domingo, 16 de junho de 2019

O PODER DA LINGUAGEM


Não suporto influenciar pessoas e vou te contar porquê.



 "Luciano, posso fazer uma festinha de aniversários de 1 ano para o meu filho?"

Influenciar pessoas está na moda, parece que é o que todos procuram, seja para aumentar a clientela, seja para encher seus templos, seja para conquistarem seguidores, tráfego, clientes, votos, simpatia, aprovação ou consciência tranquila.

Por isso eu não gostaria de escrever para convencer, apenas para me expressar.

Se te servir, use. Mas por decisão sua.

Se não servir, descarte, jogue fora. 

Se não quiseres ler, tudo bem, o importante é que a escolha seja só sua e seja livre.

Não suporto influenciar pessoas e vou te contar porquê.


Vou te contar uma história bem singular, mas que é a pura verdade, aconteceu comigo.

E com esta história, a minha intenção é mostrar como a linguagem é poderosa e como acho importante utilizá-la com responsabilidade.

Entre meus 23 e 28 anos eu viajei pelo Brasil dando palestras sobre vários assuntos ligados ao esoterismo, à meditação, ao autoconhecimento, tantrismo, concentração, despertar da consciência, viagem astral e eliminação do ego.

Sim, eu sei, é doido, mas já vou te explicar.

Eu me fanatizei em uma determinada organização filosófica e mergulhei de cabeça, de forma intransigente, extremista e intolerante, como é todo tipo de fanatismo.

Sendo o fanatismo religioso o pior de todos e o mais perigosos.

Passei a trabalhar para esta organização.  Abria centros de estudos por onde eu ia, vivendo apenas para isto e deste trabalho.

Para se ter uma ideia, em uma destas cidades, de 200 mil habitantes, depois de 3 anos de trabalho saí de lá deixando uma escola funcionando na principal avenida, em um imóvel de 500m2, totalmente autossustentado e autofinanciado.

Então, o que houve de errado?


Fui bem treinado para fazer o que eu fazia, as palestras eram elaboradas cuidadosamente para convencer, e convenciam muitos e de tal forma que um dia isso me assustou.

Vinham nas nossas palestras, pessoas de todas as áreas profissionais, de todos os níveis sociais, de diferentes níveis de instrução, de poder econômico variado e de todas as idades.

Parece que as pessoas necessitam de alguém em quem se inspirar, alguém para endeusar, para idolatrar, alguém que as controle e direcione. Talvez por falta de amor próprio e autoconfiança.

Certo dia, em uma destas cidades em que fundei um centro de estudos da tal organização, um homem, pai de família, profissional, pai de uma menina e um menino, me procurou para me perguntar se ele podia fazer uma festinha para comemorar o aniversário de 1 ano do seu filho.

“Luciano, posso fazer uma festinha de aniversário de 1 ano para o meu filho?”

Naquele momento meu fanatismo abriu-se, fendeu-se, rachou, e um facho de luz entrou em minha consciência.

E eu me perguntei.

“O que é que eu estou fazendo com estas pessoas?”

“Quem eu penso que sou para determinar o que é verdade e o que não é, o que é bom e o que é mal para estas pessoas?”

Tirei o chão daquele pai de família que até me conhecer sabia tomar decisões.

Roubei a segurança daquele homem que antes de me ouvir, de aceitar o que eu tinha para lhe dizer, bem ou mal fazia suas escolhas.

Mas eram as suas escolhas, as suas decisões, tomadas livremente, sem a minha interferência, sem a interferência de alguém que mal se conhecia e queria ditar verdades para a vida dos outros.

E o pior é que ele não foi o único.

E quando os deixei, muitos ficaram sem saber o que fazer e se perderam de si mesmos.

E infelizmente eu também não era o único.

Então, quando os deixamos, alguns não souberam mais viver, alguns se tornaram andarilhos, deixando tudo para traz, até mesmo a própria identidade.

