco preparado, não recebe o presente, nega, deixa com o ofensor, devolve, não pega para si, não deixa entrar, este não leva desaforo para casa.

Convido você a pensar sobre isso.

Como temos usado este maravilhoso poder, esta bomba nuclear que ganhamos da natureza?

Não estamos como crianças que recebem uma arma poderosa nas mãos e não sabem usar?

Temos usado para edificar a nossa vida e a dos outros, para mudar o mundo ao nosso redor para melhor. 

Porque o poder das palavras pode servir para mudar o meu e o seu mundo para melhor. 




segunda-feira, 10 de junho de 2019

VOCÊ JAMAIS SERÁ UM FRACASSO


Se alguém nega quem realmente é, elimina a chance de mudar e ser diferente


Lembrei de fazer uma ressalva, um alerta, que acho importante.

Eu mesmo já publiquei aqui no blog muitos textos incentivando as pessoas a perseguirem seus sonhos, a buscarem a vida que desejam, a se transformarem e a transformarem suas vidas.

Inclusive um dos meus lemas é que “um querer visceral abre qualquer porta, alcança qualquer objetivo”.

E hoje em dia há uma avalanche de trabalhos deste tipo, mentores e coaches e vídeos e palestras e workshops e imersões, e-books sem fim.

Todos dizendo que você pode ser o melhor, que deve alcançar a excelência, que pode viver como quiser, que pode chegar onde quiser e alcançar qualquer coisa que sonhar.

Todos sabem as 7 estratégias infalíveis para alguma coisa, os 10 erros que você jamais poderá cometer e os 13 passos para algum tipo de sucesso.

Todos têm a receita infalível para você alcançar um milhão antes dos 22 anos de idade, para vender horrores pela internet até dormindo ou para ser feliz para sempre.

E Deus o livre de ficar sem aquela estratégia criada especialmente para pessoas como você, aí você não será ninguém mesmo.

Pois muito bem.


Exageros à parte, você sabe que é assim, está vendo por você mesmo e eu concordo que muito disso é extremamente positivo e verdadeiro.

Quando incentivo você, dou exemplo meu, que dormi na rua e passei forme, mas me formei em uma Universidade Federal e me tornei o que eu queria ser, um professor.

Que já fui viciado em drogas horríveis e me transformei, superei e venci definitivamente.

Então ninguém pode me dizer que um ser humano não é capaz de transformar a sua vida no que ele quiser. Não para mim.

Eu sei que posso transformar a minha vida no que eu quiser porque já fiz isso mais de uma vez.

Já estive no inferno e no céu, sei que posso passear entre os dois se eu quiser. Porque já fiz isso e fiz a minha escolha. Porque é assim que sou ou foi assim que as coisas se fizeram para mim.


Porém, tem algo que eu gostaria de lembrar, de reforçar.


O pódio não tem lugar para todo mundo. No camarote não cabe todo mundo. E a base da pirâmide social não cabe no seu topo.

Não há lugar para todo mundo no tapete vermelho do sucesso, entre os holofotes e aplausos.

Sempre terá que ter alguém fazendo o trabalho simples e menos glamouroso. Indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, cuidando do trivial, pegando transporte público, ralando de segunda a sábado e batendo o ponto.

Não dá para temos somente nômades digitais de sucesso no mundo, especuladores econômicos profissionais, investidores milionários, mentores estrelas, palestrantes popstar, donos de e-commerce, influencers, blogueiros disputados, produtores etc.

Não tem como. O mecanismo é assim, alguém tem que produzir e alguém tem que consumir, tudo o que você pensar.

Não digo isso para desestimular ou desanimar ninguém e ainda bem que não tenho este poder.

Só gostaria que você considerasse comigo a hipótese de que cada pessoa está onde deve estar, é quem tem que ser e faz o que tem que fazer. Se não fosse assim não seria mais ela mesma, seria outro.

Quando fizer diferente, muito bem. Mas quando não fizer, muito bem também.
Olhando para o passado, pense se você não foi exatamente quem tinha que ser, esteve onde tinha que estar e fez o que tinha que fazer.

Se você não foi diferente é porque não podia ser, do contrário não seria mais você. E quem você é hoje não existiria. Você é o resultado do que viveu.

Se o cara tem que ir de bicicleta todos os dias da semana para a borracharia onde trabalha, porque é assim que ele sustenta os filhos, este cara é O CARA.

E ele não é menos do que o influencer de sucesso, que a cada semana faz postagens no Instagram de um lugar diferente do mundo.

Se ele mudar de estilo de vida, ótimo! Mas alguém ainda terá que estar na borracharia.

Se não mudar, precisa encontrar a si mesmo, sentir-se pleno e realizado naquilo que vive. Sem se sentir frustrado, derrotado, fracassado, porque não alcançou o que imaginou, ou o que alguém disse que ele devia fazer. Isto tornaria a vida um pesadelo, infeliz.

Você nunca será um fracassado, haja o que houver, faça o que fizer, seja quem for, você é quem tem que ser, fez o que tinha que fazer.

Não importa o que digam. Você é um sucesso naquilo que é e naquilo que faz.
Mesmo que não faça nada, não é um fracasso, pois tem o seu significado.