Isto faz muito tempo, hoje estou com 52 anos. Não esqueço de muitas daquelas pessoas, mas não posso me condenar para o resto da minha vida, senão quem não vai conseguir viver sou eu.

E eu sou o resultado do que vivi, dos lugares por onde andei, das pessoas com quem estive.

E depois de ter vivido esta experiência, entrei em uma Universidade para estudar a linguagem humana e fiz dela a minha profissão.

Sei muito bem o poder que as palavras podem ter, tanto para edificar como para destruir vidas.

Já provei desse poder tanto sobre a vida dos outros como sobre a minha própria vida.

Por muito tempo repeti para mim mesmo que eu me odiava e que eu era um lixo e assim eu me sentia, mesmo que ainda fizesse coisas boas e recebesse elogios.

Mas dentro de mim, era assim que eu me sentia, de acordo com o que eu dizia de mim mesmo, um miserável.

Até que o poder do que eu declarava sobre mim mesmo se concretizou e se exteriorizou.

Sair dali não foi nada fácil.

Então, mais uma vez a linguagem teve seu papel decisivo.

O poder do que se declara, o poder do verbo, é impressionante.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO, E O VERBO SE FEZ LIXO



A palavra é como o vento, o calor, a água, pode gerar vida ou acabar com ela.


Não é à toa que nós, humanos, falamos, e escrevemos, só não sabemos ainda o que fazer com isso.

Parece que não temos ainda a real dimensão do poder que tem o verbo, as palavras, a linguagem.

Nenhuma outra espécie usa este tipo de linguagem que usamos, a linguagem verbal e isto faz toda a diferença entre nós e eles.

É justamente por este tipo de linguagem que temos, capaz de fazer metalinguagem, que nossa mente é o que é, que nossa cognição, nossa ciência e nossa consciência chegam onde nenhuma outra é capaz de chegar.

Ao ponto de não termos limites, ninguém foi capaz de prever onde chegaríamos e ninguém é capaz de dizer onde ainda vamos chegar.

Mas nossa linguagem alcança lugares muito além de toda esta ciência terrena e física.

O verbo guarda aspectos metafísicos, alcança outros espaços e outros tempos. É um mistério.

Por isso, também não foi à toa que muitos livros místicos e religiosos, ao redor de todo o mundo, que ambicionaram descrever nossa gênese e a de divindades, colocaram este advento no verbo.

De acordo com estas crenças, tudo teria iniciado no verbo, na palavra, no logos. Daí nasce tudo o que existe.

E nós, os humanos, os únicos a ter este tesouro.

Como temos utilizado esta maravilha?

Onde este misterioso poder pode nos levar?

O que podemos alcançar se soubermos usá-lo?

Como temos tratado este presente dos deuses, do Universo, esta dádiva da criação?



A propósito, lembrei de um substantivo que ultimamente tem sido muito usado como adjetivo, para qualificar seres humanos: LIXO.

Não sei nem quem é, mas fez ou disse algo que EU desaprovo:  LIXO!

Não faço ideia de quem seja, mas defende uma ideia que vai contra o que EU acredito: LIXO humano!

Me disseram, ouvi dizer, que é um bandido, de acordo com a MINHA concepção de bandido e o MEU julgamento: é um LIXO!

Até ontem nunca tinha ouvido falar dele ou dela, mas li em algum lugar que sua opinião é contrária ao que EU penso: LIXO!

Mas é claro que as pessoas têm este direito, elas têm o livre arbítrio, não têm que ficar escondendo o que pensam das pessoas, têm liberdade de expressão. Afinal, quem diz o que quer ouve o que não quer. Não é assim que diz o ditado?

Pois muito bem, o ofendido também terá o direito de reagir quebrando os dentes do ofensor? É isso mesmo? Não pode haver limites para não traumatizar? O politicamente correto não serve porque é castrador, queremos dizer o que nos vem na cabeça?  

Isto não é falar, é vomitar sobre as pessoas.

Não é sinceridade, é maldade, rancor, ofensa, grosseria, desamor, descontrole, raiva, ira, que faz mal ao outro e àquele que profere, primeiro.

E sabe onde isto acaba?

Em trauma, violência, morte, dor, decepção, sofrimento, destruição, caos, perdas, em um círculo vicioso.

Porque a palavra é sagrada, o verbo é poderoso, deve ser usado com cautela, com cuidado, com carinho, para edificar.

Senão é melhor calar para não destruir.

Quer uma prova científica disso?


Um cientista japonês, o Dr. Masaru Emoto, fez uma experiência com a palavra para determinar o quanto ela tem o poder de influenciar a realidade, o mundo a nossa volta, fisicamente.

E olha só o que ele descobriu.

O Dr. Emoto pegou duas substâncias, uma em estado sólido, o arroz cozido, e outra em estado líquido, a água, e submeteu as duas a palavras positivas e negativas em seu laboratório por um determinado período. Depois analisou o resultado e divulgou.

É bom lembrar que não se fala sem pensar, isto é só uma maneira de se dizer que falou algo sem refletir antes, mas não se pensar.

Este é o resultado de palavra e pensamento, eles andam juntos.

Veja.









A maior parte do nosso corpo é constituída de água.

As palavras e pensamentos negativos que proferimos são gerados dentro de nós, crescem dentro de nós, vivem dentro de nós e podem permanecem em nós mesmo depois de deixarmos saírem.

Quando alguém diz que “fala mesmo!”, que não leva desaforo para casa, este é quem leva, não só para casa, mas para a cama. Leva dentro de si, envenenando suas entranhas.

Aquele que ouve, se for um pouco preparado, não recebe o presente, nega, deixa com o ofensor, devolve, não pega para si, não deixa entrar, este não leva desaforo para casa.

Convido você a pensar sobre isso.

Como temos usado este maravilhoso poder, esta bomba nuclear que ganhamos da natureza?

Não estamos como crianças que recebem uma arma poderosa nas mãos e não sabem usar?

Temos usado para edificar a nossa vida e a dos outros, para mudar o mundo ao nosso redor para melhor. 

Porque o poder das palavras pode servir para mudar o meu e o seu mundo para melhor. 




segunda-feira, 10 de junho de 2019

VOCÊ JAMAIS SERÁ UM FRACASSO


Se alguém nega quem realmente é, elimina a chance de mudar e ser diferente


Lembrei de fazer uma ressalva, um alerta, que acho importante.

Eu mesmo já publiquei aqui no blog muitos textos incentivando as pessoas a perseguirem seus sonhos, a buscarem a vida que desejam, a se transformarem e a transformarem suas vidas.

Inclusive um dos meus lemas é que “um querer visceral abre qualquer porta, alcança qualquer objetivo”.

E hoje em dia há uma avalanche de trabalhos deste tipo, mentores e coaches e vídeos e palestras e workshops e imersões, e-books sem fim.

Todos dizendo que você pode ser o melhor, que deve alcançar a excelência, que pode viver como quiser, que pode chegar onde quiser e alcançar qualquer coisa que sonhar.

Todos sabem as 7 estratégias infalíveis para alguma coisa, os 10 erros que você jamais poderá cometer e os 13 passos para algum tipo de sucesso.

Todos têm a receita infalível para você alcançar um milhão antes dos 22 anos de idade, para vender horrores pela internet até dormindo ou para ser feliz para sempre.

E Deus o livre de ficar sem aquela estratégia criada especialmente para pessoas como você, aí você não será ninguém mesmo.

Pois muito bem.


Exageros à parte, você sabe que é assim, está vendo por você mesmo e eu concordo que muito disso é extremamente positivo e verdadeiro.

Quando incentivo você, dou exemplo meu, que dormi na rua e passei forme, mas me formei em uma Universidade Federal e me tornei o que eu queria ser, um professor.

Que já fui viciado em drogas horríveis e me transformei, superei e venci definitivamente.

Então ninguém pode me dizer que um ser humano não é capaz de transformar a sua vida no que ele quiser. Não para mim.