O mundo precisa de todos, todos são importantes, inclusive, e as vezes muito mais, no anonimato.

Portanto, este meu alerta, é só uma preocupação para que ninguém se sinta derrotado ou frustrado por não ter conseguido trilhar o caminho apontado por alguém de sucesso, famoso na internet.

Saiba ler a vida, saiba ler o que dizem estas pessoas, saiba ter persistência e disciplina para lutar pelo que quer, mas sabendo que você já é um sucesso, já é importante, já é alguém na vida.

Nunca se sinta um fracassado, porque você não é.





sábado, 8 de junho de 2019

O BÊBADO





No bairro onde eu cresci havia um campinho de futebol em um terreno baldio bem na esquina. Quase todos os dias a galerinha se reunia lá para uma pelada.

A rua Tiradentes era uma ladeira e cruzava a avenida Independência bem no pé do morro.

Ali, naquele cruzamento, ficava, de um lado, o nosso campinho de futebol; do outro lado o bar do seu Nelo; do outro o CD, era como chamávamos o colégio particular Dignitas, e em frente ao colégio, na outra esquina, era o escritório de contabilidade do Rui.  

Ao lado do escritório, no começo da subida da ladeira, tinha um terreno baldio, arborizado, com mato alto, onde havia um galinheiro abandonado, era um barraco de restos de tábuas velhas.

E naquele bairro tinha um bêbado, era “o bêbado”, porque bêbado não tem nome, é só “o bêbado”, era assim que nos referíamos a ele.

Era preto feito carvão e tudo o que fazia era beber. Pedia dinheiro para beber e bebia para pedir dinheiro. Bebia para dormir e acordava para beber. Todos os dias, o dia inteiro, era assim que ele vivia: indo do bar para o seu barraco e do barraco ao bar. 

Morava naquele terreno baldio, naquele galinheiro abandonado.

Nunca o vimos com ninguém, não tinha amigos, era o estorvo do bairro, não tinha serventia alguma, ninguém dava a mínima atenção para aquele preto bêbado.

Alguns tinham medo dele, cruzavam a rua e o evitavam por causa do medo ou do cheiro.

Outros lhe davam dinheiro ou cachaça para ele sair de perto e ficar um tempo entocado naquele seu galinheiro sujo, bebendo, sem dar ao bairro o desprazer da sua aparência.

Nunca se teve notícia de que ele tenha cometido algum crime ou feito algo de ruim para alguém, a não ser ter nascido e existir do jeito que era. E por isso servia de chacota para alguns garotos, que o chamavam de preto bêbado fedorento.

Mas ninguém podia imaginar que o bêbado seria capaz de fazer o que fez um dia.

Estávamos jogando no campinho e eu estava no gol, de onde eu tinha uma visão completa do cruzamento. Devia ser umas seis horas da tarde, mas ainda não estava escuro.

De lá onde eu estava vi quando o bêbado saiu do terreno baldio, atravessou a rua e entrou no bar do seu Nelo.

Também vi quando o Rui fechou o escritório de contabilidade e foi embora, no mesmo momento em que o Boca passou com seu fusca, descarga aberta, som alto, agitando o bairro como sempre fazia, ladeira acima.

Não te falei do Boca? Desculpa, esqueci.

O Boca era o filho do dono da fábrica de calçados que tinha no bairro, onde metade dos moradores trabalhavam.

Vi um menino de bicicleta vermelha, devia ter uns 10 anos, vindo na avenida Independência, se aproximando do bar do seu Nelo, na direção da esquina. Quase no mesmo momento em que o bêbado saia do bar com algo enrolado em folhas de jornal velho.

O ronco forte do fusca do Boca surgiu de novo, desta vez ladeira abaixo, em alta velocidade, na direção do cruzamento.

O garoto de bicicleta não havia percebido a situação. De onde ele estava não podia ver a ladeira nem o fusca por causa do bar na esquina e da sua preocupação com o bêbado na calçada.

Paramos o jogo. 
O fusca não parou.

O garoto se aproximou da esquina.

O bêbado, já perto do cruzamento, jogou fora o que tinha na mão, saiu correndo, alcançou o garoto da bicicleta e o empurrou com força, ficando ele mesmo na frente do carro desgovernado que o acertou em cheio.

O bêbado foi jogado longe, a garrafa de pinga se estilhaçou no asfalto, o garoto caiu da bicicleta e o fusca passou direto pelo cruzamento, sem parar.

Corremos todos para ver de perto, o bêbado jazia inerte no asfalto, corpo mole, quebrado, poça de sangue embaixo da cabeça, olhos arregalados, lábios entreabertos.

O garoto da bicicleta estava branco, tremendo, assustado, mas estava bem, apenas uns arranhões.

Da garrafa quebrada no chão exalava um cheiro forte e adocicado, me aproximei e nas folhas de jornal molhadas de cachaça ainda pude ler:

“Professor do Colégio Dignitas é acusado de pedofilia”


“Prefeito é afastado por fraude na licitação da merenda escolar”


“Confusão na câmara de vereadores em virtude da disputa pela presidência da casa.”