Eu sei que posso transformar a minha vida no que eu quiser porque já fiz isso mais de uma vez.

Já estive no inferno e no céu, sei que posso passear entre os dois se eu quiser. Porque já fiz isso e fiz a minha escolha. Porque é assim que sou ou foi assim que as coisas se fizeram para mim.


Porém, tem algo que eu gostaria de lembrar, de reforçar.


O pódio não tem lugar para todo mundo. No camarote não cabe todo mundo. E a base da pirâmide social não cabe no seu topo.

Não há lugar para todo mundo no tapete vermelho do sucesso, entre os holofotes e aplausos.

Sempre terá que ter alguém fazendo o trabalho simples e menos glamouroso. Indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, cuidando do trivial, pegando transporte público, ralando de segunda a sábado e batendo o ponto.

Não dá para temos somente nômades digitais de sucesso no mundo, especuladores econômicos profissionais, investidores milionários, mentores estrelas, palestrantes popstar, donos de e-commerce, influencers, blogueiros disputados, produtores etc.

Não tem como. O mecanismo é assim, alguém tem que produzir e alguém tem que consumir, tudo o que você pensar.

Não digo isso para desestimular ou desanimar ninguém e ainda bem que não tenho este poder.

Só gostaria que você considerasse comigo a hipótese de que cada pessoa está onde deve estar, é quem tem que ser e faz o que tem que fazer. Se não fosse assim não seria mais ela mesma, seria outro.

Quando fizer diferente, muito bem. Mas quando não fizer, muito bem também.
Olhando para o passado, pense se você não foi exatamente quem tinha que ser, esteve onde tinha que estar e fez o que tinha que fazer.

Se você não foi diferente é porque não podia ser, do contrário não seria mais você. E quem você é hoje não existiria. Você é o resultado do que viveu.

Se o cara tem que ir de bicicleta todos os dias da semana para a borracharia onde trabalha, porque é assim que ele sustenta os filhos, este cara é O CARA.

E ele não é menos do que o influencer de sucesso, que a cada semana faz postagens no Instagram de um lugar diferente do mundo.

Se ele mudar de estilo de vida, ótimo! Mas alguém ainda terá que estar na borracharia.

Se não mudar, precisa encontrar a si mesmo, sentir-se pleno e realizado naquilo que vive. Sem se sentir frustrado, derrotado, fracassado, porque não alcançou o que imaginou, ou o que alguém disse que ele devia fazer. Isto tornaria a vida um pesadelo, infeliz.

Você nunca será um fracassado, haja o que houver, faça o que fizer, seja quem for, você é quem tem que ser, fez o que tinha que fazer.

Não importa o que digam. Você é um sucesso naquilo que é e naquilo que faz.
Mesmo que não faça nada, não é um fracasso, pois tem o seu significado.

O mundo precisa de todos, todos são importantes, inclusive, e as vezes muito mais, no anonimato.

Portanto, este meu alerta, é só uma preocupação para que ninguém se sinta derrotado ou frustrado por não ter conseguido trilhar o caminho apontado por alguém de sucesso, famoso na internet.

Saiba ler a vida, saiba ler o que dizem estas pessoas, saiba ter persistência e disciplina para lutar pelo que quer, mas sabendo que você já é um sucesso, já é importante, já é alguém na vida.

Nunca se sinta um fracassado, porque você não é.





sábado, 8 de junho de 2019

O BÊBADO





No bairro onde eu cresci havia um campinho de futebol em um terreno baldio bem na esquina. Quase todos os dias a galerinha se reunia lá para uma pelada.

A rua Tiradentes era uma ladeira e cruzava a avenida Independência bem no pé do morro.

Ali, naquele cruzamento, ficava, de um lado, o nosso campinho de futebol; do outro lado o bar do seu Nelo; do outro o CD, era como chamávamos o colégio particular Dignitas, e em frente ao colégio, na outra esquina, era o escritório de contabilidade do Rui.  

Ao lado do escritório, no começo da subida da ladeira, tinha um terreno baldio, arborizado, com mato alto, onde havia um galinheiro abandonado, era um barraco de restos de tábuas velhas.

E naquele bairro tinha um bêbado, era “o bêbado”, porque bêbado não tem nome, é só “o bêbado”, era assim que nos referíamos a ele.

Era preto feito carvão e tudo o que fazia era beber. Pedia dinheiro para beber e bebia para pedir dinheiro. Bebia para dormir e acordava para beber. Todos os dias, o dia inteiro, era assim que ele vivia: indo do bar para o seu barraco e do barraco ao bar. 

Morava naquele terreno baldio, naquele galinheiro abandonado.

Nunca o vimos com ninguém, não tinha amigos, era o estorvo do bairro, não tinha serventia alguma, ninguém dava a mínima atenção para aquele preto bêbado.

Alguns tinham medo dele, cruzavam a rua e o evitavam por causa do medo ou do cheiro.

Outros lhe davam dinheiro ou cachaça para ele sair de perto e ficar um tempo entocado naquele seu galinheiro sujo, bebendo, sem dar ao bairro o desprazer da sua aparência.

Nunca se teve notícia de que ele tenha cometido algum crime ou feito algo de ruim para alguém, a não ser ter nascido e existir do jeito que era. E por isso servia de chacota para alguns garotos, que o chamavam de preto bêbado fedorento.

Mas ninguém podia imaginar que o bêbado seria capaz de fazer o que fez um dia.

Estávamos jogando no campinho e eu estava no gol, de onde eu tinha uma visão completa do cruzamento. Devia ser umas seis horas da tarde, mas ainda não estava escuro.

De lá onde eu estava vi quando o bêbado saiu do terreno baldio, atravessou a rua e entrou no bar do seu Nelo.

Também vi quando o Rui fechou o escritório de contabilidade e foi embora, no mesmo momento em que o Boca passou com seu fusca, descarga aberta, som alto, agitando o bairro como sempre fazia, ladeira acima.

Não te falei do Boca? Desculpa, esqueci.

O Boca era o filho do dono da fábrica de calçados que tinha no bairro, onde metade dos moradores trabalhavam.

Vi um menino de bicicleta vermelha, devia ter uns 10 anos, vindo na avenida Independência, se aproximando do bar do seu Nelo, na direção da esquina. Quase no mesmo momento em que o bêbado saia do bar com algo enrolado em folhas de jornal velho.

O ronco forte do fusca do Boca surgiu de novo, desta vez ladeira abaixo, em alta velocidade, na direção do cruzamento.

O garoto de bicicleta não havia percebido a situação. De onde ele estava não podia ver a ladeira nem o fusca por causa do bar na esquina e da sua preocupação com o bêbado na calçada.

Paramos o jogo. 
O fusca não parou.

O garoto se aproximou da esquina.

O bêbado, já perto do cruzamento, jogou fora o que tinha na mão, saiu correndo, alcançou o garoto da bicicleta e o empurrou com força, ficando ele mesmo na frente do carro desgovernado que o acertou em cheio.

O bêbado foi jogado longe, a garrafa de pinga se estilhaçou no asfalto, o garoto caiu da bicicleta e o fusca passou direto pelo cruzamento, sem parar.

Corremos todos para ver de perto, o bêbado jazia inerte no asfalto, corpo mole, quebrado, poça de sangue embaixo da cabeça, olhos arregalados, lábios entreabertos.

O garoto da bicicleta estava branco, tremendo, assustado, mas estava bem, apenas uns arranhões.

Da garrafa quebrada no chão exalava um cheiro forte e adocicado, me aproximei e nas folhas de jornal molhadas de cachaça ainda pude ler:

“Professor do Colégio Dignitas é acusado de pedofilia”


“Prefeito é afastado por fraude na licitação da merenda escolar”


“Confusão na câmara de vereadores em virtude da disputa pela presidência da casa.”




quinta-feira, 6 de junho de 2019

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO E INTERNET


 Ler é muito mais do que reconhecer letrinhas

Quadro do pintor Almeida Júnior - Leitura

Saber descodificar o código escrito não é saber ler.

Ou seja, saber desvendar os símbolos gráficos (as letras, por exemplo) transformando-os em sons, em palavras, não significa saber ler.

Alguém pode olhar para um papel com a letra do Hino Nacional brasileiro, saber cantar ou declamar lindamente a primeira estofe e não fazer a mínima ideia do que ela está dizendo.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo heroico o brado retumbante.”

Esta pessoa sabe transformar o código escrito em palavras, sabe descodificar a grafia, mas não sabe ler.

Isto é o que se chama de analfabetismo funcional.

Dei o exemplo da letra do Hino Nacional, mas o analfabetismo funcional ocorre com relação a todo texto escrito, como um contrato, uma lei, a pergunta de uma questão de concurso.

Já vi muitos alunos se darem mal em uma prova por não saberem ler a pergunta, por não entender o enunciado da questão.

A pessoa lê, mas não entende o que lê, não compreende, então não lê, não interpreta, não sabe fazer uma leitura do que está escrito.


Saber ler é perceber as intenções, as motivações, os objetivos, as estratégias, a linguagem figurada, os intervalos e pontuações, tanto o que está no texto como o que está fora dele, em seu entorno.

Saber ler vai além do texto escrito, significa saber interpretar o mundo, as falas, as expressões e feições, os gestos, as indiretas, os duplos sentidos, as entrelinhas, as omissões, as pegadinhas e até os silêncios.

E o hipertexto?


Hipertexto é como certos especialistas chamam a web.

A internet é um grande, um enorme, um gigantesco texto escrito por milhões de pessoas, em centenas de idiomas, com milhões de páginas, sendo produzido incessantemente nos mais variados formatos.

Se antigamente alguém tinha uma enciclopédia na estante, com 23 volumes, com origem e autoria bem definidas, com assuntos, conteúdos e formatos limitados pelo livro, agora tem o hipertexto, o texto virtual.

Nele não se tem o controle da autoria nem da origem e nem de conteúdo. E o hipertexto é constituído de texto escrito, áudio, vídeo, gráficos, imagens, etc. Muda constantemente, é dinâmico.

Se uma pessoa tem dificuldade de fazer a leitura de uma estofe do hino do seu país, de uma questão de prova ou de uma cláusula de contrato, como poderá lidar com a leitura do hipertexto?

Não tendo condições de ler, mas tendo que lidar com ele diariamente, quais poderão ser as consequências?

A primeira consequência é aquela mesma que ocorre se alguém come algo que o seu organismo não é capaz de digerir.

Indigestão, intoxicação, congestão, algo deste tipo.

O organismo geralmente põe para fora aquilo que não digere, vomita.

A grande quantidade de informação recebida, mas não lida, não compreendida, é vomitada, é repetida, como fazem os papagaios, ou os robôs, sem saberem direito o que estão fazendo.

Até que toda aquela informação cause uma intoxicação, provoque uma grande confusão e não possa ser aproveitada positivamente, tornando-se disfuncional, uma doença.

Onde se aprende a ler, afinal?


Não basta ir para a escola para aprender a ler, lá nos ensinam a descodificar os símbolos gráficos e, quando muito, nos dão uma pequena noção de leitura, mas não há tempo nem espaço na escola moderna para praticar a leitura.

A escola está  ocupada com a sua função principal, formar “chão de fábrica”, formar a base da pirâmide, o alicerce da sociedade, o que sustentará o alto e servirá ao topo.

A escola está ocupada em “em-formar”, colocar na forma, normatizar as pessoas para que sejam úteis na sociedade, ou seja, para que produzam e consumam, já que sem esta engrenagem a máquina quebra.

Um ou outro que se destaca consegue escapar deste grande moedor de carne. Estes são os que aprenderam a ler, porque foram mais além da escola.
Tem gente que não gosta da escola, com razão, mas é preciso ir muito além dela e não aquém.

O que faz alguém se tornar um bom jogador de futebol, um bom skatista, um bom guitarrista, um bom bailarino?

Treino, treino e treino.

Então o que é necessário para aprender a ler e ser um bom leitor?

Ler, ler e ler.

Desenvolver repertório, familiaridade, conhecimento e profundidade de leitura.

Um leitor bem formado e experiente tem condições de selecionar o que lê e encontrar o que procura e precisa no texto e no hipertexto, formando opinião e pensamento próprios.

Alguém que nunca viu um peixe na vida não sabe escolher, selecionar, definir o mais adequado para as suas necessidades, pode levar o que o vendedor lhe disser que é bom, mesmo estando estragado.

Mergulhado no hipertexto, alguém que não sabe ler ou que mal sabe ler fica a mercê de indicações, do que chega até ele, daquilo que mais se tem repetido, do assunto da moda, da interpretação da moda, dos hiperlinks, dos achismos mascarados de certezas e conhecimento, dos algoritmos, dos robôs.

E um mar de ignorância esperta avança sobre incautos iludidos, que cacarejam razões e empunham bravatas morais vazias.

Em nome do medo de dizer eu não sei, eu não tenho certeza, eu estou em dúvida, eu não conheço este assunto, eu preciso de ajuda, eu preciso pensar melhor, estudar melhor, quero conhecer uma opinião diferente e não vou me posicionar agora.  

Para proteger o orgulho e esconder a ignorância, a garganta vomita o clichê do momento em repetição insuportavelmente oca, surda, estéril, seca.

Tudo por falta de leitura, de interpretação de texto, escrito, falado, desenhado.

Porque não fomos mais além da escola, adiante dela.

Quem fica na escola, reclamando que ela já é muito, já é demais, sai dela sem saber ler e está fadado a repetir o que mandarem, o que estiver na moda, o jargão do momento.

Eu não sei quantos livros eu já li, sei que leio constantemente desde a adolescência, devo ter lido centenas de livros, mas eu sei que não começou na escola, não começou por causa da escola e nunca li nenhum livro na escola.

Meu primeiro livro, o primeiro que lembro, veio de uma prima minha, que me emprestou dizendo ser uma boa história.

O título é Papillon, do escritor francês Henri Charrière, dependendo do formato tem entre 500 e mais de 700 páginas. Devorei em uma semana e daí em diante nunca mais parei de ler.

E foi assim que aprendi a ler, que desenvolvi o gosto e o hábito, foi fora da escola, em casa, trocando livros com amigos e amigas e conversando sobre eles. Depois, bem mais tarde, na faculdade de Letras, apenas aprimorei minha leitura.

E por que este conhecimento é importante?


Pelo mesmo motivo que um soldado não é largado no campo de batalha sem arma nem proteção.

Nossas crianças, adolescentes e jovens mergulham com facilidade no hipertexto e lá permanecem por bastante tempo.

Com que arma? Com qual proteção?

A melhor arma e a melhor proteção é saberem ler e interpretar com profundidade o que tem diante de si. Mas a escola não está ensinando, não está preparando as crianças para isto. Pelo menos não de forma ostensiva e disseminada aqui no Brasil.

Em outros países, como na Finlândia, já é uma matéria, uma disciplina escolar, o ensino da leitura na web, inclusive preparando as crianças para lidar com fake news, ao mesmo tempo em que exercitam a leitura de jornais impressos.

De acordo com várias pesquisas nacionais e internacionais o brasileiro é dos piores leitores do mundo.

E que é professor e professora sabe das dificuldades que nossos estudantes, de uma forma geral, têm com a interpretação e compreensão de textos.

Neste contexto, não saber ler é como ser cego e perambular pela web sem bengala e sem cão guia. A qualquer momento se pode esbarrar com o indesejável e acabar se machucando.

E a cegueira da falta de leitura e interpretação não fica restrita ao hipertexto, estende-se cá para fora, tornando-se um enorme entrave ao desenvolvimento pessoal, em uma sociedade letrada e complexa como esta em que vivemos.